Maria da Consolação defende Estado forte, tarifa zero e controle das terras raras em Minas
O Diário do Comércio Eleições Minas 2026 recebeu a pré-candidata ao governo de Minas pelo Psol, Maria da Consolação. Para ela, o direito à educação abre outras perspectivas de futuro. Professora aposentada da rede municipal de Belo Horizonte e da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Maria da Consolação é militante do movimento feminista e dos movimentos sociais e sindical. Foi diretora do SindUTE e do Sind-Rede, atuou na Central Única dos Trabalhadores (CUT) e foi filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT) até 2005. Em seguida, participou da fundação do Psol. Nas eleições municipais de 2024, disputou uma vaga na Câmara Municipal de Belo Horizonte e é a primeira suplente da federação Psol/Rede no Legislativo. Nestas eleições, lançou sua pré-candidatura com o objetivo de articular a esquerda e criar uma frente que ela chama de “Minas Socialista”.
Na entrevista ao Diário do Comércio, ela propôs um desenvolvimento econômico que gere emprego e renda e promova a inclusão social. Além disso, defendeu a aprovação do projeto que pretende acabar com a escala 6 por 1 em tramitação no Congresso. A socialista saiu em defesa de estatais como Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), falou sobre o processo de reindustrialização em Minas e a necessidade do controle estatal sobre as terras-raras. Entre as prioridades do seu plano de governo estão educação básica, reforma agrária, tarifa zero no transporte e combate ao trabalho escravo.
Para a pré-candidata, uma das prioridades é criar políticas concretas de valorização dos servidores e servidoras estaduais, reverter a privatização da Copasa e renegociar a dívida do Estado com a União, feito que ela acredita ser possível de se concretizar com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma das principais propotas do seu programa de governo é o investimento em educação e ciência, indústria de base e transição energética justa. Sua proposta é uma Minas que distribua renda, cuide das pessoas e do meio ambiente e garanta direitos. Maria da Consolação defende um Estado forte para uma Minas Gerais mais justa e inclusiva.
Maria da Consolação classificou a atual situação do Estado de “terra arrasada” e, entre críticas aos quase oito anos de gestão Romeu Zema e Mateus Simões, a pré-candidata falou da “espetacularização da política com homens públicos comendo banana com casca”, em referência ao vídeo que o então governador Zema postou em suas redes sociais. Segundo Maria da Consolação, o episódio teve a finalidade de distrair os mineiros das atrocidades que o governo vem cometendo.
Qual medida com impacto direto no ambiente de negócios de Minas Gerais seria tomada nos seus primeiros 100 dias de governo?
Nos primeiros 100 dias, seria preciso garantir que a Copasa continuasse nas mãos da nossa população, porque água é um direito social, um direito humano, não é mercadoria. Temos que garantir que as servidoras e os servidores públicos sejam valorizados pelo seu trabalho. Hoje, o que nós temos do atual governo é uma terra arrasada, é privatização, são os hospitais completamente abandonados, leilão das escolas, militarização, crimes ambientais. Então, nós temos que fazer esses enfrentamentos.
Precisamos também implementar um projeto de educação para garantir o direito à educação básica para toda a população. Para se ter uma ideia, nós temos 11 milhões de pessoas com mais de 15 anos, o que equivale praticamente à metade da população do Estado, que não concluíram a educação básica em Minas Gerais. Temos 1 milhão de pessoas que não sabem ler nem escrever. Isso, num mundo que vive uma disputa tecnológica, é inaceitável. Entendemos que isso é emergencial porque, para se construir o futuro, você tem que garantir o acesso ao conhecimento e à educação no presente para que seja possível ter produção tecnológica em nosso Estado.
Aí nós precisamos fazer uma coisa que é muito urgente, que é, aí dentro dos 100 dias, né? Uma secretaria para debater a questão climática, né? Porque nós temos que dar uma resposta, a essa questão que afeta o cotidiano da vida das pessoas. Interessante porque a gente também vai falar da questão climática, mas a gente vai falar também de agronegócio.

Qual o seu posicionamento sobre a privatização da Copasa e da Cemig? Caso seja favorável, quais salvaguardas defenderia para garantir a universalização dos serviços e proteger o consumidor?
É preciso pensar a privatização dentro de um contexto global de disputa geopolítica, de uma disputa por matriz energética, uma disputa que passa pelo campo político, econômico e militar. E quando vejo as pessoas falando em privatizar energia e água, eu me pergunto: será que elas estão prestando atenção no que está acontecendo no mundo e em quem está defendendo essas privatizações? Porque os Estados Unidos estão ameaçando a América Latina e atacando o Irã movidos pela disputa da matriz energética. Precisamos ter controle sobre os nossos metais raros em Minas Gerais. Quando as pessoas falam em privatizar tudo, o que vejo é que há uma falta de perspectiva de futuro. Quem está apresentando essas propostas não tem perspectiva de futuro nem preocupação com a soberania do nosso País. Essas pessoas têm uma concepção de subordinação do Brasil e de Minas Gerais ao capital internacional. E nós acreditamos e defendemos uma outra perspectiva. Nesse contexto geopolítico, nós temos que garantir com muito vigor e energia que os bens comuns sejam distribuídos para todas as pessoas e, por isso, é preciso garantir a soberania do Brasil e de Minas Gerais.
Qual é a sua proposta concreta para a mineração e a transição energética em Minas Gerais, um Estado que concentra reservas estratégicas para a transição energética global, como lítio, nióbio, grafite e terras-raras?
Eu sempre digo que nós somos o Estado das terras-raras desde sempre. Precisamos garantir o nosso controle sobre essas terras-raras e buscar uma outra forma de inserção no mercado internacional. Não devemos apenas exportar o minério de ferro. Temos que investir no processo de reindustrialização de Minas Gerais. Precisamos sair dessa lógica da grande fazenda de mandar para o exterior os minerais, o gado, o leite. É preciso pensar numa outra lógica, de tal forma que Minas Gerais tenha uma indústria mais competitiva e sua própria matriz energética.
E o que temos visto hoje em Minas Gerais é o conluio entre as mineradoras e o governo atual, que fez algumas coisas com o dinheiro do crime da Vale, com o dinheiro do sangue de pessoas que foram mortas por uma negligência calculada. E digo calculada porque a Vale sabia o que poderia acontecer, pois fez esse cálculo. Calculou que era mais barato correr risco e indenizar depois do que investir para impedir um crime humano e ambiental. Então, precisamos fazer esse enfrentamento com a mineração e ter uma outra lógica de exploração.
É preciso buscar e trocar conhecimento tecnológico e ter um controle ambiental de todo o nosso bioma. Porque essa mineração predatória poluiu e destruiu completamente os rios Doce e Paraopeba. Então, é preciso uma outra perspectiva com mais fiscalização e uma outra política de exploração mineral no nosso Estado, com controle estatal sobre as nossas terras raras. E a mineração impacta na questão dos aquíferos, porque onde há mineração, há um processo de destruição das nossas nascentes, dos nossos aquíferos. Então, é preciso ter uma outra perspectiva dessa exploração, porque é preciso garantir também um bem essencial para a vida, que é a água, que é para o benefício do conjunto da população e não para o usufruto de um pequeno grupo que só quer o seu próprio enriquecimento.
Empresários mineiros apontam sistematicamente a burocracia estadual e a insegurança jurídica como freios ao investimento nos negócios. Qual o seu diagnóstico sobre essa questão e quais medidas a senhora pretende adotar nos primeiros 12 meses de governo?
Em primeiro lugar, é preciso valorizar os servidores públicos, com plano de carreira, salários dignos, para eles terem condições de fazer todo o processo de elaboração técnica de uma perspectiva de futuro, garantir todo o processo de fiscalização dos serviços e pensar em formas de garantir a transparência pública.
Também defendemos o orçamento e o planejamento participativo em Minas Gerais. O povo precisa saber quanto é arrecadado de imposto, como esse dinheiro vai ser usado e como garantir a fiscalização. Além disso, temos que fazer um enfrentamento para acabar com as isenções fiscais que acontecem no nosso Estado. O governo atual criou uma série de subsídios para beneficiar setores próximos a ele. Esses subsídios são recursos preciosos que foram retirados da saúde, da educação, da moradia.
E precisamos ter transparência nos contratos, uma legislação que todo mundo acompanhe, e não apenas o empresariado. A população precisa saber quais serviços o Estado contratou, quem ganhou a licitação e como os serviços estão sendo prestados. Com as novas tecnologias, é possível garantir esse nível de transparência.
Em relação à necessidade do planejamento participativo, precisamos pensar em que Minas Gerais queremos daqui a alguns anos. Para isso, é preciso criar projetos de Estado e não de governo. Por exemplo: queremos que, em dois anos, toda a população de Minas Gerais tenha concluído a educação básica. Isso dá para fazer se todos pensarem em planejamento e orçamento participativo.
Quais são as prioridades concretas do seu projeto de governo para rodovias e ferrovias, a fim de ampliar a competitividade logística do Estado?
Primeiro, nós precisamos garantir tarifa zero, porque quando a gente fala de produção, falamos das pessoas que trabalham. Além disso, estamos na luta pela redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, que é uma luta histórica. É preciso garantir que as pessoas que trabalham e produzem riqueza, que são a maioria da população, tenham condições de vida digna. E o Estado pode garantir que a redução da jornada seja uma das regras para a contratação das suas empresas e garantir tarifa zero para locomoção das pessoas, começando pela Região Metropolitana de Belo Horizonte. Nesse caso, os usuários já deveriam usar um único cartão para todos os ônibus.
Outra proposta é a volta dos trens de passageiros. Nós já temos a infraestrutura para isso, já temos os trilhos. Isso iria contribuir para a locomoção das pessoas. Outro ponto é melhorar as nossas estradas de forma articulada para movimentar a economia.
Então, é preciso fazer esse investimento articulado. Mas eu quero ressaltar novamente: esse investimento do Estado é para garantir que o conjunto da sociedade mineira usufrua do lucro que for produzido.
Não podemos continuar com um investimento que é feito só para manter o lucro privado e a exploração absurda do cotidiano da vida das pessoas que produzem a riqueza no nosso Estado e no nosso País. É preciso mudar essa lógica.
Minas Gerais convive há anos com o peso da dívida com a União, o que limita a capacidade de investimento do Estado. Como a senhora pretende equacionar esse passivo e ampliar a margem fiscal para projetos prioritários?
Essa dívida foi sendo enrolada e o governo demorou a aderir ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e, quando aderiu, ele aproveitou para fazer algo que não precisava fazer, que era privatizar tudo. Na verdade, o governo arrumou uma desculpa para privatizar. E as privatizações não estavam previstas no acordo.
Entendemos que é preciso renegociar a dívida do Estado na perspectiva de que precisamos garantir os direitos sociais. E, sim, isso é possível. Mas, para isso, precisamos reeleger o presidente Lula. Esse é o nosso compromisso. Queremos manter no Brasil uma continuidade, numa perspectiva de ter um projeto de País, com tarifa zero, com moradia para todo mundo, com reforma agrária, com alimentos sem veneno, com a soberania das nossas terras raras, nossa energia e nossa água, além da proteção dos nossos biomas.
O dinheiro, fruto dessa renegociação, tem que ser investido para garantir saúde, educação, moradia, transporte e lazer para as pessoas. Ao garantir isso, nós vamos produzir mais, arrecadar mais e ter melhores condições de pagar essa dívida.
Nesse sentido, é preciso renegociar a dívida e garantir que haverá concurso público, plano de carreira, saúde, educação e política pública, porque é assim que vamos garantir que o Estado se restabeleça.
O que está aí hoje é terra arrasada. É uma política articulada de destruição do Estado mineiro, articulada para garantir o enriquecimento de alguns grupos políticos. Além disso, o que se vê é uma banalização da política, uma espetacularização da política, como, por exemplo, comer banana com casca. É fazer essas coisas para distrair as pessoas de um projeto de destruição articulado. E nós somos totalmente contra esse projeto.
Eu sou da terceira ou quarta geração de pessoas que nasceram livres na minha família. E nós estamos enfrentando um projeto de pessoas da terceira ou quarta geração de descendentes de escravocratas. Tem uma disputa? Tem, sim. Eles querem manter a lógica da escravidão. Nós estamos disputando a lógica da libertação com perspectivas de futuro para Minas e para o Brasil.
Quais políticas agrícolas a senhora defende e como pretende integrar tecnologia, crédito e assistência técnica para o produtor rural?
Nós temos que lutar nesse País para fazer a reforma agrária. Não tem como a gente continuar com pessoas que têm uma quantidade de terra como no período das capitanias hereditárias. Não dá mais. Nós temos que distribuir terra nesse País, fazer reforma agrária, garantir a regularização de todos os assentamentos e garantir investimento na produção agrícola, garantir investimento para a comercialização desses produtos. E o MST tem dado um exemplo maravilhoso nesse sentido, porque produz alimentos orgânicos com avanço tecnológico.
Nós precisamos produzir alimentos para o nosso povo. Não podemos viver num país que produz tantos alimentos para fora e aqui ainda termos gente passando fome. Precisamos rever essa forma de fazer do agronegócio, porque ele está diretamente ligado à questão climática. A ideia é propor uma outra perspectiva do uso da terra. Precisamos conversar com os grandes produtores em Minas Gerais sobre como mudar essa perspectiva. As pessoas no mundo todo, quando vão comprar, querem saber como aquele alimento foi produzido.
E tem uma outra questão que precisa ser enfrentada quando falamos de agronegócio. No Brasil ainda tem trabalho escravo. E nós, em Minas Gerais, temos trabalho escravo na cadeia produtiva do café, pessoas do Norte de Minas, do Vale do Jequitinhonha, que vão trabalhar no Sul do Estado como escravos. Nós estamos em 2026. Isso é inaceitável.
Como a senhora articula a agenda de segurança pública com a agenda econômica e quais são as prioridades do seu governo nessa área?
Quando a gente fala em segurança pública, as pessoas sempre pensam em um policial armado na frente delas. Mas segurança pública é garantir segurança alimentar, segurança hídrica, segurança de moradia, segurança educacional, uma segurança que vai garantir o direito de ir e vir.
Um dos maiores desafios nossos de segurança pública é proteger a nós, mulheres, e as meninas, porque nós estamos sofrendo violência dentro de casa. Tanto as crianças quanto as pessoas mais velhas. Como a gente vai pensar a segurança pública? Vai colocar um policial dentro de cada casa? Isso porque já vimos, recentemente, policiais dentro das suas casas assassinando suas companheiras policiais. Então, é pensar numa outra lógica de segurança. Uma lógica que passa por garantir os direitos sociais. Uma lógica que passa pela proteção da vida humana.
O caso do Banco Master mostra que o crime organizado não está nas comunidades, nas periferias, está na Faria Lima, que articula o mercado financeiro com o PCC e com a exploração religiosa das pessoas. Isso é grave.
Então, quando eu vou pensar em segurança pública, tenho que pensar também que ela tem que ser investigativa, mais ampla e mais abrangente. Além disso, não dá para aceitar que torturas ainda aconteçam no nosso País. Nós vivenciamos isso na ditadura militar e nós precisamos fazer esse enfrentamento à tortura.
Eu quero saber se alguém vai levar os bandidos que estão lá na Faria Lima para casa. Os caras estão roubando bilhões, dinheiro dos aposentados e aposentadas, dinheiro do fundo de pensão, dinheiro público, dinheiro nosso, dos impostos que a gente paga. E esse crime da Faria Lima compromete a saúde, a educação, a moradia de todo mundo.
A minha proposta é a gente fazer uma outra reflexão de segurança pública. Precisamos de segurança nas escolas, nos postos de saúde. E, para que dê certo, precisamos fazer um debate com a sociedade. Quando a sociedade começou a odiar as professoras, as trabalhadoras das escolas? Quando a sociedade começou a odiar as trabalhadoras e os trabalhadores dos postos de saúde e dos hospitais? Existe uma política articulada de fomentar o ódio contra nós, o ódio contra quem trabalha na educação e na saúde, sobretudo nós, mulheres, ódio contra o nosso trabalho. Todos os dias a gente lê sobre casos de violência e morte nas escolas do País e isso tudo está articulado com um projeto de mundo que passa também pela questão das redes sociais, que incentiva o ódio também entre os jovens. A gente tem que ter controle sobre as big techs. E aí vai ter gente criticando e falando que isso é controle sobre a liberdade de expressão. Gente, isso não é liberdade de expressão. Crime não é liberdade. Pedofilia é crime. Estupro é crime. Precisamos falar disso. Como que a gente vai garantir de fato a proteção da maioria da população, que são as crianças, as meninas, as mulheres? Precisamos fazer uma segurança pública para acabar com a misoginia que provoca tantos feminicídios no nosso País.
Política de segurança pública não é só o soldado armado na rua. É preciso pensar em uma política de segurança pública que, de fato, garanta o direito de ir e vir das pessoas. Você tem o direito de ir para o seu trabalho e voltar bem, voltar para a sua casa, com tranquilidade. As pessoas têm o direito de estudar e voltar bem. preciso pensar em uma política de segurança pública que, de fato, garanta o direito de ir e vir das pessoas. Você tem o direito de ir para o seu trabalho e voltar bem, voltar para a sua casa, com tranquilidade. As pessoas têm o direito de estudar e voltar bem.
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