Lula vence pela quarta vez e terá que levar governo ao centro para escapar de Congresso bolsonarista

Para analistas, novo mandato será de continuidade, ajuste fiscal gradual e soberania sobre terras-raras para negociar com EUA de Trump e China
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Lula vence pela quarta vez e terá que levar governo ao centro para escapar de Congresso bolsonarista
Lula comemora a vitória | Foto: Ricardo Stuckert

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) para o quarto mandato como presidente da República, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). A vitória, a mais apertada da história recente, prolonga o ciclo de Lula no comando do País em uma eleição marcada pelo avanço da direita no Congresso Nacional. O PL elegeu 121 deputados e 28 senadores, tornando-se a maior bancada nas duas Casas. É nesse cenário que Lula terá de governar.

O presidente promete manter e ampliar programas como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Pé-de-Meia e Desenrola. Também assumiu, na reta final da campanha, compromissos como o fim da escala 6×1, com jornada semanal de 40 horas, e o perdão de dívidas e a oferta de crédito de R$ 5 mil para microempreendedores individuais (MEIs) a partir de 2027. Para avançar com essas e outras propostas, terá de negociar com os partidos de centro, que têm peso decisivo no Congresso.

Cenário político: família Bolsonaro enfraquecida e construção de novos quadros no PT

Para o estrategista em marketing político Celso Lamounier, a vitória de Lula no segundo turno foi a mais importante do século em termos políticos. “Veio sem favoritismo, numa eleição que se manteve aberta até o último minuto”, avalia. Segundo ele, governar sem maioria no Congresso será um desafio, mas a experiência e a habilidade de negociação de Lula devem viabilizar um governo mais próximo do centro.

Na avaliação de Lamounier, mesmo com a derrota na disputa pela Presidência, a direita saiu fortalecida no Senado, na Câmara dos Deputados e nos governos estaduais. A família Bolsonaro, por outro lado, ficou enfraquecida. “Jair está sem perspectiva, Eduardo também, e Flávio e a família vão juntar os cacos sem horizonte aparente nessa conjuntura. É uma oportunidade para uma direita democrática, mais moderada e fora da família ganhar espaço”.

Apesar disso, o estrategista político ressalta que a polarização permanece. “O eleitor anti-PT continua aí, com o mesmo peso. Opinião cristalizada não muda do dia para a noite”, assinala. Para Lamounier, o quarto mandato também terá uma missão interna: construir novos quadros políticos para o período pós-Lula. “Lula adiou essa conversa, mas chegou o momento. A disputa por esse espaço será grande”, afirma.

O cientista político, professor e coordenador de Relações Internacionais do Ibmec, Adriano Gianturco, também avalia que um novo governo Lula será mais previsível, devido à continuidade das políticas adotadas nos mandatos anteriores. “Não muda muito em comparação ao que foi o governo atual, ele vai seguir a mesma linha, o passado importa e influencia o presente e o futuro que não vai ser muito diferente do que o que temos hoje”, pontua.

Gianturco alerta, porém, que o ajuste fiscal será inevitável. “As contas do País estão no vermelho. Sabemos que a arrecadação da União aumentou, mas, mesmo assim, as contas estão no vermelho. Foi o próprio governo Lula que disse que, em 2028, não terá recursos para pagar os gastos previstos. A dívida pública está aumentando de forma contínua, os juros, a inadimplência das pessoas, as falências e recuperação judicial estão aumentando”, afirma. Para o especialista, o ajuste das contas públicas ocorrerá por meio do aumento de impostos, da ampliação da dívida pública ou da aceleração da inflação.

Na política interna, Gianturco projeta a manutenção e a ampliação de programas sociais, como Bolsa Família, Pé-de-Meia e Minha Casa, Minha Vida. Na política externa, prevê a continuidade das parcerias comerciais com China, Rússia, Irã, Nicarágua e Venezuela, além de um distanciamento dos Estados Unidos e de governos de direita na América Latina.

Cenário econômico: impacto inicial nos mercados e ajuste pelo crescimento

Para o economista Mauro Borges Lemos, professor titular aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e PhD em Economia pela Universidade de Londres, a vitória de Lula deve provocar impactos negativos no curto prazo nos mercados de câmbio, ações, juros e dívida, contrariando as expectativas de parte dos investidores. “Esses últimos dias antes das eleições já mostram que vários mecanismos financeiros de proteção e reposicionamento estão sendo usados para esse cenário de quebra de expectativas”, afirma.

O impacto, porém, seria temporário. Com a manutenção da política monetária do Banco Central e um novo contingenciamento de despesas em novembro, os indicadores tenderiam a voltar a refletir os fundamentos econômicos, acompanhando a trajetória de queda da Selic, a desaceleração da inflação e a estabilidade do câmbio. No longo prazo, a expectativa é de acomodação dos mercados.

Lemos traça dois cenários para 2027. No mais pessimista, com a manutenção do arcabouço fiscal, o cumprimento da meta de superávit de R$ 83,4 bilhões, considerando a retirada de R$ 64,8 bilhões em despesas do limite, representaria um resultado equivalente a 0,13% do Produto Interno Bruto (PIB). Para atingir o piso da banda de tolerância, de 0,25% do PIB, seria necessário um esforço fiscal adicional de 0,12 ponto percentual, considerado viável pelo economista diante da proibição de criar ou ampliar benefícios fiscais, acionada pelo déficit de 2025.

No cenário mais otimista, o quarto mandato seguiria a estratégia de ajuste fiscal “pelo crescimento”, defendida por Lula durante a campanha. A proposta não se limitaria ao aumento da arrecadação, mas buscaria garantir que a taxa de crescimento econômico de longo prazo fosse igual ou superior à taxa real de juros, condição apontada pelo economista para estabilizar ou reduzir a relação entre dívida pública e PIB, a exemplo da experiência norte-americana. Segundo Lemos, isso exigiria um ajuste estrutural gradual, com racionalização das despesas conforme o ciclo econômico, redução do financiamento por meio da emissão de títulos públicos e condições para uma queda estrutural da Selic.

Em relação à política econômica internacional, Lemos vê a possibilidade de efetivação do acordo entre Mercosul e União Europeia, mediante o cumprimento de exigências ambientais. Segundo ele, o avanço do acordo ampliaria o poder de negociação do Brasil diante das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos (EUA). Nesse contexto, minerais críticos e produtos agropecuários, como carne, laranja e café, poderiam ser utilizados como instrumentos de negociação, e não como concessões. “Pela experiência recente, a administração americana respeita mais quem é assertivo e propositivo do que quem é dócil e leniente às vontades de Trump”, diz.

Para o professor de economia do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar-UFMG), João Prates Romero, o novo mandato de Lula também tende a ser mais previsível, justamente pela perspectiva de continuidade das políticas atuais. “Haverá a continuidade das políticas do governo atual aliada a uma busca de espaço fiscal para cumprir as promessas que foram feitas durante a campanha, com a manutenção das políticas públicas sociais e dos gastos públicos em saúde, educação, ciência e ao mesmo tempo haverá uma busca por um ajuste gradual das contas públicas”, afirma.

Na política externa, Romero prevê a manutenção da estratégia multilateral adotada pelo governo Lula. “A tendência é de uma continuidade de uma busca de relações multilaterais com diversos parceiros como EUA, China, Europa, ou seja, uma busca por uma maior diversificação de parceiros comerciais, com foco no que o Lula prometeu durante a campanha, de preservar a soberania nacional”, assinala.

Sobre o autor

Ana Karenina Berutti

Repórter do Diário do Comércio. Graduada em Jornalismo e mestre em Letras pela PUC Minas. Experiência de 30 anos em cobertura política e econômica.