Renda baixa e despesas altas contribuem para que contas básicas sejam a 2ª maior causa de inadimplência em Minas

Débitos com água, luz e gás representam 21,1% dos registros de inadimplência no Estado, participação superior à média nacional, segundo a Serasa
Renda baixa e despesas altas contribuem para que contas básicas sejam a 2ª maior causa de inadimplência em Minas
Contas consideradas básicas, como água e luz, são as que mais foram regularizadas no País | Crédito: Marcos Santos/USP Imagens

As contas básicas, como água, luz e gás, são a segunda principal categoria de dívida entre os consumidores inadimplentes de Minas Gerais, diferentemente do cenário nacional, em que ocupam a terceira posição. É o que mostra o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa, referente a setembro. Os débitos com esses serviços representam 21,1% dos registros de inadimplência no Estado, participação 0,78 ponto percentual superior à média brasileira, de 20,32%.

O peso maior das despesas essenciais entre as dívidas dos mineiros ocorre em um contexto de pressão sobre o orçamento doméstico. Os gastos com supermercado, contas recorrentes, moradia e transporte somam R$ 2.840 por mês. Enquanto isso, o rendimento domiciliar per capita médio de Minas Gerais chegou a R$ 2.353 em 2025, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A diferença entre os dois cenários evidencia a maior participação das despesas cotidianas no perfil da inadimplência mineira. Para o especialista em educação financeira da Serasa, José Capobianco, a dificuldade de manter os pagamentos essenciais em dia está relacionada ao comprometimento da renda com os gastos básicos.

No Estado, bancos e cartões de crédito concentram a maior parcela dos registros de inadimplência, com 26,4%, seguidos pelas contas básicas. As dívidas com financeiras aparecem na terceira posição, com 19,1%. No Brasil, a ordem é diferente: bancos e cartões lideram, com 27,16%, enquanto as financeiras ocupam o segundo lugar, com 20,66%, ultrapassando as contas básicas, que representam 20,32% do total.

Despesas essenciais pressionam orçamento

Conforme dados da pesquisa de custo de vida da Serasa, realizada em janeiro deste ano, o custo médio de vida em Minas Gerais é de R$ 3.360 por mês, abaixo da média nacional, de R$ 3.520. O levantamento considera dez categorias de despesas, entre elas moradia, supermercado, contas recorrentes, transporte, saúde, lazer e educação.

No Estado, os gastos médios com supermercado representam R$ 860 mensais. A moradia soma R$ 1.120, enquanto as contas recorrentes, como água, luz e internet, chegam a R$ 510. Já a mobilidade representa R$ 350 por mês. Juntos, os quatro grupos de despesas essenciais alcançam R$ 2.840 mensais. O valor corresponde a aproximadamente 84,5% do custo médio de vida mineiro estimado pela Serasa.

Segundo Capobianco, o acúmulo dessas despesas reduz a margem disponível para outros pagamentos e dificulta a organização financeira.

“Vemos que a média de rendimento do mineiro fica muito abaixo da média de gasto previsto na nossa pesquisa. Isso pode influenciar nessa maior dívida em relação às contas básicas, porque o consumidor de Minas Gerais pode ficar apertado desde as contas primárias”, avalia.

Minas tem proporção de inadimplentes abaixo da média nacional

Apesar de concentrar o segundo maior contingente de consumidores negativados do País, Minas Gerais apresenta uma proporção de inadimplência inferior à média brasileira. No Estado, 47,52% da população adulta está inadimplente, ante 51,1% no Brasil. A diferença é de 3,58 pontos percentuais.

Minas contabiliza 8,05 milhões de pessoas negativadas, atrás apenas de São Paulo. O Estado ultrapassou o Rio de Janeiro em setembro, após registrar acréscimo de 15,3 mil inadimplentes em relação a agosto, crescimento de 0,19%. No mesmo período, o território fluminense apresentou redução de aproximadamente 65 mil consumidores nessa condição.

O especialista ressalta que o principal diferencial mineiro está na relevância das contas básicas entre os registros de dívidas negativadas, e não necessariamente em uma proporção maior de consumidores inadimplentes. Os consumidores mineiros acumulam 31,8 milhões de dívidas negativadas, que somam R$ 56,8 bilhões. O valor médio devido por pessoa chega a R$ 7.053,05, o equivalente a aproximadamente quatro registros de dívidas por consumidor inadimplente.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.


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