Geração de empregos em Minas cai 27% e tem pior primeiro semestre desde a pandemia
O mercado de trabalho em Minas Gerais encerrou o primeiro semestre de 2026 em evidente desaceleração, com o pior saldo de empregos no período desde 2020, ano marcado pelos efeitos da pandemia de Covid-19. Os dados são do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados na quarta-feira, (29), pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Entre janeiro e junho, o Estado abriu 108.977 vagas com carteira assinada, queda de 27% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o saldo havia sido de 149.187 postos. No acumulado do semestre, foram 1,47 milhão de admissões e 1,36 milhão de desligamentos.
Entre os grandes setores da economia, o Comércio foi o único a inverter de saldo positivo para negativo. Em 2026, o setor fechou o primeiro semestre com déficit de 1.579 vagas, ante saldo positivo de 6.307 no mesmo período de 2025.
A Indústria registrou a maior retração em proporção: o saldo recuou de 28.127 para 16.618 postos, queda de quase 41%. Já a construção civil obteve a menor desaceleração (-6,8%) oscilando de 19.692 postos para 18.348.
Por outro lado, o setor de Serviços continua sendo aquele que mais gera empregos líquidos no Estado, embora tenha perdido força. No primeiro semestre deste ano, o saldo da categoria caiu de 56.449 para 45.812 vagas, queda de 18,8%. A Agropecuária apresentou retração semelhante, de 22,9%, passando de 38.622 para 29.784 postos.
O economista e docente dos cursos de gestão do Uni-BH, Fernando Sette Júnior, avalia que a desaceleração no mercado de trabalho em Minas Gerais decorre principalmente da diminuição das admissões, que recuaram 2,8%, enquanto os desligamentos permaneceram praticamente estáveis. “O mercado de trabalho não vive uma onda de demissões, mas uma desaceleração nas contratações. As empresas preservam seus trabalhadores, porém adiam novas vagas diante das incertezas”, destaca.
Além dos fatores internos, o economista ressalta que o cenário internacional também influencia esse comportamento. Segundo ele, a desaceleração do crescimento global, o aumento das tensões geopolíticas e o fortalecimento de políticas protecionistas, especialmente com a ampliação de tarifas comerciais por grandes economias, aumentam a incerteza para empresas exportadoras mineiras.
Somado a isso, a proximidade das eleições brasileiras tende a elevar ainda mais a cautela por parte dos empresários e investidores, diante das dúvidas sobre a condução da política econômica, do equilíbrio fiscal e das futuras regras tributárias do novo governo. “Esses fatores tendem a reduzir temporariamente a disposição para investir e contratar”, acrescenta Sette Júnior.
Comércio sente consumo fraco; indústria enfrenta incertezas
A retração no comércio mineiro observada no primeiro semestre pode ser explicada pelo setor ser mais sensível às oscilações do consumo das famílias. Segundo o economista, com o crédito relativamente restrito, maior comprometimento da renda das famílias e um crescimento econômico menos intenso do que nos anos anteriores, o ritmo das vendas perdeu força.
“Muitas empresas do varejo optaram por ajustar seus quadros de funcionários, resultando em um número de desligamentos superior ao de admissões no primeiro semestre”, argumenta Sette Júnior.

Com relação à indústria mineira, a queda acentuada no período pode estar integrada tanto ao mercado interno quanto ao comércio exterior, especialmente nos segmentos de siderurgia, mineração, metalurgia e transformação. “A desaceleração da economia mundial, associada ao aumento das barreiras comerciais e das disputas tarifárias entre grandes economias, reduz a previsibilidade das exportações e desestimula novos investimentos produtivos, refletindo diretamente na contratação de trabalhadores”, complementa o especialista.
Emprego formal mantém fôlego apesar da desaceleração
Apesar da desaceleração, os indicadores do mercado de trabalho em Minas Gerais ainda podem ser considerados resilientes. O economista destaca que tempo médio de permanência dos trabalhadores desligados aumentou ligeiramente, de 18,1 para 18,2 meses, enquanto o estoque total de empregos formais cresceu 0,8%.
“Isso demonstra que as empresas continuam preservando boa parte dos vínculos existentes, mesmo reduzindo o ritmo de novas admissões”, pontua.
Para o segundo semestre, a tendência dependerá da evolução da economia brasileira, da redução das incertezas relacionadas ao cenário eleitoral e do comportamento da economia internacional. “Caso haja melhora na confiança dos empresários e maior estabilidade nas relações comerciais globais, é possível que o ritmo de contratações volte a ganhar força”, finaliza Sette Júnior.
Saldo do mercado de trabalho em Minas*
- 2020: -122.409
- 2021: 203.987 (+326%)
- 2022: 147.770 (-27,6%)
- 2023: 144.436 (-2,3%)
- 2024: 163.770 (+13,4%)
- 2025: 149.187 (-8,9%)
- 2026: 108.977 (-27%)
(*) Saldo no primeiro semestre (2020-2026) | Fonte: Caged
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