Receita centenária de família síria sustenta a história do Prazer da Esfiha, em BH

Com origem na chegada de uma família síria à Capital, em 1916, tradição gastronômica virou restaurante em 2019 e hoje ocupa quatro imóveis na Lagoinha
Receita centenária de família síria sustenta a história do Prazer da Esfiha, em BH
Foto: Divulgação Prazer da Esfiha

Na rua Itapecerica, no bairro Lagoinha, localizado na região Noroeste da Capital, as comidas preparadas por uma família síria há mais cem anos deram origem ao restaurante Prazer da Esfiha. A história começou em 1916, com a chegada dos antepassados de Luiza Abuid Fulgêncio à capital mineira, e ganhou dimensão comercial décadas depois, com a produção artesanal de esfirras. Desde a inauguração da primeira loja, em 2019, o empreendimento cresceu, atravessou a pandemia e passou a ocupar quatro imóveis, com planos de ampliar a operação.

Antes de se tornar um restaurante, a culinária árabe já fazia parte dos encontros promovidos por Sarah Jorge Abuid, bisavó de Luiza Fulgêncio. Embora a família atuasse inicialmente no comércio de tecidos, a casa era um ponto de acolhimento para pessoas que chegavam da Síria. A fartura à mesa e o hábito de receber visitantes ajudaram a preservar as receitas que, décadas depois, seriam comercializadas. “Minha bisavó gostava muito de receber as pessoas”, conta a filha da proprietária do estabelecimento.

Prazer da Esfiha
Foto: Divulgação / Prazer da Esfiha

Do afeto a oportunidade de negócio

A tradição foi transmitida à avó de Luiza Fulgêncio, que ensinou as receitas aos filhos. Entre eles estava Samira Fulgêncio, hoje proprietária do empreendimento, que desenvolveu uma relação especial com o preparo das esfirras.

Ainda jovem, Samira Fulgêncio chegava a faltar às aulas para ajudar na cozinha. Após a morte da mãe, deu continuidade à produção de esfirras, inicialmente em casa, atendendo clientes que já conheciam o trabalho da família, principalmente integrantes da comunidade síria de Belo Horizonte. Durante anos, a atividade funcionou sem uma loja ou estrutura comercial, sustentada pelas encomendas e pela divulgação entre conhecidos.

Samira Prazer da Esfiha
Samira Abuid é a única com o “dom” de fazer as famosas esfihas de carne. | Crédito: Leonardo Morais/Diário do Comércio

Início e consolidação da loja

A oportunidade de ampliar a produção surgiu antes da pandemia de Covid-19, quando a família participou de duas feiras ligadas ao consulado da Síria, na rua Santa Rita Durão. Em uma delas, Samira Fulgêncio vendeu mais de 7 mil esfirras, todas abertas e preparadas manualmente. O resultado chamou a atenção de Dimas Fulgêncio, pai de Luiza Fulgêncio, que trabalhava no setor de autopeças e identificou na demanda uma oportunidade de transformar a produção doméstica em um empreendimento. Apesar da resistência inicial de Samira Fulgêncio à abertura de uma loja, ele decidiu investir no projeto.

Inaugurada em 2019, a primeira loja do Prazer da Esfiha funcionava apenas com atendimento no balcão. O aumento da demanda levou a família a alugar outro espaço, desta vez com mesas para os clientes. A expansão coincidiu com o início das restrições impostas pela pandemia de Covid-19, o que exigiu uma rápida adaptação ao serviço de entregas. Mesmo diante das dificuldades, o restaurante continuou crescendo e passou a distribuir suas atividades entre diferentes imóveis na Lagoinha.

Apesar da expansão, a família mantém a produção artesanal e a cozinha aberta à vista dos clientes, característica adotada desde o início para permitir que o público acompanhe o preparo dos alimentos. A continuidade dessa tradição, porém, enfrenta desafios. Com Samira Fulgêncio enfrentando problemas de saúde, Dimas Fulgêncio assumiu parte importante do trabalho na cozinha, mesmo sem experiência anterior no preparo da culinária árabe. Os irmãos de Luiza Fulgêncio e um primo também participam da operação, que conta ainda com outros funcionários.

Prazer da esfiha
Com receita centenária, esfihas da família Abuid conquistam o paladar de quem visita a Lagoinha. | Crédito: Leonardo Morais/Diário do Comércio

A localização também representa um desafio para o empreendimento. Segundo Luiza Fulgêncio, a falta de apoio do poder público e os problemas enfrentados pela Lagoinha dificultam a atração de clientes para o restaurante. Para ampliar o alcance da marca, o estabelecimento investe em canais próprios de venda e busca reduzir a dependência de aplicativos de entrega, cujas taxas, de acordo com a empreendedora, pesavam sobre os custos da operação. Como estratégia para estimular os pedidos diretos, oferece frete grátis às segundas, terças e quartas-feiras para entregas em um raio de até 10 quilômetros.

Sobre o autor

Ana Luisa Sales

Repórter do Diário do Comércio desde 2025, graduada em jornalismo pela UFMG e especialista em ESG e sustentabilidade corporativa pela FGV.


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