‘Mineração é ponto de partida, nunca destino final’: secretário detalha modelo de São Gonçalo do Rio Abaixo para depois do minério
Uma cidade de 12 mil habitantes que viu sua receita de mineração saltar de R$ 20 milhões para R$ 286 milhões em 20 anos tinha dois caminhos: se acomodar, ou usar esse recurso para deixar de depender dele. Essa foi a tese levada a uma conversa no HackTown 2026, realizado de 3 a 7 de setembro em Santa Rita do Sapucaí. Sílvia Castro entrevistou, para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, Gabriel Quintão, secretário de Desenvolvimento Econômico de São Gonçalo do Rio Abaixo. Na conversa, Gabriel Quintão detalhou o modelo que o município vem construindo para transformar riqueza mineral em desenvolvimento de longo prazo.
Medir desenvolvimento além do PIB
Gabriel Quintão defendeu que inovação no setor público é tão necessária quanto no setor privado, e citou a criação recente, aprovada em câmara municipal, do Observatório de Desenvolvimento Econômico Social de São Gonçalo do Rio Abaixo, que reúne indicadores para acompanhar o avanço da cidade em áreas como educação e tecnologia. Segundo ele, o município oferece Wi-Fi em todas as praças públicas e abriga o primeiro parque tecnológico distribuído do IFMG em Minas Gerais, além de manter uma secretaria própria de ciência e tecnologia.
Para o secretário, medir desenvolvimento apenas pelo PIB é insuficiente, já que riqueza nem sempre se converte em qualidade de vida, um raciocínio que, segundo ele, a própria ONU vem revendo. Como resultado desse trabalho, São Gonçalo do Rio Abaixo recebeu recentemente um prêmio da Agenda Pública do Ibram como a cidade mineradora com a melhor qualidade de vida entre as 79 avaliadas no País.
Os três ciclos de um município minerador
Gabriel Quintão descreveu a trajetória do município em três ciclos. O primeiro foi marcado pela chegada da riqueza mineral, usada para estruturar a cidade com avenidas duplicadas, escolas de tempo integral, um hospital moderno, equipamentos de cultura e lazer, pavimentação rural e transporte público gratuito. O segundo ciclo foi voltado à atração de investimentos e indústrias, com a preparação de novos distritos industriais que somaram R$ 303 milhões em investimentos privados só entre 2025 e 2026.
Segundo ele, o município vive agora um terceiro momento, focado em capital intelectual, com o fortalecimento de uma unidade do Senai com laboratório maker e a chegada de uma unidade tecnológica do IFMG. A meta inclui ainda chegar a 100% de tratamento de esgoto e água até o fim de 2028.
Agência Prospera: garantir que o trabalho sobreviva aos mandatos
Para assegurar que essas iniciativas não dependam de uma única gestão, Gabriel Quintão apresentou a Agência Prospera, agência de desenvolvimento econômico, social e territorial que descreveu como pioneira em um município minerado. Segundo ele, a proposta é garantir que programas e ações atravessem diferentes prefeitos e secretários, evitando que o trabalho se perca a cada troca de governo.
Meio ambiente, moradia e mão de obra: os desafios comuns aos municípios minerados
Gabriel Quintão apontou três desafios que considera comuns a municípios mineradores de pequeno porte. O primeiro é conciliar desenvolvimento econômico com gestão ambiental, algo que, segundo ele, rendeu a São Gonçalo do Rio Abaixo um reconhecimento nacional como destaque em boas práticas ambientais entre municípios mineradores.
O segundo desafio é habitacional: o boom populacional gerado pela mineração tende a elevar o valor médio dos aluguéis e criar especulação imobiliária. Para lidar com isso, o município elaborou um plano diretor alinhado ao desenvolvimento econômico e encaminhou à câmara um programa de expansão urbana e planejamento habitacional, construído em parceria com a mineradora que atua na cidade, prevendo moradias sustentáveis com energia fotovoltaica e zero emissão de carbono para famílias de renda mais baixa.
O terceiro desafio é a mão de obra. Segundo Gabriel Quintão, a mineração contrata rapidamente e paga bons salários, mas também demite com a mesma agilidade, e historicamente não absorve mulheres em sua força de trabalho. Para compensar essa lacuna, o município tem atraído indústrias, sobretudo do setor alimentício, o que resultou no maior número de postos de trabalho femininos dos últimos 20 anos.
O sonho declarado: um pequeno Vale do Silício no Médio Piracicaba
Gabriel Quintão afirmou que o objetivo de São Gonçalo do Rio Abaixo é se tornar referência em tecnologia dentro da região do Médio Piracicaba, comparando a ambição, com a ressalva de que a comparação pode soar ousada, a um pequeno Vale do Silício regional. Segundo ele, o município já conta com um coworking voltado a startups em parceria com o IFMG e um programa de atração de tecnologia chamado Prospera Tech, além de legislação, estrutura e conexão com outras regiões que, na avaliação dele, favorecem esse movimento.
O que ele buscou no HackTown
Gabriel Quintão disse que o principal valor do HackTown está na possibilidade de conversar com atores de diferentes setores e enxergar problemas que podem ser resolvidos a partir dessas trocas. No festival, participou de um painel ao lado do professor Vander e de Bruno sobre o movimento de cidades prósperas e os dez anos do HackTown, reforçando o interesse de São Gonçalo do Rio Abaixo em construir um modelo de desenvolvimento apoiado no tripé formado por poder público, setor produtivo e academia.
Reportagem produzida com base em entrevista conduzida por Sílvia Castro para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, disponível no canal do Diário do Comércio MG no YouTube (@diariodocomerciomg).
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