Antes do Vale da Eletrônica, um ‘vale do terceiro setor’: livro provoca Santa Rita do Sapucaí a se enxergar além da tecnologia
Antes de virar sinônimo de eletrônica e tecnologia, Santa Rita do Sapucaí já era, segundo um grupo de pesquisadores, um polo de terceiro setor. É essa tese que motivou uma conversa sobre o assunto no HackTown 2026, realizado de 3 a 7 de setembro na cidade. Sílvia Castro entrevistou, para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, o cientista político e filósofo Rodrigo Starling, sobre o trabalho que vem desenvolvendo há dois anos por lá. Na conversa, Rodrigo Starling apresentou o livro “Third Sector Valley” e a tese central por trás dele: antes do Vale da Eletrônica, a cidade já era um vale de terceiro setor, força que precisa ser reconhecida com o mesmo peso da força tecnológica local.
Uma provocação batizada em inglês
Rodrigo Starling contou que o grupo participa do HackTown desde 2024, e que a proposta do livro nasceu de uma provocação feita às lideranças locais no ano anterior: produzir uma obra chamada, propositalmente em inglês, “Third Sector Valley”, numa brincadeira com o próprio Vale da Eletrônica. “Nós também vamos exportar tecnologia social”, resumiu.
Segundo ele, a pesquisa partiu da hipótese de que, antes da eletrônica, já existia ali um “vale” articulado em torno do terceiro setor, remontando a 1955, quando outra fundadora da cidade sonhava com esse legado.
Egrégora: um pensamento coletivo sem protagonistas individuais
O grupo por trás do projeto se chama Egrégora, reunindo profissionais de áreas como filosofia, ciência política, comunicação, administração e direito, cada um à frente de sua própria organização de assessoria ao terceiro setor. Rodrigo Starling explicou que egrégora é um termo usado para descrever um pensamento coletivo convergente, que pode servir a qualquer propósito, e destacou que a característica central do grupo é não ter protagonistas individuais.
“Não é o Rodrigo, não é a Júlia, não é a Sílvia, não é o Diário do Comércio sozinho, não é a organização do HackTown, não é o governo de Santa Rita, não é nenhum político que vai puxar uma movimentação. Saímos da era do ego e das personalidades, entramos na era da colaboração e das pautas coletivas”, afirmou.
Dezessete lideranças entrevistadas, e uma autocrítica comum
Para o livro, o grupo entrevistou 17 lideranças do terceiro setor em Santa Rita do Sapucaí. Segundo Rodrigo Starling, todas elas se mostraram críticas quanto ao papel de cada setor, incluindo o próprio terceiro setor: as empresas poderiam fazer mais e melhor, a prefeitura poderia fazer mais e melhor, e as organizações sociais também.
Ele defendeu que parte das entidades sociais ainda atua com o que chamou de “ideia de pires nas mãos”, tratando qualquer atendimento mínimo do poder público como vitória, quando deveria exigir atendimento pleno. “Assim como todos os setores fazem o seu lobby, nós do terceiro setor e lideranças precisamos equilibrar a qualidade da postura e também requerer fazer o nosso lobby do bem para conquistas maiores”, disse.
Uma frase que virou tese central do livro
Rodrigo Starling recuperou, na entrevista, uma frase escrita por um dos organizadores do HackTown para o livro: a de que o terceiro setor é “o hack do capitalismo”. “É o terceiro setor que vai hackear o futuro do sucesso ou fracasso desse sistema”, resumiu, defendendo que, em vez de discutir se o capitalismo é ou não o sistema ideal, o caminho é melhorar as bases do sistema que já existe.
Ele também citou o economista americano Michael Green, que estuda o monitoramento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU desde o lançamento da Agenda 2030, em 2015. Segundo Rodrigo Starling, no ritmo atual, as metas da Agenda 2030 só seriam efetivamente alcançadas em 2082, um atraso de 52 anos entre o discurso e a entrega.
Lançamento gratuito no Cine Teatro Municipal
O livro “Third Sector Valley” teve lançamento marcado para o dia 6 de setembro, das 10h às 12h, no Cine Teatro Municipal de Santa Rita do Sapucaí, com entrada gratuita para todos os convidados. Rodrigo Starling comentou que, mesmo com o espaço reduzido do teatro, a organização do HackTown se dispôs a montar um telão do lado de fora para receber o público que não coubesse dentro da sala.
Quem participasse do lançamento seria convidado a assinar, por meio de um QR code disponível no próprio livro, um protocolo de intenções: um compromisso de que os participantes se tornariam corealizadores das transformações propostas na obra, e não apenas leitores. “Nós temos que depois fazer as entregas, senão eu vou contra o que eu disse no início, que nós temos um discurso de ser humano em geral e às vezes a dificuldade de realizar”, justificou.
Plano é levar o modelo para outros municípios
Rodrigo Starling afirmou que a intenção do grupo Egrégora é repetir o mesmo modelo de mapeamento e articulação em outros territórios, incluindo Belo Horizonte e outros municípios, e não restringir a iniciativa a Santa Rita do Sapucaí. Mais informações sobre o grupo e o livro poderiam ser encontradas no site somosegregora.com.br.
Reportagem produzida com base em entrevista conduzida por Sílvia Castro para o podcast Na Boa, parceria do Diário do Comércio, disponível no canal do Diário do Comércio MG no YouTube (@diariodocomerciomg).
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