Shoppings de Belo Horizonte registram queda nas vendas e no fluxo de clientes em agosto

Mudança no comportamento do consumidor e fatores macroeconômicos impactam o setor de shoppings da capital mineira
Atualizado em 16 de setembro de 2026 • 17:37
Shoppings de Belo Horizonte registram queda nas vendas e no fluxo de clientes em agosto
Foto: Reprodução Adobe Stock

Os shopping centers de Belo Horizonte registraram uma queda tanto nas vendas quanto no fluxo de clientes ao longo de agosto. Entre os fatores que ajudam a explicar esse cenário preocupante estão a mudança comportamental dos consumidores, questões macroeconômicas, e a sazonalidade.

A pesquisa realizada pela Associação dos Lojistas de Shopping Centers de Minas Gerais (Aloshopping-MG) indica que as vendas reais dos malls apresentaram uma variação nominal negativa de 0,66% na comparação com agosto de 2025. Já o resultado real, considerando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,22%, apresentou redução de 4,68%. Além disso, 56% dos lojistas tiveram queda nas vendas, contra 44% que apresentaram alta.

O presidente da entidade, Marcelo Oliveira, ressalta que a pesquisa é realizada exclusivamente com as lojas satélites desses empreendimentos comerciais, com destaque para os setores de calçados, confecção, acessórios, lojas de presentes e joalherias. Segundo ele, a sondagem mede o pulso do segmento que sofre a pressão mais intensa de todo o varejo.

“Essa composição não é um detalhe secundário da metodologia, são exatamente as categorias mais sensíveis à renda do consumidor e mais expostas à concorrência do comércio eletrônico internacional”, esclarece.

O dirigente ressalta que os dados desse levantamento merecem uma interpretação cuidadosa. Segundo ele, o resultado na variação nominal não é uma queda expressiva, estando muito próximo de uma estabilidade. “Em valores correntes, o faturamento das lojas praticamente não se moveu frente a agosto do ano anterior. Em termos práticos, o varejo andou de lado neste mês”, diz.

Já sobre a variação real, Oliveira pontua que o resultado demonstra que o lojista não apenas vendeu volumes semelhantes em valores nominais, como perdeu poder de compra sobre aquilo que faturou. Para cada R$ 100 vendidos no mesmo mês do ano passado, sobraram R$ 95,32 em valor real no mês passado.

“Esse resultado não é um artefato do cálculo, ele é confirmado pela própria distribuição da amostra, em que 56% dos lojistas registraram queda de vendas e apenas 44% conseguiram crescer, parte desse crescimento, aliás, apenas nominal, corroída pela inflação”, acrescenta.

O especialista destaca que a explicação para essa combinação de estabilidade nominal com perda real está em fatores que se somam. Entre eles, estão os juros no período, o crédito caro, a concorrência com o comércio transfronteiriço, a mudança de comportamento de compra do consumidor e o componente sazonal. “Neste ano, essa fraqueza sazonal veio somada aos fatores estruturais, o que explica por que um mês tradicionalmente difícil produziu um resultado tão pressionado”, relata.

Tíquete médio e fluxo de clientes nos shoppings

Quanto ao tíquete médio, 45% dos entrevistados na Sondagem de Vendas relataram estabilidade, 30% tiveram diminuição efetiva e apenas 25% conseguiram elevar o volume médio por compras. Lembrando que o tíquete médio serve como um termômetro do comportamento dos consumidores dentro das lojas.

Já o fluxo de clientes fechou o mês de agosto em retração de 5,61%. De acordo com a entidade, esse é o indicador mais estrutural e preocupante do levantamento, pois sem clientes entrando, não é possível realizar a conversão. A maioria (73,68%) dos lojistas registrou redução de visitantes em suas unidades.

O estudo destaca que o fato dessa parcela dos comerciantes ser superior àqueles que apresentaram queda nas vendas indica que mesmo o grupo que apresentou alta nas vendas alcançou esse resultado com um volume menor de clientes, elevando a taxa de conversão ou o tíquete médio individual. Essa pode até ser uma estratégia sustentável no curto prazo, mas depende de mudanças estruturais para perdurar.

De acordo com o presidente da Aloshopping-MG, avalia que os fatores que produziram essa queda no fluxo são de naturezas distintas, porém, simultâneas. O primeiro deles é o custo do dinheiro, com juros reais recordes, que faz com que o consumidor reduza a frequência de deslocamento ao shopping, com cada ida passa a ter propósito mais definido.

Outro fator mencionado é a migração de canal, com o comércio eletrônico, doméstico e internacional, absorvendo visitas que antes chegavam ao piso da loja nos malls. O terceiro é comportamental, uma vez que os clientes têm pesquisado preços na internet antes de sair de casa, reduzindo as visitas por impulso. Além destes, há ainda a incerteza política em ano eleitoral e com as tarifas comerciais e tensões geopolíticas.

Oliveira ainda cita a queda de 2% do varejo em termos reais no último mês frente ao mesmo mês do ano passado, conforme dados do Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA).

Ele esclarece que o desempenho apresentado é, em parte, típico desse período do ano. O especialista ressalta a importância de reconhecer esse fato para não transformar um vale sazonal esperado em diagnóstico de colapso.

“Agosto ocupa, há décadas, a posição de um dos meses mais fracos do calendário, situado entre o encerramento das vendas de inverno e o início das campanhas do Dia das Crianças e da Black Friday, com a segunda quinzena de movimento tradicionalmente baixo. Nesse sentido, a fraqueza do mês era previsível”, descreve.

Para Oliveira, o que distingue o resultado apresentado neste ano é a intensidade, com a sazonalidade desfavorável sendo acompanhada de juros em 14% ao ano (a.a.), endividamento elevado das famílias, avanço abrupto do comércio transfronteiriço e um consumidor mais seletivo e digital. “É essa combinação que converte um mês fraco por natureza em um mês com maioria de lojistas em queda”, completa.

Portanto, o dirigente pontua que a leitura correta é a de decomposição. Uma parcela do resultado é sazonal e transitória, e se reverte naturalmente no quarto trimestre, e outra parcela é estrutural e permanente, exigindo resposta estratégica em mix, precificação, presença digital e experiência. Ele destaca que confundir as duas pode levar a erros simétricos, subestimar a crise estrutural ou tratar como crise um vale esperado.

Causadores da crise no setor de shopping center

Segundo a Aloshopping-MG, existem seis fatores interconectados que explicam o atual momento e os números do varejo de shoppings da capital mineira. O primeiro é monetário, com taxa Selic a 14% ao ano (a.a.), sendo o maior juro real do mundo (9,78%).

A inflação é outra fonte de preocupação, com IPCA acumulado de 4,22% nos últimos 12 meses corroendo a renda da população. O resultado final disso é crédito caro para os consumidores e capital de giro oneroso para os lojistas.

O fim da taxa sobre importações de até US$ 50 também foi mencionado, devido ao crescimento superior a 85% do cross-border, ou comércio transfronteiriço. A associação destaca o fato disso gerar uma concorrência estruturalmente desigual, com as plataformas asiáticas operando com custos de overhead (sobrecarga) mínimos, sem aluguel em shoppings ou encargos trabalhistas brasileiros e com subsídios logísticos de Estado.

Já o fator comportamental está atrelado a um consumidor endividado e seletivo, priorizando produtos essenciais e migrando para o canal digital. De acordo com o estudo, o brasileiro não deixou de consumir, mas mudou o local e a forma como gasta, com crédito do cartão rotativo acima de 346% a.a. e inflação corroendo a renda, o comportamento de consumo ficou ainda mais rígido.

Os recursos que sobram após a redução de despesas pontuais estão sendo direcionados para o pagamento de dívidas, recomposição do orçamento familiar ou formação de reserva; sem deixar espaço para novas compras no varejo. Isso, segundo a Aloshopping-MG, explica por que o fluxo cai mais do que as vendas.

As questões políticas e sazonais também ajudam a entender este momento no setor, com impactos do tarifaço dos Estados Unidos, da guerra no Oriente Médio, incertezas quanto à Reforma Tributária, além do fato de agosto ser um mês tipicamente mais fraco. Além disso, a associação ainda menciona a mudança estrutural de canal, com o e-commerce e o social commerce em ascensão, algo que impacta o fluxo de clientes.

Expectativa para o decorrer do ano

A expectativa do setor, segundo Oliveira, é de melhora gradual, com virada de ciclo concentrada no último trimestre de 2026. Ele garante que há fundamentos concretos para esse otimismo, como o fato de a inflação estar cedendo, com o IPCA de agosto apresentando queda de 0,32%, a maior deflação em quatro anos, e o acumulado de 12 meses caindo para 4,22%, abaixo do teto da meta.

“Inflação em queda devolve poder de compra às famílias e alivia justamente o consumo de vestuário, calçados e acessórios”, diz.

Os juros também iniciaram, segundo o especialista, um ciclo de afrouxamento, com a terceira redução consecutiva de 0,25 ponto percentual (p.p.) no Copom e projeção do Boletim Focus de Selic a 13,75% ao final deste ano. O presidente da Aloshopping-MG pontua que a trajetória ainda é lenta, mas está na direção correta para crédito e capital de giro.

Para este mês, a projeção é que se mantenha contido, mas com base melhorando, já que sua segunda quinzena abre a temporada de compras de fim de ano. No entanto, o dirigente ressalta que o ponto decisivo é o político.

“Passadas as eleições de outubro, espera-se mais clareza sobre o rumo econômico do país, e essa clareza destrava decisões de consumo e de investimento que hoje permanecem paradas por precaução. Com o véu eleitoral afastado, a confiança tende a retornar mais rapidamente ao consumo, e o Banco Central ganha previsibilidade para conduzir a política monetária”, explica.

Além disso, Oliveira lembra que o quarto trimestre é considerado o melhor momento no calendário do setor, com Dia das Crianças em outubro, Black Friday em novembro e Natal em dezembro. Ele relata que o consumidor chega ao fim do ano menos comprimido do que esteve nos meses anteriores.

Portanto, o cenário é de recuperação logo depois das eleições. “Os lojistas que ajustarem mix e precificação à concorrência digital, controlarem estoque e capital de giro e investirem em experiência e canais integrados estarão posicionados para capturar a retomada”, conclui.

Sobre o autor

Leonardo Leão

Repórter do Diário do Comércio desde 2022. Graduado em Jornalismo pela Estácio.