Shoppings de Belo Horizonte registram queda nas vendas e no fluxo de clientes em agosto
Os shopping centers de Belo Horizonte registraram uma queda tanto nas vendas quanto no fluxo de clientes ao longo de agosto. Entre os fatores que ajudam a explicar esse cenário preocupante estão a mudança comportamental dos consumidores, questões macroeconômicas, e a sazonalidade.
A pesquisa realizada pela Associação dos Lojistas de Shopping Centers de Minas Gerais (Aloshopping-MG) indica que as vendas reais dos malls apresentaram uma variação nominal negativa de 0,66% na comparação com agosto de 2025. Já o resultado real, considerando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,22%, apresentou redução de 4,68%. Além disso, 56% dos lojistas tiveram queda nas vendas, contra 44% que apresentaram alta.
O presidente da entidade, Marcelo Oliveira, ressalta que a pesquisa é realizada exclusivamente com as lojas satélites desses empreendimentos comerciais, com destaque para os setores de calçados, confecção, acessórios, lojas de presentes e joalherias. Segundo ele, a sondagem mede o pulso do segmento que sofre a pressão mais intensa de todo o varejo.
“Essa composição não é um detalhe secundário da metodologia, são exatamente as categorias mais sensíveis à renda do consumidor e mais expostas à concorrência do comércio eletrônico internacional”, esclarece.
O dirigente ressalta que os dados desse levantamento merecem uma interpretação cuidadosa. Segundo ele, o resultado na variação nominal não é uma queda expressiva, estando muito próximo de uma estabilidade. “Em valores correntes, o faturamento das lojas praticamente não se moveu frente a agosto do ano anterior. Em termos práticos, o varejo andou de lado neste mês”, diz.
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Já sobre a variação real, Oliveira pontua que o resultado demonstra que o lojista não apenas vendeu volumes semelhantes em valores nominais, como perdeu poder de compra sobre aquilo que faturou. Para cada R$ 100 vendidos no mesmo mês do ano passado, sobraram R$ 95,32 em valor real no mês passado.
“Esse resultado não é um artefato do cálculo, ele é confirmado pela própria distribuição da amostra, em que 56% dos lojistas registraram queda de vendas e apenas 44% conseguiram crescer, parte desse crescimento, aliás, apenas nominal, corroída pela inflação”, acrescenta.
O especialista destaca que a explicação para essa combinação de estabilidade nominal com perda real está em fatores que se somam. Entre eles, estão os juros no período, o crédito caro, a concorrência com o comércio transfronteiriço, a mudança de comportamento de compra do consumidor e o componente sazonal. “Neste ano, essa fraqueza sazonal veio somada aos fatores estruturais, o que explica por que um mês tradicionalmente difícil produziu um resultado tão pressionado”, relata.
Tíquete médio e fluxo de clientes nos shoppings
Quanto ao tíquete médio, 45% dos entrevistados na Sondagem de Vendas relataram estabilidade, 30% tiveram diminuição efetiva e apenas 25% conseguiram elevar o volume médio por compras. Lembrando que o tíquete médio serve como um termômetro do comportamento dos consumidores dentro das lojas.
Já o fluxo de clientes fechou o mês de agosto em retração de 5,61%. De acordo com a entidade, esse é o indicador mais estrutural e preocupante do levantamento, pois sem clientes entrando, não é possível realizar a conversão. A maioria (73,68%) dos lojistas registrou redução de visitantes em suas unidades.
O estudo destaca que o fato dessa parcela dos comerciantes ser superior àqueles que apresentaram queda nas vendas indica que mesmo o grupo que apresentou alta nas vendas alcançou esse resultado com um volume menor de clientes, elevando a taxa de conversão ou o tíquete médio individual. Essa pode até ser uma estratégia sustentável no curto prazo, mas depende de mudanças estruturais para perdurar.
De acordo com o presidente da Aloshopping-MG, avalia que os fatores que produziram essa queda no fluxo são de naturezas distintas, porém, simultâneas. O primeiro deles é o custo do dinheiro, com juros reais recordes, que faz com que o consumidor reduza a frequência de deslocamento ao shopping, com cada ida passa a ter propósito mais definido.
Outro fator mencionado é a migração de canal, com o comércio eletrônico, doméstico e internacional, absorvendo visitas que antes chegavam ao piso da loja nos malls. O terceiro é comportamental, uma vez que os clientes têm pesquisado preços na internet antes de sair de casa, reduzindo as visitas por impulso. Além destes, há ainda a incerteza política em ano eleitoral e com as tarifas comerciais e tensões geopolíticas.
Oliveira ainda cita a queda de 2% do varejo em termos reais no último mês frente ao mesmo mês do ano passado, conforme dados do Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA).
Ele esclarece que o desempenho apresentado é, em parte, típico desse período do ano. O especialista ressalta a importância de reconhecer esse fato para não transformar um vale sazonal esperado em diagnóstico de colapso.
“Agosto ocupa, há décadas, a posição de um dos meses mais fracos do calendário, situado entre o encerramento das vendas de inverno e o início das campanhas do Dia das Crianças e da Black Friday, com a segunda quinzena de movimento tradicionalmente baixo. Nesse sentido, a fraqueza do mês era previsível”, descreve.
Para Oliveira, o que distingue o resultado apresentado neste ano é a intensidade, com a sazonalidade desfavorável sendo acompanhada de juros em 14% ao ano (a.a.), endividamento elevado das famílias, avanço abrupto do comércio transfronteiriço e um consumidor mais seletivo e digital. “É essa combinação que converte um mês fraco por natureza em um mês com maioria de lojistas em queda”, completa.
Portanto, o dirigente pontua que a leitura correta é a de decomposição. Uma parcela do resultado é sazonal e transitória, e se reverte naturalmente no quarto trimestre, e outra parcela é estrutural e permanente, exigindo resposta estratégica em mix, precificação, presença digital e experiência. Ele destaca que confundir as duas pode levar a erros simétricos, subestimar a crise estrutural ou tratar como crise um vale esperado.
Causadores da crise no setor de shopping center
Segundo a Aloshopping-MG, existem seis fatores interconectados que explicam o atual momento e os números do varejo de shoppings da capital mineira. O primeiro é monetário, com taxa Selic a 14% ao ano (a.a.), sendo o maior juro real do mundo (9,78%).
A inflação é outra fonte de preocupação, com IPCA acumulado de 4,22% nos últimos 12 meses corroendo a renda da população. O resultado final disso é crédito caro para os consumidores e capital de giro oneroso para os lojistas.
O fim da taxa sobre importações de até US$ 50 também foi mencionado, devido ao crescimento superior a 85% do cross-border, ou comércio transfronteiriço. A associação destaca o fato disso gerar uma concorrência estruturalmente desigual, com as plataformas asiáticas operando com custos de overhead (sobrecarga) mínimos, sem aluguel em shoppings ou encargos trabalhistas brasileiros e com subsídios logísticos de Estado.
Já o fator comportamental está atrelado a um consumidor endividado e seletivo, priorizando produtos essenciais e migrando para o canal digital. De acordo com o estudo, o brasileiro não deixou de consumir, mas mudou o local e a forma como gasta, com crédito do cartão rotativo acima de 346% a.a. e inflação corroendo a renda, o comportamento de consumo ficou ainda mais rígido.
Os recursos que sobram após a redução de despesas pontuais estão sendo direcionados para o pagamento de dívidas, recomposição do orçamento familiar ou formação de reserva; sem deixar espaço para novas compras no varejo. Isso, segundo a Aloshopping-MG, explica por que o fluxo cai mais do que as vendas.
As questões políticas e sazonais também ajudam a entender este momento no setor, com impactos do tarifaço dos Estados Unidos, da guerra no Oriente Médio, incertezas quanto à Reforma Tributária, além do fato de agosto ser um mês tipicamente mais fraco. Além disso, a associação ainda menciona a mudança estrutural de canal, com o e-commerce e o social commerce em ascensão, algo que impacta o fluxo de clientes.
Expectativa para o decorrer do ano
A expectativa do setor, segundo Oliveira, é de melhora gradual, com virada de ciclo concentrada no último trimestre de 2026. Ele garante que há fundamentos concretos para esse otimismo, como o fato de a inflação estar cedendo, com o IPCA de agosto apresentando queda de 0,32%, a maior deflação em quatro anos, e o acumulado de 12 meses caindo para 4,22%, abaixo do teto da meta.
“Inflação em queda devolve poder de compra às famílias e alivia justamente o consumo de vestuário, calçados e acessórios”, diz.
Os juros também iniciaram, segundo o especialista, um ciclo de afrouxamento, com a terceira redução consecutiva de 0,25 ponto percentual (p.p.) no Copom e projeção do Boletim Focus de Selic a 13,75% ao final deste ano. O presidente da Aloshopping-MG pontua que a trajetória ainda é lenta, mas está na direção correta para crédito e capital de giro.
Para este mês, a projeção é que se mantenha contido, mas com base melhorando, já que sua segunda quinzena abre a temporada de compras de fim de ano. No entanto, o dirigente ressalta que o ponto decisivo é o político.
“Passadas as eleições de outubro, espera-se mais clareza sobre o rumo econômico do país, e essa clareza destrava decisões de consumo e de investimento que hoje permanecem paradas por precaução. Com o véu eleitoral afastado, a confiança tende a retornar mais rapidamente ao consumo, e o Banco Central ganha previsibilidade para conduzir a política monetária”, explica.
Além disso, Oliveira lembra que o quarto trimestre é considerado o melhor momento no calendário do setor, com Dia das Crianças em outubro, Black Friday em novembro e Natal em dezembro. Ele relata que o consumidor chega ao fim do ano menos comprimido do que esteve nos meses anteriores.
Portanto, o cenário é de recuperação logo depois das eleições. “Os lojistas que ajustarem mix e precificação à concorrência digital, controlarem estoque e capital de giro e investirem em experiência e canais integrados estarão posicionados para capturar a retomada”, conclui.
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