Saúde mental nas escolas exige mais que profissionais e campanhas pontuais
Como construir uma sociedade mais saudável e feliz até 2032 se o sofrimento emocional já faz parte da realidade de tantos adolescentes? A pergunta integra as reflexões do Movimento Minas 2032 Pela Transformação Global (MM2032), iniciativa do Diário do Comércio que discute os caminhos para o desenvolvimento do Estado. Nas escolas, o desafio vai além de reconhecer sinais de tristeza ou ansiedade: consiste em tornar o cuidado com a saúde mental uma prática permanente, e não apenas uma resposta a situações de crise.
A dimensão do problema aparece na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em Minas Gerais, 49,4% dos estudantes de 13 a 17 anos relataram preocupação frequente com situações cotidianas, ante 49,7% no Brasil e 52,5% em Belo Horizonte. A tristeza frequente foi apontada por 27,8% dos adolescentes mineiros, enquanto 31,3% afirmaram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Para a professora do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belisa Vieira da Silveira, os dados precisam ser analisados à luz das transformações próprias da adolescência, sem perder de vista os sinais de sofrimento emocional que merecem atenção.
“É comum que a adolescência seja marcada por momentos de tristeza e preocupação com o futuro. É uma fase de construção da identidade, em que questões relacionadas ao corpo, à aparência e à aceitação pelo grupo ganham importância, hoje ainda mais influenciadas pelas redes sociais. Mas isso não significa que devemos minimizar esses sentimentos. Existe uma visão cultural de que crianças e adolescentes não têm motivos para sofrer, já que não trabalham ou pagam contas. Se a saúde mental dos adultos foi negligenciada durante muito tempo, a infantojuvenil foi ainda mais”, alerta.
Escola não resolve sozinha
A professora lembra que a escola ocupa uma posição estratégica para reconhecer mudanças de comportamento, muitas vezes percebidas primeiro por professores e colegas. O desafio começa quando é necessário transformar essa identificação em acolhimento e, quando indicado, acompanhamento especializado.
Segundo Belisa Silveira, o vínculo com os serviços de saúde tende a enfraquecer na adolescência. Enquanto crianças menores costumam receber acompanhamento mais próximo, os adolescentes procuram menos essas unidades. Assim, quando a escola identifica um problema, pode não existir uma relação prévia entre o estudante e a rede de atendimento.
“Historicamente, a adolescência é quase um limbo em termos de saúde. Na infância, a criança tem um acompanhamento mais próximo dos pais, da escola e dos serviços de saúde. O adolescente já meio que desaparece desses serviços. E, quando a escola se depara com uma situação, muitas vezes não sabe como fazer esse manejo. Ao acionar a saúde, a equipe também não sabe quem é aquele adolescente. Por isso precisamos trabalhar muito na lógica intersetorial”, defende.
A pesquisadora considera essencial a articulação entre educação, saúde e assistência social. O Brasil já conta com o Programa Saúde na Escola (PSE), mas, segundo ela, a integração ainda é prejudicada pela fragmentação das iniciativas. “Não adianta fazer palestras aleatórias, muitas vezes concentradas no Setembro Amarelo, ir à escola, fazer uma palestra de uma hora e achar que isso é resolutivo. Temos o Programa Saúde na Escola, mas as ações ainda são muito fragmentadas. Essas iniciativas precisam ter continuidade para, de fato, virar uma política escolar, e não uma intervenção isolada ou uma resposta que só aparece quando surge um problema”, argumenta.
Resultados exigem mais que estrutura
A PeNSE também mostra diferentes formas de organização do suporte psicológico. Entre os estudantes mineiros de escolas que oferecem esse apoio em situações de bullying e violência, 20,1% frequentam instituições com profissional de saúde mental em seu quadro, ante 34,1% no Brasil e 53,5% em Belo Horizonte.
Já o apoio de unidades básicas de saúde ou equipes de atenção primária alcança escolas frequentadas por 53,5% dos estudantes mineiros desse grupo, contra 44,5% no País e 24,3% na capital. Os percentuais se referem exclusivamente aos estudantes de escolas que oferecem suporte psicológico nessas situações, e não ao conjunto de instituições de ensino.
Para Belisa Silveira, a presença de profissionais especializados nas escolas é desejável, mas parcerias regulares com a rede de saúde também podem funcionar, desde que permitam vínculos e acompanhamento contínuo. “Quando temos um profissional de saúde mental, mesmo que ele não faça parte do quadro da escola, mas seja um parceiro que desenvolve ações com frequência, isso favorece a identificação precoce dos casos, o acolhimento e, se necessário, o encaminhamento para a rede”, diz.
Na rede estadual, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE-MG) informa manter 230 Núcleos de Acolhimento Educacional (NAEs), com 460 profissionais, entre psicólogos e assistentes sociais, distribuídos pelas 47 Superintendências Regionais de Ensino. As equipes atuam na prevenção, na convivência escolar e na mediação de conflitos, sem realizar atendimento clínico.
Apesar dos números, a secretaria não informou quantas escolas e estudantes são efetivamente alcançados, quantas atividades foram desenvolvidas ou quais resultados foram obtidos.
Em Belo Horizonte, a Secretaria Municipal de Educação (Smed) informou que o Projeto Psicólogos e Assistentes Sociais na Educação (PAS), criado para promover o bem-estar e a convivência nas escolas municipais, está em processo de reformulação. Segundo a pasta, os profissionais foram contratados temporariamente por meio de edital publicado em agosto de 2023. Agora, um estudo interno, que inclui levantamento junto às escolas, deverá orientar a publicação de um novo edital.
A prefeitura, porém, não esclareceu quantos profissionais permanecem em atividade, quantas escolas são atendidas atualmente, quais mudanças estão previstas nem quando o novo edital será publicado.
Caminhos para a prevenção
Para Belisa Silveira, a prevenção passa pela construção de um ambiente escolar que favoreça o pertencimento, o respeito e a participação dos adolescentes. Ela defende a adoção de práticas alinhadas à cultura de paz, conceito promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Unesco, que valoriza o diálogo, a cooperação e a resolução não violenta de conflitos. Na escola, essa abordagem pode se traduzir em iniciativas que fortaleçam os vínculos entre os estudantes e ajudem a prevenir situações de violência e bullying.
“A cultura da paz envolve ações que promovem o pertencimento e o bem-estar das crianças e dos adolescentes. Podemos pensar em mostras de talentos, por exemplo. Às vezes, um adolescente não se destaca em matemática, mas desenha maravilhosamente bem. Podemos convidá-lo a organizar eventos, participar de rodas de conversa sobre temas atuais. Há experiências como a mini-ONU, em que os adolescentes discutem diferentes assuntos. Tudo isso é uma forma de dar protagonismo e autonomia a eles”, exemplifica.
A pesquisadora também defende a comunicação não violenta, a capacitação dos professores para identificar sinais de sofrimento e a aproximação com famílias e organizações da comunidade. São medidas que nem sempre exigem grandes investimentos, mas dependem de mobilização e planejamento.
“Sempre existe um professor mais atento, que os alunos procuram porque sentem confiança. Por que não capacitar esses professores para serem multiplicadores desse acolhimento? É extremamente importante ter espaços de escuta, estabelecer relações de respeito mútuo entre alunos, professores e diretores e trazer as famílias para mais perto da escola”, propõe.
Para ela, a participação dos próprios adolescentes na construção dessas iniciativas é fundamental, assim como a disposição de gestores e educadores para ouvi-los sem julgamentos prévios. “É ouvir, acolher mais e construir junto com esses adolescentes. Não é chamar alguém de fora para fazer uma ação e ir embora. Quando eles entendem que não existe um discurso moralista, eles começam a trazer suas questões”, conclui.
Da periferia à rede privada, professores defendem uma escola que escute mais
De um lado, uma escola estadual no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, onde estudantes do ensino médio permanecem em aula das 7h às 16h40. Do outro, colégios particulares de classe média alta da capital, marcados pela preparação para o vestibular e pela cobrança por desempenho acadêmico. Embora as realidades sejam diferentes, os professores Jaime Peixoto, da rede pública, e Maria Raquel Dias, da rede privada, identificam um desafio comum: encontrar espaço para acolhimento emocional em uma rotina cada vez mais exigente.
Professor de Sociologia, Projeto de Vida e Educação Digital, Peixoto acompanha há quase dez anos adolescentes da rede estadual e percebe uma intensificação das dificuldades emocionais. Segundo ele, a ampliação da jornada escolar após a pandemia, somada a um modelo de ensino em que os estudantes passam boa parte do dia sentados, cumprindo uma extensa carga de conteúdo, pode agravar o desgaste daqueles que já enfrentam situações de vulnerabilidade social, conflitos familiares e violência.
Nas aulas de Projeto de Vida, os sinais aparecem no comportamento e nos relatos escritos. Para estimular a expressão dos sentimentos, Peixoto criou uma caixa das emoções que permite aos alunos compartilhar preocupações por escrito.
“Eu vejo a sociologia e o Projeto de Vida como um respiro para esses estudantes. Às vezes, chego com uma aula planejada, mas pergunto como eles estão se sentindo e percebo que preciso mudar tudo. Não adianta apresentar conceitos se aquele menino está chorando no fundo da sala ou passa o tempo inteiro de cabeça baixa. Primeiro, preciso acolher para depois pensar no conteúdo”, explica.
Na rede privada, a professora de Literatura e psicanalista Maria Raquel Dias também observa mudanças importantes ao longo de mais de 15 anos de atuação. A ansiedade, especialmente diante das provas e das relações sociais, é a manifestação mais frequente. Ela destaca ainda o aumento de estudantes com laudos de transtornos mentais e de aprendizagem, a relação de dependência do celular e a crescente dificuldade de estabelecer vínculos.
“A ansiedade é o que mais aparece, independentemente da idade. Mas o que mais me chama a atenção, ao longo desses anos, é a fragilização dos laços sociais, a dificuldade de construir relações com os colegas, com os professores e com o próprio conhecimento”, afirma.
Para Maria Raquel Dias, a presença de profissionais de psicologia nas escolas é fundamental, mas não basta se o acompanhamento se limitar a diagnósticos e adaptações pedagógicas. Ela defende que o cuidado considere a história e as necessidades de cada adolescente, sem reduzi-lo a um laudo ou ao desempenho acadêmico.
Acolher também exige apoio
A proximidade construída nas aulas faz de Peixoto uma referência para estudantes que precisam compartilhar situações difíceis. Quando identifica sinais de sofrimento, ele comunica a supervisão pedagógica, que pode acionar profissionais de apoio psicossocial e serviços da rede de proteção. O processo, porém, evidencia os limites da atuação docente diante de demandas que exigem acompanhamento especializado.
“Os estudantes se sentem seguros para me procurar, e acho isso muito positivo. Mas, ao mesmo tempo, essa confiança me traz uma sobrecarga que às vezes não dou conta, até porque foge da minha área de conhecimento”, frisa.
Maria Raquel Dias aponta uma preocupação semelhante: a saúde mental dos professores. Para ela, a sobrecarga de conteúdos, avaliações e tarefas administrativas reduz as oportunidades de convivência e atenção individualizada justamente quando os adolescentes mais precisam desse cuidado.
Os caminhos sugeridos pelos dois educadores se encontram na defesa de uma escola menos centrada exclusivamente em resultados e mais comprometida com as relações humanas. Maria Raquel Dias propõe ampliar os espaços de convivência, de arte e de literatura, além de capacitar professores em comunicação não violenta e em justiça restaurativa. Peixoto defende práticas pedagógicas que deem voz aos estudantes e considerem suas condições emocionais antes de cobrar conteúdo.
“Não existe educação sem acolhida, sem preocupação com o bem-estar mental e físico. Não adianta cuidar apenas do desenvolvimento intelectual se os fatores humanos estão sendo negligenciados. A gente não está formando robôs ou máquinas, está formando seres humanos. É preciso humanizar a educação para que ela faça sentido”, conclui Peixoto.
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