Fórum de Líderes define metas para o agronegócio mineiro
Liderado pelo Diário do Comércio, o projeto Parceiros do Futuro tem como foco principal colaborar para a construção de uma Minas Gerais mais próspera e protagonista de seu próprio desenvolvimento. O Fórum de Líderes, evento que reúne lideranças empresariais, institucionais e do ecossistema de inovação para consolidar as metas estratégicas para Minas Gerais no horizonte 2040, é uma das faces mais importantes desse projeto.

Ao longo da quarta edição do fórum, realizado na sede da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas) em 20 de agosto, os participantes debateram os desafios de cada uma das cinco missões do Parceiros do Futuro. A terceira missão, “Potência agroindustrial e agropecuária”, pretende, até 2040, agregar valor ao agronegócio, expandindo a renda da agropecuária, consolidando a marca dos produtos mineiros e integrando as cadeias de valor.

O pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), Trazilbo de Paula, aponta que a principal prioridade é transformar o conhecimento gerado pela pesquisa agropecuária em ganhos concretos de produtividade, renda e competitividade para os produtores mineiros. Ele conta que um diagnóstico, elaborado pela Epamig, evidencia a importância de identificar os gargalos de cada cadeia produtiva e orientar as ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação de acordo com as demandas reais do setor.
Entre as prioridades, o pesquisador destaca o desenvolvimento e a adoção de tecnologias que aumentem a produtividade e a eficiência dos sistemas de produção; o enfrentamento dos desafios relacionados às mudanças climáticas, à disponibilidade de água e ao manejo sustentável dos recursos naturais; a melhoria da qualidade dos produtos; e o fortalecimento da assistência técnica e da transferência de tecnologia.
Trazilbo de Paula assinala que também é fundamental avançar na organização das cadeias produtivas, ampliar o acesso dos produtores aos mercados e estimular a agroindustrialização. “Precisamos aproximar cada vez mais a produção rural da indústria de alimentos e de outros segmentos que utilizam matérias-primas agropecuárias, criando oportunidades para diversificar a produção, aproveitar melhor os recursos disponíveis e agregar valor dentro do próprio estado”, pontua.
O pesquisador da Epamig considera que o diagnóstico é um instrumento importante para esse planejamento, pois permite identificar problemas e demandas tecnológicas e orientar a atuação integrada das instituições de pesquisa, extensão rural, setor produtivo e poder público.
Durante o Fórum de Líderes, foram apresentados os cinco desafios para o setor:
- Escassez de mão de obra qualificada e barreiras à sucessão rural familiar: a baixa atratividade do meio rural e a crescente exigência tecnológica dificultam reter profissionais especializados no campo, e o desinteresse das novas gerações pela gestão das propriedades ameaça a continuidade dos sistemas produtivos.
- Vulnerabilidade climática, degradação do solo e manejo hídrico ineficiente: secas, geadas e ondas de calor elevam os riscos produtivos e comprometem a qualidade das safras; o manejo inadequado e a degradação das pastagens reduzem a resiliência hídrica e biológica das bacias.
- Falta de tecnologias acessíveis e limitações na conectividade digital no campo: há descompasso entre as inovações de escala industrial e a realidade da agricultura familiar; a ausência e a baixa qualidade do sinal inviabilizam monitoramento digital, maquinário de precisão e gestão integrada na fazenda.
- Baixa agregação de valor e barreiras sanitário-regulatórias: cerca de 90% do café sai como grão verde e o leite transfere margens para fora do Estado; o custo e a burocracia dos selos sanitários travam a agroindustrialização e dificultam o acesso dos pequenos produtores nos mercados formais.
- Gargalos nas estradas rurais e instabilidade no fornecimento de energia elétrica: a precariedade das estradas vicinais encarece o frete, gera perdas na colheita e prejudica o escoamento; oscilações e interrupções na rede elétrica elevam os riscos em atividades contínuas como irrigação, ordenha e agroindústrias.
Na visão do gerente da Federação, Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Bruno Rocha, “a tese de que a agroindustrialização gera riqueza de forma automática é bastante sedutora, mas na prática econômica de Minas Gerais ela encontra barreiras estruturais severas”. O primeiro entrave apontado por ele é o custo do capital. Levantar uma estrutura industrial, seja uma torrefação própria, uma queijaria ou uma unidade de abate e processamento, demanda investimentos de maturação longa. “No atual ambiente de crédito restritivo e juros em patamares elevados, imobilizar capital em instalações e maquinários sem um canal de escoamento consolidado traz um risco expressivo de asfixia financeira para o produtor”, assinala.

Rocha aponta que a logística estadual é outro obstáculo central, uma vez que Minas Gerais possui a mais extensa malha rodoviária do País, e a distribuição de alimentos manufaturados, muitas vezes dependentes de refrigeração e cuidados especiais, exige fretes caros que consomem uma fatia considerável da margem que o empreendedor esperava capturar ao processar a matéria-prima.
A esse cenário somam-se os gargalos regulatórios, sanitários e tributários”, destaca Rocha. Ele explica que pequenos e médios agroindustriais mineiros ainda enfrentam lentidão burocrática para obter equivalências sanitárias que permitam vender seus derivados fora do município ou do estado. “Além disso, as indefinições normativas em torno da reforma tributária sobre a prestação de serviços agroindustriais exigem cautela redobrada”, pontua.
O Fórum de Líderes estabeleceu as metas para 2040 para a Missão 3:
- Formar e certificar 100 mil jovens e profissionais rurais até 2040 em trilhas técnicas, digitais e de gestão, com programa estadual de sucessão familiar presente em todos os municípios atendidos por assistência técnica continuada.
- Recuperar 1 milhão de hectares de pastagens degradadas e ampliar a agricultura de baixo carbono (Plano ABC+ MG) até 2040, com planos de segurança hídrica implantados em 100% das bacias críticas e seguro climático acessível ao pequeno produtor.
- Conectividade digital de qualidade em 100% das áreas rurais produtivas até 2035 e acesso a tecnologias de precisão e gestão para ao menos 50% das propriedades familiares, com linhas de crédito e assistência técnica dedicadas.
- Elevar o café industrializado de ~10% para ≥30% da pauta e dobrar a participação de processados de alto valor até 2040; alcançar os requisitos sanitários necessários para exportar carne bovina e suína para Japão, Coreia do Sul e outros mercados de alto valor até 2035.
- Adequar 20 mil km de estradas vicinais em regime de parceria com os municípios até 2040 e reduzir à metade os indicadores de interrupção de energia (DEC/FEC) no meio rural, com programa de geração distribuída nas propriedades.
Segundo o gerente da Faemg, a experiência cafeeira de Minas Gerais ensina que agregar valor não é, necessariamente, sinônimo de construir fábricas de torrefação e empacotamento. “A agregação mais ágil e com retorno direto à fazenda dá-se por meio da diferenciação qualitativa e da sustentabilidade comprovada. Relatórios de inteligência de café da StoneX mostram que os lotes de cafés lavados e preparados por fermentações controladas seguem obtendo prêmios consistentes de preço no exterior, beneficiados pela oferta mundial restrita de grãos finos. O cafeicultor de Minas agrega valor investindo na fase de pós-colheita, com terreiros suspensos, controle de umidade e secagem de precisão dentro da própria propriedade”, aponta.
Para Rocha, outro ativo intangível que se converte em renda é a rastreabilidade e a origem geográfica. “Diante do avanço de exigências socioambientais rígidas, como o regulamento europeu contra desmatamento (EUDR), a comprovação georreferenciada de boas práticas tornou-se mandatória para assegurar prêmios comerciais. As regiões que contam com Indicações Geográficas e Denominações de Origem reconhecidas, como o Cerrado Mineiro, a Mantiqueira de Minas e as Matas de Minas, conseguem diferenciar o produto e proteger as margens dos produtores perante o mercado internacional”, acrescenta.
Outro exemplo citado pelo gerente da Faemg é o segmento do Queijo Minas Artesanal de microrregiões como Canastra, Serro e Salitre, que demonstra como padrões sanitários associados à identidade territorial transformam o leite cru em um derivado de alta valorização gastronômica. Da mesma forma, na bioenergia, a reciclagem de resíduos para gerar fertilizantes e biometano reduz desembolsos com insumos externos e melhora a margem líquida por hectare.
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