Indústria de vestuário e calçados espera recuperação no ‘supertrimestre’ após ano de retração

Setores de vestuário e calçados em Minas Gerais veem em vendas de fim de ano chance de se aproximar de 2025, mas encaram desafios como importados e endividamento familiar
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Indústria de vestuário e calçados espera recuperação no ‘supertrimestre’ após ano de retração
Indústria de calçados aponta que a concorrência com os produtos importados no mercado interno é desleal | Foto: José Paulo Lacerda / CNI

Os setores de vestuário e calçados apostam nas vendas do Dia das Crianças, Black Friday e Natal para se aproximar do desempenho do ano passado, mas seus representantes apontam um consumo retraído, endividamento e concorrência dos importados como possíveis entraves.

O último trimestre do ano, tradicionalmente o período mais importante para o comércio e a indústria de bens de consumo, chega com expectativas moderadas para os segmentos de vestuário, calçados, bolsas e cintos em Minas Gerais. O chamado “supertrimestre”, impulsionado pelo Dia das Crianças, Black Friday e Natal, deverá ser marcado mais pela tentativa de recuperação das perdas acumuladas ao longo de 2026 do que por crescimento.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Minas Gerais (Sindivest-MG), Rogério Vasconcelos, o ano tem sido de retração e as empresas não conseguiram repetir o desempenho de 2025. A expectativa, agora, é que as vendas dos últimos meses ajudem o setor a se aproximar dos níveis anteriores.

“Não dá para a gente pensar que vai ter queda. O que nós esperamos é recuperar, chegar perto do que a gente tinha antes. Não vai ter crescimento, mas pelo menos esperamos recuperar”, afirma.

Segundo ele, o mercado permanece retraído e o cenário econômico tem dificultado decisões de produção e contratação. Entre os fatores apontados estão a insegurança jurídica, a carga tributária e a concorrência dos produtos importados comercializados pelas plataformas digitais.

A chamada “taxa das blusinhas” é um dos principais pontos de preocupação para o setor. Vasconcelos ressalta que o impacto das compras internacionais vai muito além do vestuário e critica o nome que a isenção recebeu. Ele avalia que a isenção do imposto para as importações de menos de US$ 50 atinge segmentos que vão além da moda. “Todo mundo hoje compra de tudo na internet. Então, não é só o vestuário, mas calçados, acessórios, objetos de decoração, eletrônicos, utensílios de cozinha e até autopeças. Compram de tudo”, afirma.

Para o dirigente, a expansão das compras internacionais pode afetar toda a cadeia produtiva, com reflexos sobre comércio, empregos e renda. “Uma loja que fechou deixou gente desempregada. Alguém que vivia daquele aluguel, daquele imóvel, ficou sem aquele aluguel. Então, isso atrapalha toda a economia, toda a cadeia”, questiona.

No setor de calçados, bolsas e cintos, o presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados, Bolsas e Cintos de Minas Gerais (Sindicalçados-MG), Luiz Ballesteros, também aponta a concorrência dos produtos importados como um dos obstáculos para a indústria nacional.

Ele, porém, destaca que a reivindicação não é pelo fim das compras internacionais ou necessariamente pela tributação dos produtos, mas por condições consideradas equivalentes de competição.

“A questão não é o imposto. A isenção, eu não questiono. A questão é a concorrência leal. Eu também gostaria de ter isenção de imposto para o meu produto. Então, eu queria isonomia no tratamento”, afirma.

Ballesteros também chama atenção para as diferenças entre as exigências impostas à produção nacional e as condições de fabricação dos produtos importados. Segundo ele, as empresas brasileiras estão submetidas a regras trabalhistas e de segurança que precisam ser observadas, enquanto há dúvidas sobre as condições de produção de parte dos itens que chegam ao País.

“Será que essas indústrias que estão trazendo esses produtos para dentro do Brasil têm a mesma fiscalização que a gente tem aqui? Será que esses produtos não estão sendo produzidos com trabalho infantil?”, questiona.

Além da concorrência externa, o endividamento das famílias aparece como outro fator de pressão sobre as vendas no fim do ano. Para Ballesteros, o comprometimento da renda com dívidas reduz a capacidade de consumo justamente em um período tradicionalmente importante para o varejo.

“Existe um certo pessimismo. O endividamento da população realmente é uma coisa que está chegando a um nível preocupante. Não sobra dinheiro. As pessoas estão tendo que pagar as contas e, na hora de consumir, acabam não consumindo”, afirma.

O cenário coloca em xeque a capacidade de o último trimestre compensar um ano considerado difícil pelos dois segmentos. A combinação de menor poder de compra, mercado retraído e maior participação dos produtos importados torna mais cuidadosa a preparação das empresas para o período de maior demanda.

Produção não prevê temporários

O cuidado também aparece no mercado de trabalho. De acordo com Vasconcelos, as indústrias do vestuário não estão, neste momento, planejando contratações temporárias para atender às vendas de fim de ano. “Na produção, não está tendo contratação de temporários. Não está acontecendo”, afirma.

Segundo ele, eventuais contratações podem ocorrer mais adiante no comércio, diretamente ligado ao movimento de vendas do período, mas não há previsão semelhante na produção industrial. O mesmo afirma Ballesteros: as indústrias vão produzir com o contingente que já possuem.

Com isso, o “supertrimestre” chega para os fabricantes mineiros com uma expectativa mais voltada à recuperação do que à expansão. Depois de um ano de retração, a meta é aproveitar o calendário de consumo para reduzir a distância em relação ao desempenho de 2025, sem, contudo, projetar crescimento. “A gente espera que a coisa recupere, volte ao menos ao normal”, resume Vasconcelos.

Setor de autopeças também sofre com importados

O setor de autopeças também chega ao último trimestre do ano diante de um cenário mais difícil. A atividade tradicionalmente aquecida pela maior ocorrência de feriados e proximidade do período de férias, tem sofrido com o avanço das importações irregulares e da concorrência com o e-commerce. Segundo o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Automóveis e Acessórios de Belo Horizonte (Sincopeças), Gustavo Pereira, 2026 tem sido pior que o ano passado.

Para ele, o problema não está na importação formal, mas na entrada de produtos sem condições equivalentes de competição. “Quando existe uma formalidade, tudo certinho, é muito bom. Mas quando se traz algo que é informal e irregular, isso traz uma competitividade irregular para a gente. Então é muito ruim”, afirma.

Pereira também aponta como desafio a venda direta das indústrias ao consumidor final, que, segundo ele, reduz a participação dos demais elos da cadeia de distribuição. “Existe a cadeia fábrica, distribuidor, muitas vezes loja e consumidor final. Então acaba que ele está indo do ponto um para o quatro direto. Realmente a gente vem sofrendo com esse aspecto”, diz.

A falta de mão de obra é outro problema citado pelo dirigente. Segundo ele, há dificuldade para encontrar trabalhadores tanto qualificados quanto não qualificados. “Está faltando mão de obra. Não é questão de mão de obra qualificada ou não qualificada. É realmente de não ter trabalhador”, diz.

Apesar das dificuldades, o presidente do Sincopeças vê espaço para manutenção do movimento no fim do ano. O elevado endividamento das famílias e o custo das viagens podem favorecer o deslocamento de consumidores de carro, aumentando a demanda por manutenção e peças.

“O cenário para o final do ano fica mais favorável, porque hoje você tem a família brasileira muito endividada, passagem aérea muito cara. Então, sobra a alternativa de a pessoa viajar de carro. Automaticamente, ela também tem que ter o carro, fazer manutenção”, afirma. A expectativa, diante desse cenário, é ao menos repetir o desempenho do ano passado.

Sobre o autor

Juliana Sodré

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo pela PUC Minas, com especialização em Imagens e Culturas Midiáticas pela UFMG.

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