No noticiário da semana que está terminando, chamaram atenção declarações de um procurador do Ministério Público do Estado, que, em conversa com seu superior, gravada e amplamente divulgada, reclamava de seus proventos, que considera baixos e incapaz de garantir seu padrão de vida e de sua família.

Um procurador em Minas ganha, bruto, cerca de R$ 35 mil e, líquido, RS 24 mil, justamente o valor mencionado no diálogo que ganhou tanta repercussão e igual indignação. Nessa faixa salarial, e se fosse este de fato o valor em discussão, o procurador ocupa seu lugar no topo do topo da pirâmide de renda no País, onde cabe apenas 1% da população.

Mais não seria necessário dizer a respeito, não fosse o fato, da maior relevância, de que o valor mencionado, não é verdadeiro, considerado o total dos rendimentos do personagem e que, segundo informações também já divulgadas, somaram, nos primeiros seis meses do ano, aproximadamente R$ 60 mil mensais. Uma diferença que corre por conta dos tais “penduricalhos” mencionados pelo presidente Bolsonaro, que fazem do teto dos vencimentos de funcionários públicos uma ficção e explica por que Minas Gerais, apenas para ficarmos no exemplo específico e aquele que mais interessa, consome perto de 80% de sua receita com o pagamento de funcionários ativos e inativos.

O personagem dessa narrativa, e conforme noticiado, estava preocupado também com a perspectiva de congelamento de seus vencimentos e era a este o propósito da conversa com seu superior. Espanta que ele, funcionário graduado, não pareça ter a mínima ideia do que se passa com as finanças do Estado.

Pelo contrário, ele parece saber muito bem como as coisas funcionam, tanto que manifesta sua esperança de que o chefe saiba usar sua “criatividade” para contornar o problema. Juristas já cuidaram de apontar que essa sugestão, devidamente documentada, pode ter implicações da maior gravidade. Teria havido, nesse momento, clara sugestão de ilicitude.

O procurador que se revelou tão despreparado e transformou em alvo de indignação geral, não mais se manifestou e, muito oportunamente, entrou em licença médica sem prazo para retorno. Já o Ministério Público, em manifestação oficial, fez saber que não compactua do pensamento de um de seus membros, contrário ao entendimento da maioria. Segundo a nota, “nós sabemos que a maior parte da população é carente, hipossuficiente e é para esta população que o Ministério Público de Minas e o brasileiro têm trabalhado incansavelmente”.

Só cabe esperar que o destempero sirva de alerta, ajudando a chamar atenção tanto para a importância do Ministério Publico quanto para as correções que, mais amplamente, se fazem urgentes, conforme sobejamente demonstrado.