Dia do Sorvete: mercado cresce em Minas com avanço do consumo e mudança de hábitos

Na Easyice, comercialização de sorvetes cresceu quase 30% em agosto; pesquisa aponta avanço do consumo, maior procura por produtos premium e adaptação das porções
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Dia do Sorvete: mercado cresce em Minas com avanço do consumo e mudança de hábitos
Foto: Reprodução/ Adobe Stock

A chegada da primavera e do calor já começa a movimentar o mercado de sorvetes em Minas Gerais. No Dia do Sorvete, celebrado nesta quarta-feira (23), fabricantes mineiros entram na temporada de dias mais quentes com expectativa de crescimento das vendas e mudanças no perfil do consumidor. Na Easyice, as vendas da categoria cresceram em agosto, na comparação com o mesmo mês de 2025, e a empresa projeta alta de 30% neste ano. O resultado interrompeu a estabilidade observada pela empresa nos meses anteriores.

“Existe uma correlação muito elevada entre nossas vendas e a temperatura. Agosto já foi um mês mais quente e vimos esse crescimento refletido nos resultados”, explica o diretor da Easyice, Francisco Melo.

A realidade da empresa converge com o momento do mercado. Conforme uma pesquisa da Associação Brasileira do Sorvete e Outros Gelados Comestíveis (Abrasorvete), conduzida pela Empresa Júnior da Fundação Getulio Vargas (EJFGV), o consumo per capita de sorvete no Brasil chegou a 8,68 litros por ano por pessoa, alta de 13% ante os 7,7 litros registrados na pesquisa anterior, há dois anos. O levantamento ouviu 2,5 mil pessoas em todo o País.

Em Minas Gerais, o consumo médio chegou a 9,5 litros por pessoa e, de acordo com o levantamento, o número coloca o Estado acima da média nacional. Ainda, dados apresentados pelo presidente do Sindicato da Indústria de Sorvetes do Estado de Minas Gerais (Sindisorvete MG), Wander Bertolace apontam que o mercado brasileiro movimenta atualmente cerca de R$ 18 bilhões por ano, crescimento de aproximadamente 13% em relação à pesquisa anterior.

Menos volume, mas frequência preservada

Embora a indústria mineira do sorvete esteja se fortalecendo a cada ano, a perspectiva de que o aumento do uso de canetas emagrecedoras à base de GLP-1 poderia ter efeitos negativos no setor, acabou não se comprovando. A pesquisa da Abrasorvete mostra que 52,8% dos entrevistados reduziram o consumo de açúcar no último ano, enquanto 40% aumentaram a ingestão de proteínas. Entre os consumidores de medicamentos para emagrecimento à base de GLP-1, 54,1% afirmaram ter reduzido o tamanho das porções.

A mudança, porém, não significa necessariamente abandono do sorvete. Segundo Bertolace, houve redução do volume consumido, mas não da frequência de visitas às sorveterias. O movimento tem sido acompanhado pela procura por porções menores e por produtos com apelo funcional.

Os dados mostram ainda que, entre os usuários de medicamentos em caneta, 40,5% procuram versões sem açúcar e 36,2% optam por produtos proteicos. O levantamento também aponta que 73,7% dos consumidores estariam dispostos a pagar mais por um sorvete gourmet ou artesanal.

Sorvete
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Consumidores cada vez mais qualificados

O sabor é o principal fator de decisão na hora de escolher o produto para 62,6% dos entrevistados, enquanto o preço é apontado por 15,6%. Na avaliação dos consumidores, cremosidade e intensidade do sabor também estão entre os atributos associados à qualidade.

Para Francisco Melo, a mudança favorece empresas que conseguem combinar inovação e qualidade. “A pessoa que usa medicamento para emagrecimento tende a reduzir o volume, mas manter a qualidade. Por isso, entendemos que entregar um produto de qualidade ajuda a manter o consumidor fiel ao sorvete”, pondera.

Mercado pulverizado

Dos sorvetes gourmet com alto valor agregado às sorveterias comuns de bairros, a produção e venda da sobremesa movimenta vários tipos e tamanhos de empresas em Minas Gerais. Um estudo do Sebrae Minas, com base em dados da Receita Federal, aponta a existência de mais de 2,8 mil pequenos negócios ativos ligados ao mercado de sorvetes e gelados comestíveis no Estado. São 1.520 microempresas, 1.035 microempreendedores individuais e 276 empresas de pequeno porte.

Na indústria de fabricação de sorvetes, especificamente, são 484 empresas em Minas Gerais, responsáveis por 3.243 empregos formais e uma massa salarial anual de R$ 85,6 milhões, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2025, divulgados pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Para Bertolace, a forte presença de empresas menores ajuda a explicar a capilaridade da atividade no Estado e a popularidade do sorvete entre os mineiros.

O setor também apresentou saldo positivo de 51 empregos formais no primeiro trimestre de 2026, enquanto a atividade registrou retração de 181 postos no País no mesmo período, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Exportação de sorvete

Além do mercado doméstico, empresas mineiras começam a buscar espaço no exterior. Segundo Bertolace, há contatos comerciais envolvendo produtos para Portugal, Dubai e Espanha. O movimento, de acordo com ele, também alcança o açaí, que é produzido por parte das indústrias de sorvetes.

Na Easyice, entretanto, a expansão internacional ainda está em uma etapa anterior. A empresa já atende Minas Gerais, São Paulo e Distrito Federal e avalia uma futura entrada no mercado externo, especialmente com produtos à base de açaí. “No curto prazo, ainda não estamos preparados para exportar. Precisamos estruturar melhor a fábrica, mas pretendemos dar esse passo no médio prazo”, afirma Melo.

Sazonalidade pesa no caixa

Apesar do crescimento, a atividade mantém uma característica que exige planejamento financeiro das empresas: a forte sazonalidade. Na Easyice, os volumes de venda podem cair significativamente durante o inverno, enquanto a retomada ocorre antes mesmo da chegada oficial do verão.

O desafio é administrar o descasamento entre o aumento das vendas, o recebimento dos clientes e as obrigações tributárias. Segundo Melo, a carga tributária pode representar entre 35% e 40% da operação.

“Quando saímos de um faturamento de X na baixa temporada para algo próximo de duas vezes esse valor em agosto e setembro, o compromisso fiscal chega antes do recebimento do cliente. Por isso, precisamos entrar na temporada com o fluxo de caixa preparado”, explica.

A estratégia, segundo ele, é formar caixa ao longo do ano para atravessar os meses de menor demanda e financiar a expansão durante a retomada. A sazonalidade também influencia férias das equipes, manutenção de equipamentos e formação de estoques.

A pesquisa da Abrasorvete indica, contudo, que o consumo não desaparece durante os meses frios, mas diminui a recorrência. Embora o verão concentre a maior frequência, com 71,3% dos entrevistados consumindo sorvete ao menos uma vez por semana, apenas 8,2% disseram nunca consumir o produto no inverno.

Premium, funcional e novas ocasiões

Além da diminuição da porção, a transformação do mercado também tem influenciado na composição dos produtos. De acordo com a pesquisa nacional, ingredientes naturais aumentariam a propensão de compra de 40,4% dos consumidores, enquanto produtos ricos em proteína atraem 34,8%. Entre os consumidores, 73,7% afirmam que pagariam mais por produtos gourmet ou artesanais.

Na Easyice, Melo afirma que a empresa tem ampliado o portfólio com novos sabores, formatos e produtos, além de versões sem adição de açúcar e itens à base de frutas e chocolate. Para acompanhar essa transformação, o setor também investe em tecnologia e qualificação. Segundo o dirigente da Sindisorvete-MG, empresas mineiras vêm modernizando parques industriais, ampliando a automação e fortalecendo áreas de desenvolvimento de produtos e segurança alimentar.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.

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