O fim da contabilidade pelo retrovisor

Entenda como a reforma tributária impacta no futuro das empresas

A reforma tributária deixou de ser uma discussão sobre o futuro. Com a transição do novo sistema em andamento, empresas e profissionais lidam, na prática, com uma mudança que vai além de alíquotas, regras e formação de preços.
Ela também coloca em xeque a forma como a contabilidade é feita no Brasil, tema negligenciado que esconde um problema: o modelo de trabalho dos escritórios, inalterado há 30 anos, não foi desenhado para a mudança que se aproxima.

Hoje, os escritórios praticam uma contabilidade voltada ao passado. A empresa envia as informações do mês anterior no início do mês seguinte, o escritório as importa, processa os dados e gera as guias. Esse formato funcionou em um ambiente tributário complexo, mas relativamente previsível. Não foi concebido, porém, para conceitos como apuração assistida e split payment.
A reforma não cria apenas novos impostos, mas um sistema novo. Três tributos substituirão cinco, em uma transição longa em que os antigos diminuirão e os novos aumentarão gradualmente. Nessa fase, os escritórios operarão os dois sistemas ao mesmo tempo, com as mesmas equipes e processos. Parte do mercado contábil ainda não dimensionou esse impacto.

O ponto de partida é frágil. A implementação da nota fiscal eletrônica e do Sped, há 15 anos, elevou em cerca de 30% o custo operacional dos escritórios para absorver as novas obrigações. Agora o setor enfrenta a mesma encruzilhada: para lidar com o trabalho em dobro, os escritórios vão ampliar contratações e custos ou adotar tecnologia capaz de executar a operação com eficiência?

A solução passa por um aumento expressivo de produtividade. A contabilidade consultiva esbarra na falta de tempo de quem opera no limite: em média, cada funcionário, em geral sobrecarregado, atende no máximo 20 a 30 empresas. Para otimizar a rotina, é preciso mudar o fluxo de trabalho, não apenas acelerar a importação de arquivos.

Com o avanço da inteligência artificial generativa, os escritórios podem usar sistemas contábeis autônomos que garantam apuração contínua e em tempo real, em vez de aguardar o fechamento da competência. Isso gera produtividade cinco vezes maior que a média do setor. Na prática, reduz custos e libera tempo para atendimento consultivo, o que amplia a receita.

A reforma representa, portanto, um desafio sobretudo operacional. Escritórios que mantiverem a apuração retroativa chegarão à transição sobrecarregados, pois terão de processar o dobro de informações no curto prazo de fechamento do mês. Além disso, com a apuração assistida, acumular dados até o fim do período significa perder a janela de correção. Se o contador esperar o mês seguinte para corrigir falhas validadas pelo fisco, o prazo já terá se esgotado, o que resulta em penalidades ao cliente e leva as equipes ao colapso.

A transformação do setor não decorre de soluções mágicas, mas da revisão na forma de executar o trabalho. Quem migrar para o processamento em tempo real estará preparado. A adaptação deve ser imediata, pois a eficiência do modelo, mais do que o texto da lei, definirá a sobrevivência dos negócios.

Heverton Gentilim
Sobre o autor

Heverton Gentilim

CEO da OneFlow