Da autoridade ao legado: o que muda no papel do fundador

Empresa deve preservar sua essência sem se apegar à forma como fazia as coisas no passado
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Da autoridade ao legado: o que muda no papel do fundador
Foto: Reprodução Adobe Stock

Existe uma situação interessante na construção de uma empresa: quanto mais conhecimento se acumula, maior é o risco de acreditar que o que funcionou até aqui continuará funcionando no futuro.

Ao longo de mais de 30 anos à frente da Geoambiente, aprendi que longevidade não significa preservar um negócio exatamente como ele nasceu. Significa reconhecer o que precisa mudar sem perder aquilo que dá sentido a ele.

Quando fundei a empresa, em 1994, o mercado brasileiro de tecnologia era menos estruturado e o sensoriamento remoto, área em que me especializei, era uma tecnologia usada em nichos e com baixa divulgação para o público em geral. Durante essa trajetória, incorporamos novas competências e revimos nossa atuação conforme as transições tecnológicas e as mudanças do mercado. Hoje, a inteligência artificial coloca esse aprendizado novamente à prova. Mais do que adotar uma nova tecnologia, o desafio é entender onde ela realmente pode fazer diferença para o negócio.

Foi nesse processo cíclico que entendi que a experiência só se torna uma vantagem quando vem acompanhada da disposição para questionar o que já conhecemos. O conhecimento acumulado deve servir menos para repetir fórmulas e mais para fazer perguntas melhores, identificar o que precisa ser revisto e reconhecer quando uma nova abordagem pode gerar mais valor.

Por isso, quando uma nova tecnologia surge, o primeiro a se fazer é olhar para os próprios processos antes de pensar em implementação, porque sem essa etapa de autoanálise e preparação, a inovação tende a virar mais um projeto que não sai do papel. Acompanhar essas transformações de mercado exige decisões estratégicas, e não apenas seguir tendências. É necessário entender o problema que se quer resolver e avaliar onde a nova solução pode, de fato, gerar resultado.

Esse mesmo olhar também se aplica à liderança. Conforme uma empresa amadurece, o papel do fundador muda. Ele precisa deixar de concentrar o conhecimento e os critérios de decisão, para construir uma estrutura em que diferentes competências e olhares estratégicos possam contribuir para o desenvolvimento do negócio.

Essa mudança não significa abrir mão da experiência acumulada, mas colocá-la a serviço de uma atuação mais coletiva. O crescimento sustentado da empresa depende de colaboração, de pessoas com especialidades distintas e de espaço para criar novos desafios. E essa diversidade de papéis e a estrutura organizacional adequada viabilizam a inovação.

Na minha vivência, também aprendi que autoridade não vem do cargo; ela é sustentada pela capacidade de tomar decisões, pela solidez dos resultados e pela disposição para continuar aprendendo. Liderar exige reconhecer o que não sabemos, ouvir diferentes perspectivas e criar condições para que o conhecimento circule. É uma responsabilidade que muda à medida que a empresa cresce, mas que nunca deixa de exigir curiosidade e capacidade de adaptação.

Depois de três décadas, continuo acreditando que uma empresa precisa preservar sua essência sem se apegar à forma como fazia as coisas no passado. Costumo dizer que é preciso manter o sonho aceso. Os caminhos podem mudar muitas vezes, mas o importante é seguir disposto a transformar ideias em realidade e lembrar que o papel da liderança não é proteger o que já foi conquistado, e sim conduzir esse legado para o futuro.

Izabel Cecarelli
Sobre o autor

Izabel Cecarelli

CEO e fundadora da Geoambiente

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