BH aposta na mobilidade para destravar o desenvolvimento
Mobilidade urbana deixou de ser apenas uma questão de deslocamento e passou a concentrar decisões estratégicas sobre o futuro das cidades. Em Belo Horizonte, o tema reúne uma agenda ampla, que vai de grandes intervenções estruturantes, como o BRT Amazonas e a requalificação do Vetor Oeste, à integração metropolitana, à adoção de novas tecnologias, como plataformas de mobilidade integrada, e aos desafios cotidianos do sistema, como a queda de passageiros, os subsídios ao transporte coletivo e a necessidade de melhorar a qualidade do serviço. Também entram nessa equação mudanças no comportamento da população, impulsionadas pela pandemia, pelo trabalho remoto e pela diversificação dos meios de transporte.
À frente desse conjunto de frentes, a diretora de Planejamento Estratégico e Inovação da Superintendência de Mobilidade de Belo Horizonte (Sumob), Liliana Delgado Hermont, conduz uma agenda que reposiciona a mobilidade como vetor de desenvolvimento econômico, inclusão social e sustentabilidade na capital mineira, com foco em soluções integradas, participação da população e planejamento de longo prazo.

A discussão integra o projeto Parceiros do Futuro, iniciativa do Diário do Comércio em parceria com a consultoria Spine, que busca estruturar uma agenda consistente de desenvolvimento sustentável para Minas Gerais, baseada na diversificação econômica, na inovação e na geração equilibrada de riqueza.
As pessoas costumam confundir o conceito de mobilidade simplesmente com o tráfego ou com a engenharia de trânsito. Você pode falar um pouco sobre o conceito e quais são os objetivos da Sumob?
A mobilidade urbana é um conceito que se tornou mais abrangente nos últimos anos. Ela implica no deslocamento de pessoas e mercadorias na cidade. Isso envolve o transporte, a forma como as pessoas se movem, o percurso desses deslocamentos, a engenharia de tráfego, o sistema de transporte. E, mais recentemente, temos trabalhado o conceito de mobilidade urbana sustentável, que busca possibilitar que essa mobilidade ocorra com menos emissões de gases de efeito estufa, com menos risco para as pessoas, com menos mortos e feridos no trânsito e de forma a promover uma melhor qualidade de vida nas nossas cidades.
Essa não é uma área conhecida pela presença feminina. Como você se interessou e fez carreira nela?
Sou arquiteta urbanista de formação e, há 30 anos, quando eu decidi concentrar esforços nessa carreira da mobilidade urbana, era um mercado de trabalho notadamente masculino e de engenheiros de transporte. Eram esses engenheiros que faziam o planejamento. E isso foi se transformando ao longo dos anos. Para mim, ficou muito claro que é uma área que pode ter contribuição de diversas formações. Hoje nós temos urbanistas, arquitetos, engenheiros, geógrafos, cientistas sociais, médicos…
É muito gratificante, porque a área de mobilidade urbana tem um interesse geral da sociedade e possibilita algumas mudanças estruturais, algumas delas mais rápidas, outras mais lentas. Mas, definitivamente, penso que a mobilidade urbana é, principalmente, um vetor de transformação das cidades.
Esse é um ponto muito interessante, porque as soluções para a mobilidade urbana são, na verdade, um conjunto de soluções e não apenas as grandes obras, como boa parte das pessoas imagina, certo?
É importante entender que um tipo de solução não elimina o outro. As grandes obras, em muitos casos, podem trazer um grande benefício para a sociedade, mas não é a única solução. Quanto mais espaço for dado para os carros, mais eles demandarão. As intervenções estruturantes, especialmente voltadas para o transporte coletivo, têm um interesse especial em Belo Horizonte. Elas têm um impacto maior sobre o número de usuários.
A estrutura urbana é delimitada pelo Plano Diretor, que é de 2019, e prevê uma cidade policêntrica, com mais centros regionais, onde as pessoas tenham serviços e emprego perto de casa.
Nesse sentido, algumas intervenções nessas centralidades passam pelo entendimento das relações de vizinhança e de pertencimento. De modo geral, todas as obras de infraestrutura de transporte, sejam pequenas ou grandes, devem ser pensadas com a população envolvida.
As pessoas têm que reconhecer aquela intervenção como algo construído coletivamente, sempre que possível, para integrar aquilo no dia a dia delas. Caso contrário, uma boa solução pode causar estranhamento.
Você hoje é a diretora de Planejamento e coordena iniciativas consideradas estruturantes para a cidade, como o tema mobilidade urbana do Programa de Mobilidade e Inclusão Urbana, que concentra intervenções no Vetor Oeste de Belo Horizonte e prevê diversas intervenções no corredor da avenida Amazonas, incluindo planos, estudos, projetos e a implantação do futuro BRT Amazonas. Qual é a importância desse projeto?
Nós fizemos os nossos corredores de BRT, avenidas Cristiano Machado e Antônio Carlos, há mais de 10 anos. E, à época, a avenida Amazonas já era um corredor metropolitano, fazendo dele o corredor de maior movimentação de passageiros da Capital.
É um desafio muito grande porque, ao contrário dos outros dois, não temos a possibilidade de fazer uma desapropriação ao longo de todo o trajeto. Temos um espaço viário de aproximadamente 35 metros de largura, que é caracterizado como um corredor verde. Além disso, ele tem o que chamamos de sobe e desce de passageiros ao longo de todo o percurso. Outros corredores têm o subir e descer do ônibus concentrados no início e no fim do trajeto.
Estamos ouvindo a sociedade para fazer esse projeto, que é um grande programa de mobilidade e de inclusão urbana, do qual o BRT Amazonas é o principal componente, mas não o único. Temos um financiamento do Banco Mundial e estamos terminando a fase de estudos e concepção do projeto de transporte. Posteriormente, vamos começar a desenvolver os projetos básicos e executivos.
Mobilidade não é um assunto municipal, mas regional, principalmente em uma região metropolitana como a nossa, concentrada, em que muita gente vem para a Capital diariamente. Como é feito esse diálogo com as cidades do entorno e com o governo do Estado?
Esse desafio da integração metropolitana é especialmente importante no projeto do BRT Amazonas. Linhas municipais e metropolitanas operarão dentro do corredor. Isso deixou muito clara a necessidade de ter um diálogo com os outros municípios para fazer uma gestão estratégica. Temos, então, um comitê especialmente construído para o Vetor Oeste-Barreiro, que trata de diversos assuntos, mas principalmente do programa de mobilidade urbana. Discutimos qual será o modelo de operação do corredor, as necessárias integrações dos sistemas, tanto municipal como metropolitano, como se alterarão, nas estações de canteiro central, as linhas metropolitanas e municipais, as necessidades de novas integrações metropolitanas, inclusive dentro do município de Belo Horizonte, integrações com o metrô, por exemplo. É importante que o usuário tenha alternativas.
Um dos pilares da Sumob é a inovação. O conceito de Mobility as a Service (MaaS), “Mobilidade como serviço”, prevê a integração de diversos meios de transporte (ônibus, aplicativos, bikes, metrô) em uma única plataforma digital. Como a Sumob está trabalhando para que a tecnologia facilite a jornada do usuário em BH, para além do Cartão BHBus?
Esse é um conceito que está sendo desenvolvido em vários lugares do mundo e é uma das nossas metas. Planejamos uma plataforma em que todos os serviços de mobilidade vão estar disponíveis para conhecimento e escolha do usuário.
BH tem uma topografia desafiadora, mas a integração com bicicletas e patinetes é tendência mundial. Como as intervenções estruturantes, como o BRT Amazonas, planejam a integração com a micromobilidade? Existe um plano para que o pedestre ou ciclista consiga fazer o trajeto da “última milha”de forma segura e eficiente?
Até a pandemia, tínhamos um modelo de deslocamento muito padronizado. Hoje, com possibilidades como o home office e as duplas jornadas, isso se tornou cada vez mais dinâmico, além, claro, do impacto da disponibilidade econômica sobre as escolhas.
Existe uma grande polêmica sobre os subsídios dados ao transporte coletivo em Belo Horizonte e a proposta de tarifa zero. Enquanto isso, o serviço continua muito ruim e as empresas reclamam do esvaziamento das linhas. Qual é a solução para que as pessoas voltem a usar o transporte coletivo, que é o mais eficiente do ponto de vista ambiental e econômico para a cidade?
Sabemos que nenhuma cidade funciona bem exclusivamente com transporte individual motorizado. Também sabemos que todas as cidades precisam investir em transporte público de qualidade. Boa parte da população entende que a Prefeitura está “dando dinheiro para os operadores”. Eu entendo que ela repassa recursos para evitar o aumento das passagens e, para isso, existem controles rigorosos. Como eu disse, quando entrei no setor, há 30 anos, e a gente participava de eventos internacionais, ninguém acreditava que nosso sistema era totalmente bancado pela tarifa. Diziam ser impossível manter o sistema sem subsídios. Naquela época, tínhamos linhas mais rentáveis que ajudavam a sustentar as menos rentáveis. Essa realidade se tornou mais difícil ao longo do tempo porque, realmente, houve uma diminuição do número de passageiros do transporte público por ônibus em todas as cidades brasileiras.
A pandemia agravou essa situação porque muita gente passou a trabalhar remotamente, outros se mudaram para o interior, e um grande volume passou a usar outros modelos de transporte, seja carro de aplicativo, moto ou bicicleta. Então, realmente, o sistema entrou em uma crise muito forte. Belo Horizonte está discutindo, deve discutir e se apropriar do que está acontecendo e precisa de muita transparência nesse processo.
O desafio é que esse serviço de transporte coletivo por ônibus precisa ter mais qualidade. Nós melhoramos em diversos parâmetros. Voltamos com as viagens da madrugada que foram perdidas durante a pandemia, e a gratuidade aos domingos é outra conquista importante, mas precisamos avançar mais. O usuário precisa de mais comodidade, conforto e conveniência e também de mais alternativas de conexão com outros sistemas.
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