Taís Di Giorno avalia que ações anunciadas pelo governo vão ao encontro dos princípios do cooperativismo | Crédito: Divulgação

Na tentativa de minimizar o desastre econômico e preservar as empresas, a renda e o emprego de milhões de trabalhadores em todas as regiões do País, o governo federal editou a Medida Provisória (MP) 944/2020.

A MP, em vigor desde o dia 3 de abril, criou o Programa Emergencial de Suporte a Empregos, que abre uma linha de crédito especial para financiar até dois meses da folha salarial das empresas em geral e cooperativas.

A operação é limitada ao financiamento de até dois salários mínimos por empregado.
A iniciativa é bem avaliada pelo mercado, porém, fazer o dinheiro chegar à ponta, às empresas que realmente precisam, não é uma tarefa fácil. É justamente nesse cenário que um ente já bastante conhecido pela sua capilaridade pode facilitar a vida dos pequenos empresários: as cooperativas de crédito.

Acostumado a atender cidades muito pequenas com serviços bancários, o segmento pode, durante esse período de crise aguda, fortalecer suas marcas, ampliar redes de negócios e sair de tudo isso de forma muito positiva.

De acordo com o superintendente Administrativo e Financeiro da Central das Cooperativas de Economia e Crédito do Estado de Minas Gerais (Cecremge), Geraldo Martins Alves, a MP 944 oferece uma grande oportunidade de negócios para as cooperativas de crédito.

“Através do Bancoob (Banco Cooperativo do Brasil), estamos disponibilizando linha de crédito exclusiva para financiamento da folha de pagamento, pois os recursos via BNDES seriam insuficientes para nossa demanda. Para as demais linhas do BNDES, estamos prontos e organizados para atender às demandas. Neste sentido, estamos focando nosso trabalho com cada cooperado PF (pessoa física) e PJ (pessoa jurídica) atuando sob medida, prorrogando os prazos, contratando novas operações, reestruturando os empréstimos e financiamentos contratados”, explica Alves.

Ajudar os pequenos negócios, especialmente no interior, parece ser uma das missões das cooperativas de crédito no contexto do Covid-19. “Nosso grande desafio está sendo praticar a essência do cooperativismo como a intercorrelação e a solidariedade. Temos cooperados que estão conosco desde a fundação das cooperativas e outros mais recentes que concentram suas necessidades financeiras conosco. Não vamos abandoná-los neste momento em que muitos sofrerão sérios impactos no seu faturamento”, pontua o superintendente Administrativo e Financeiro da Cecremge.

Para a presidente-executiva do Sicoob Cecres – cooperativa de crédito com sede em São Paulo – e ex-presidente da Federação Nacional das Cooperativas de crédito (FNCC), Taís Di Giorno, o pacote de medidas do governo para ajudar os micro e pequenos empresários vai ao encontro dos princípios do sistema cooperativista financeiro.

“Nosso segmento, em períodos ditos ‘normais’, já opera com condições financeiras diferenciadas, pela própria natureza do negócio, que não visa ao lucro. Na verdade, estamos falando de um encaixe ainda maior entre os fundamentos das cooperativas de crédito e as medidas governamentais sob o ponto de vista da economia. Sem dúvida, nesse cenário de crise, as empresas precisarão repensar seus orçamentos, então é, sim, uma oportunidade para que as pessoas conheçam as cooperativas de crédito e as vantagens em operar com esse segmento, pautado na economia colaborativa”, pontua Taís Di Giorno.

A executiva avalia que essa crise, talvez mais do que qualquer outra, exija das empresas capacidade de se reinventar e até de reposicionar suas marcas.

Sicoob avalia lançar linha de R$ 500 milhões

O diretor de Operações do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob), Enio Meinen, aponta que, além das linhas abertas pelo governo federal, todo o sistema já incrementou suas linhas destinadas aos pequenos negócios. O Bancoob é o banco responsável por apoiar e gerir os recursos das cooperativas que compõem o Sistema de Cooperativas de Crédito (Sicoob).

O Sicoob possui 4,6 milhões de cooperados em todo o País e está presente em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. É composto por mais de 420 cooperativas singulares, 16 cooperativas centrais e a Confederação Nacional das Cooperativas do Sicoob (Sicoob Confederação).

“Deu a impressão que foram os grandes bancos que tiveram a iniciativa, mas não é verdade. Não há o mesmo compromisso entre bancos e clientes que entre cooperativas e cooperados. Estamos nos antecipando, qualificando os nossos cooperados. Não vamos cobrar tarifas, taxas e não vamos exigir garantias extras. Nosso objetivo é entregar os recursos que deem condições para os negócios continuarem e não dispensarem os trabalhadores”, destaca Meinen.

Mais flexíveis e dispostas a operar dentro das condições socioeconômicas regionais, as cooperativas de crédito vêm registrando crescimento médio de 15%. A expectativa é de que o Sicoob lance, ainda, uma linha nacional de R$ 500 milhões em condições mais brandas que as do mercado tradicional e que essa linha seja subsidiada.

“Claro que o pacote lançado pelo governo não vai abarcar todo mundo, então precisamos oferecer linhas complementares de crédito. Como temos essa flexibilidade regional, estamos criando várias linhas para atender os empreendedores locais”, explica o diretor de Operações do Bancoob.

Segundo o presidente do Sistema Ocemg, Ronaldo Scucato, o cenário atual dinamizou ainda mais a forma de trabalho das cooperativas para que os serviços não parem. O Sistema Ocemg é formado pelo Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais (Ocemg) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo de Minas Gerais (Sescoop-MG).

“Hoje, mais do que nunca, as cooperativas são essenciais para o fortalecimento da economia. O Sistema Ocemg tem acompanhado de forma sistemática todas as tramitações junto aos órgãos necessários e trabalhado para que as cooperativas estejam sempre atualizadas. Estamos fazendo todo o possível para sairmos dessa pandemia fortalecidos”, completa Scucato.