Mineração amplia presença feminina, mas metade dos conselhos não tem mulheres

Relatório da WIM Brasil mostra que participação feminina na mineração chegou a 25%, mas avanço ainda não se reflete nos cargos de liderança
Mineração amplia presença feminina, mas metade dos conselhos não tem mulheres
Foto: Reprodução/ Adobe Stock

A participação feminina na mineração brasileira avançou nos últimos anos, mas o crescimento ainda não se reflete na mesma proporção nos cargos de maior poder de decisão. Segundo o 6º Relatório de Indicadores da Women in Mining Brasil (WIM Brasil), metade dos conselhos de administração das empresas pesquisadas não conta com nenhuma mulher.

No entanto, a participação feminina na força de trabalho passou de 21% para 25% entre 2023 e 2026. O levantamento mostra que o avanço da representatividade ocorre de forma desigual entre os níveis hierárquicos. Embora as mulheres tenham ampliado sua participação no setor, a progressão até o topo da estrutura corporativa permanece como um dos principais desafios para a equidade de gênero na indústria mineral.

Na gestão operacional, por exemplo, a presença feminina chegou a 22% em 2026, mais que o dobro dos 10% registrados em 2024. Em 2025, o índice havia alcançado 17%. As contratações para posições de gestão também indicam avanço: as mulheres representaram 25,3% do total de admissões para essas funções, tornando essa etapa a mais equilibrada do fluxo de carreira feminino no setor.

Apesar dos resultados, a projeção do relatório indica que, mantida a tendência linear de crescimento observada entre 2023 e 2026, a mineração só alcançaria a paridade de gênero, definida como uma participação feminina de 50%, por volta de 2049. A estimativa considera a evolução registrada no período e não representa uma previsão definitiva.

Políticas de diversidade avançam, mas programas perdem espaço

Os indicadores de governança mostram um cenário contraditório. Enquanto 85% das empresas incluem princípios de diversidade, equidade e inclusão (DEI) em seus códigos de conduta, a proporção de companhias com programas formalizados nessa área caiu de 63%, em 2025, para 48%, em 2026, o menor patamar da série histórica.

A estrutura destinada à execução dessas políticas também apresenta limitações. Apenas 34% das empresas mantêm comitês de diversidade com regimento, orçamento e profissional dedicado. Além disso, 48% ainda não têm verba própria para as iniciativas.

Por outro lado, a mensuração dos indicadores ganhou espaço. A parcela de empresas que realizam censos de diversidade anualmente passou de 29%, em 2025, para 41%, em 2026. As cláusulas de diversidade nas políticas internas também avançaram dez pontos percentuais, chegando a 71%.

A aplicação dessas diretrizes, contudo, permanece concentrada no recrutamento e na seleção, presentes em 80% das empresas. Nos processos relacionados à progressão profissional, a cobertura é menor: apenas 18% incluem cláusulas de diversidade nas políticas de promoção, enquanto 16% as contemplam na comunicação interna.

“Vimos a formalização de programas cair de 63% para 48%, e menos da metade das empresas ainda concilia comitê, orçamento e responsável dedicado à frente da agenda. O próximo passo do setor é dar à equidade a mesma disciplina de gestão que ele aplica à segurança e à produtividade, com metas, orçamento e responsabilização claros”, comenta a diretora-presidente da WIM Brasil, Patrícia Procópio.

Auditorias salariais avançam, mas liderança segue desigual

Na frente de equidade salarial, 61% das empresas realizam auditorias periódicas, quase o dobro dos 31% registrados em 2021. O indicador aponta maior adoção de mecanismos para identificar possíveis diferenças de remuneração, embora a presença feminina nos níveis mais altos da hierarquia continue limitada.

O relatório também identifica avanços nas políticas de apoio à maternidade e à primeira infância. Benefícios relacionados à amamentação e ao apoio a filhos de até três anos são formalizados por 69% das empresas, o maior percentual da série histórica. Além disso, 43,5% das respondentes oferecem licença-maternidade de 180 dias.

Mulheres negras e pessoas com deficiência são menos representadas na liderança

O levantamento também evidencia diferenças de representatividade relacionadas a raça e deficiência. Entre as mulheres que trabalham no setor mineral, 48,8% são brancas, 36,3% pardas e 9,3% pretas. Nos cargos de liderança, porém, a participação de mulheres brancas sobe para 61,3%, enquanto mulheres pardas representam 24,5% e mulheres pretas, 5,1%.

O recorte indica que a desigualdade se acentua à medida que se avança na hierarquia corporativa. Embora mulheres pardas e pretas componham uma parcela relevante da força de trabalho feminina, sua participação é menor nos postos de liderança.

A diferença também aparece na inclusão de pessoas com deficiência (PCDs). Esse grupo representa 4,9% dos trabalhadores em funções não gerenciais, mas apenas 1,2% da liderança operacional e 0,3% da alta liderança. A distância entre a base e o topo da hierarquia chega a 4,6 pontos percentuais.

Na diversidade sexual, o desafio está em transformar políticas formais em ações mensuráveis. Embora 82% das empresas incluam a pauta LGBTQIAPN+ em políticas e processos internos, somente 45% estabelecem metas e indicadores específicos para o tema.

Pesquisa reúne 62 empresas do setor mineral

O 6º Relatório de Indicadores WIM Brasil foi elaborado com base em informações de 62 empresas do ecossistema mineral brasileiro, sendo 36 mineradoras, 20 prestadoras de serviços e seis fornecedoras. O número de participantes cresceu quase 290% desde 2021, quando 16 empresas responderam à pesquisa.

As mineradoras participantes informaram ter, em conjunto, 120.183 empregados, o equivalente a 52,3% dos 230.011 empregos diretos da indústria extrativa mineral registrados pelo Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged) e divulgados pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) em fevereiro de 2026.

Os dados abrangem o período de 1º de junho de 2025 a 31 de maio de 2026 e avaliam seis dimensões: perfil das respondentes, governança, representatividade, desenvolvimento feminino e carreira, segurança e infraestrutura e retenção. Nesta edição, o questionário ampliou a análise para incluir raça e etnia, gerações, pessoas com deficiência, diversidade sexual e configurações familiares.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.


Publicidade Legal

Impresso

Ver outras datas

Digital

Ver outras datas
Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas

Acessos importantes

Especial
Aos 94 anos, Diário do Comércio revisita as campanhas que ajudaram a moldar Minas