Equipe econômica de Cleitinho ganha forma em meio a rombo de R$ 10,5 bilhões de déficit no Estado

Governador eleito diz que Fazenda e Planejamento são prioridade e quer perfil técnico para renegociar Propag com a União, cortar gastos e evitar que Estado não pague servidores em 2027

O primeiro teste do governo Cleitinho Azevedo (Republicanos) não será político, mas fiscal. Com déficit projetado de R$ 10,51 bilhões para 2027 – mais que o dobro dos R$ 5,22 bilhões previstos para 2026 – e uma dívida com a União que a Secretaria de de Estado de Fazenda aponta em algo em torno de R$ 188,19 bilhões, dentro de um passivo total de R$ 208,87 bilhões, a equipe econômica que está sendo montada terá que resolver em poucas semanas o que não foi resolvido em oito anos.

O governo atual encaminhou à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em 14 de outubro, a revisão da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2027 justamente por isso: as despesas saltaram de R$ 153,87 bilhões para R$ 155,50 bilhões, enquanto a receita ficou estagnada em R$ 144,99 bilhões. É esse quadro que explica a fala de Cleitinho ao site O Fator: “Não acho que preciso criar mais secretarias. Com a situação fiscal do Estado, a gente tem de pensar muito nas secretarias de Planejamento e Fazenda. Isso é prioridade para mim”.

A estratégia anunciada por Cleitinho e sua equipe de transição tem três eixos envolvendo questões fiscais e econômicas urgentes. O primeiro deles é a adesão do governo de Minas ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) em 31 de dezembro de 2025, com refinanciamento em até 360 meses e Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) + 0% de juros reais. Até agora, o governo pagou R$ 1,03 bilhão. Para conseguir juros menores, ofereceu R$ 35,8 bilhões em ativos à União – cerca de 20% do débito – mas ainda espera sinalização sobre quais bens o Planalto vai aceitar. A discussão sobre federalização de bens, que poderia abater cerca de R$ 37 bilhões, é o ponto mais sensível, uma vez que Cleitinho apoiou Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pela Presidência e agora depende do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para renegociar o Propag.

A equipe de transição tem falado que reforma administrativa, corte de gastos supérfluos e monitoramento de contrato por contrato para reavaliar isenções fiscais concedidas pelo ex-governador Romeu Zema (Novo) são o segundo eixo econômico prioritário para o futuro governo. A avaliação é que, além do crescimento de despesas obrigatórias com saúde, educação e pessoal, o estado precisa rever renúncias fiscais e a gestão de estatais.

Arrecadação sem aumentar imposto seria o terceiro eixo da equipe econômica de transição. Há o consenso de que é preciso promover a atração de investimentos, rever concessões e incentivos fiscais. O cronograma oficial de transição confirma uma série de reuniões específicas com o governo Mateus Simões (PSD) para tratar de Desenvolvimento Econômico (28/10), Fazenda (17/11), Propag (18/11) e Planejamento e Gestão (19/11). Para isso, Cleitinho disse que buscará um secretariado técnico, e que indicações políticas só serão aceitas se tiverem qualificação comprovada, com foco anticorrupção. Se não houver acordo sobre os ativos do Propag e contenção de despesas, o alerta da transição é que o estado corre o risco concreto de não conseguir pagar o funcionalismo em fevereiro de 2027 – cenário que torna a definição dos titulares de Fazenda e Planejamento a decisão mais urgente do futuro governo.

Veja alguns nomes que vêm sendo cotados ou integrantes do núcleo econômico, embora o governador eleito tenha dito que a participação na transição não garante vaga no seu futuro secretariado:

Bruno Westin Prado Soares Leal: economista formado pela UFMG, mestre pela USP e Global MBA pela EDHEC Business School (França). Servidor de carreira do Tesouro Nacional, foi secretário-adjunto de Fazenda de Minas em 2015, diretor de Relações com Investidores no Ministério do Planejamento e secretário especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) no Ministério da Economia no governo Bolsonaro. Foi conselheiro do BDMG e da Cemig. Hoje é o favorito para a Fazenda.

Marcos Lisboa: ex-presidente do Insper e secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no primeiro governo Lula (2003-2005). Foi convidado por Cleitinho para a Fazenda, mas recusou e se colocou à disposição para colaborar.

Flávio Roscoe: presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Foi sondado para Fazenda ou Desenvolvimento Econômico, mas preferiu permanecer na entidade, afirmando que pode contribuir com propostas.

Gilberto Silva Ramos: auditor fiscal aposentado, ex-subsecretário da Receita Estadual de Minas e atual secretário municipal de Fazenda de Ibirité. Também foi secretário de Fazenda de Belo Horizonte e Contagem. Integra a equipe de transição no núcleo fiscal.

André Abreu Reis: servidor de carreira, foi secretário de Planejamento, Orçamento e Gestão de Belo Horizonte por oito anos. Experiência em planejamento governamental e gestão orçamentária.

Leonardo Almeida Bortoletto: o empresário e administrador de empresas graduado pela Universidade Fumec, com sólida trajetória voltada para inovação, tecnologia, governança corporativa e gestão empresarial integra a equipe de transição. É sócio-fundador do Clube Permuta, uma das maiores plataformas de permutas multilaterais da América Latina. Foi vice-presidente da Codemge durante a gestão de Romeu Zema.

Sobre o autor

Ana Karenina Berutti

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo e mestre em Letras pela PUC Minas. Experiência de 30 anos em cobertura política e econômica.