Projetos de mineração no Parque do Itacolomi preocupam a comunidade local
“O entorno e a zona de amortecimento do Parque Estadual do Itacolomi estão sob grave ameaça da mineração predatória em Ouro Preto”, alerta a deputada Duda Salabert (PSOL) em seu perfil da rede social X. A possibilidade de implantação de projetos de mineração na região do Parque Estadual do Itacolomi, na região de Ouro Preto, já mobiliza comunidades locais, políticos, órgãos ambientais e empresas envolvidas.
As iniciativas se concentram em regiões como Lavras Novas, Chapada, Salto, Rancharia e Fazenda Tesoureiro, áreas marcadas pela presença de Mata Atlântica, campos rupestres, recursos hídricos e relevância turística e cultural. A economia local, fortemente baseada no ecoturismo, é apontada como um dos principais ativos ameaçados.
Dois empreendimentos resumem o movimento de interesse minerário. O primeiro é o Projeto Tesoureiro, da Rio Manso Mineração Ltda., que prevê a exploração de minério de ferro por meio de lavra a céu aberto em área rural de Ouro Preto. O processo tramita sob o número PA/SLA nº 2568/2025, classificado como Classe 3, na modalidade Laci, que é o modelo de licenciamento concomitante de etapa única, que permite a análise conjunta das licenças prévia, de instalação e de operação.
O projeto abrange áreas das fazendas Tesoureiro e Manso II, sendo a primeira de propriedade da própria mineradora e a segunda pertencente à Anglo American Minério de Ferro Brasil S.A. De acordo com parecer técnico estadual, a iniciativa prevê intervenção ambiental em 22,0731 hectares, dos quais 20,0857 hectares correspondem à vegetação nativa da Mata Atlântica em estágio secundário médio de regeneração.
Entre os ambientes impactados estão formações de floresta estacional semidecidual montana, tipologia de vegetação da Mata Atlântica, tanto densa quanto rala, além de campos rupestres e áreas já antropizadas. Como medida compensatória, foi proposta a recuperação de 40,1904 hectares na Fazenda Água Limpa, localizada no município de Ervália, dentro do Parque Estadual Serra do Brigadeiro.
O estudo de impacto ambiental (EIA/Rima) já foi apresentado, com coordenação técnica atribuída à Consultoria e Empreendimentos de Recursos Naturais (CERN).
Já o segundo caso, envolve o Projeto Rancharia – Fase 2, da BHP Billiton Brasil Ltda. Diferentemente do Tesoureiro, não se trata neste momento de lavra, mas de pesquisa mineral por meio de sondagens geológicas. A iniciativa está vinculada ao Processo SLA nº 1687/2023 e ao processo de intervenção ambiental SEI nº 1370.01.0029348/2023-67.
A proposta previa a abertura de acessos e praças de sondagem também na Fazenda Tesoureiro, em área associada ao processo minerário ANM nº 830.949/2006. Apesar da menor extensão (0,4419 hectare de intervenção total), o projeto incide sobre área considerada sensível, incluindo 0,3324 hectare de campo rupestre ferruginoso.
Laudo técnico identificou, no local, a presença de 39 indivíduos da orquídea Cattleya caulescens, espécie ameaçada, além de apontar potencial espeleológico relevante. O processo teve sugestão de arquivamento por insuficiências técnicas e documentais, sem impedir, no entanto, a apresentação de novo pedido pela empresa no futuro.
Diante desse cenário, comunidades locais têm se mobilizado contra o avanço dos projetos. Moradores de Lavras Novas, Chapada, Salto, Saramenha, Itatiaia e Rancharia articulam resistência desde reunião realizada em 27 de abril deste ano, em Lavras Novas. A mobilização se consolidou no movimento “Salve o Itacolomi”, que a reportagem procurou, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Na conta do Instagram do movimento, há um apelo para os moradores da região: “Fique esperto! Defenda sua vida, seu trabalho, seu patrimônio! Nós moradores de Ouro Preto e visitantes precisamos nos unir!”, defende a postagem.
Entre as principais reivindicações está a exigência de análise aprofundada dos impactos cumulativos das atividades minerárias, considerando os efeitos sobre o território, os recursos hídricos, o turismo, a biodiversidade e o patrimônio cultural.
No campo político, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) aprovou o Requerimento de Comissão nº 21.267/2026, que solicita a realização de audiência pública para debater o Projeto Tesoureiro e seus desdobramentos nas comunidades inseridas na zona de amortecimento do parque, porém, ainda sem data definida.
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