Geladeiras no Brasil têm baixo risco de ataque hacker, dizem especialistas

Países da Europa sofrem com ataques de hackers nas redes de supermecados e distribuidoras
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Geladeiras no Brasil têm baixo risco de ataque hacker, dizem especialistas
Foto: Charles Duarte/ Diário do Comércio

A onda de ataques hackers a redes de supermercados em 11 países da Europa provocou o superaquecimento de equipamentos e a perda de toneladas de alimentos, acendendo um alerta no setor varejista e entre consumidores brasileiros: geladeiras e freezers vendidos no país também podem ser invadidos e descongelados a distância?

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, o risco de um ataque semelhante no Brasil é baixo. As geladeiras domésticas vendidas aqui não possuem recursos de controle remoto de temperatura via internet, o que impede que sejam descongeladas a distância. Além disso, não há relatos de incidentes ou invasões desse tipo em eletrodomésticos no país.

No setor comercial, que inclui supermercados e redes de distribuição, a probabilidade também é considerada baixa por especialistas e entidades do setor. Na Europa, os invasores exploraram vulnerabilidades em equipamentos conectados à internet por meio de endereços IP públicos inseguros e softwares desatualizados.

Com o acesso aos controladores centrais, os criminosos alteraram remotamente os parâmetros de funcionamento dos aparelhos, acionando ciclos de degelo prolongados e elevando as temperaturas internas para até 55°C em lojas da Suécia e da Bélgica.

Rogério Marson Rodrigues, líder em engenharia e desenvolvimento de tecnologias na Eletrofrio Refrigeração e integrante da Abrava (Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento), afirma que não é possível descartar a ocorrência de ataques no Brasil.

Segundo ele, operadores de redes de dados acompanham os episódios europeus e reforçaram a segurança das estruturas brasileiras desde que os primeiros casos foram registrados, em setembro.

Marson diz ter conversado com um operador responsável pelos balcões refrigerados de uma grande rede de supermercados, que não quis identificar. Segundo o relato, a empresa utiliza VPN, firewall, senhas fortes e mantém os softwares atualizados periodicamente. Na avaliação do especialista, essas medidas reduzem as chances de invasão.

A principal fragilidade estaria em redes menores, nas quais o próprio estabelecimento administra a infraestrutura de dados e pode utilizar senhas pouco seguras. Ainda assim, Marson considera pequena a probabilidade de um ataque.

Uma diferença entre os mercados brasileiro e europeu está na idade dos sistemas. Segundo o especialista, redes de supermercados da Europa estão conectadas há décadas e ainda utilizam, em muitos casos, hardwares e softwares antigos, sem atualização. No Brasil, a adoção dessas tecnologias é mais recente, com cerca de dez anos.

Nem todo eletrodoméstico considerado inteligente, porém, permite que suas funções sejam acessadas remotamente. Sem conexão à internet, esses modelos não estão expostos ao mesmo tipo de invasão que poderia atingir equipamentos com funcionalidades controladas pela rede.

Isso não elimina os riscos associados a outros aparelhos conectados vendidos no país. A segurança depende de diferentes componentes, que incluem o próprio eletrodoméstico, os aplicativos, os serviços de conexão e a rede utilizada pelo consumidor.

A Eletros, associação que representa a indústria de eletrodomésticos e eletroeletrônicos de consumo no Brasil, afirma que os fabricantes dispõem de mecanismos de proteção, atualizações de software e canais para receber notificações de vulnerabilidades.

Quando uma falha é identificada, o problema passa por avaliação técnica e são adotadas as correções necessárias.

A Whirlpool, fabricante das geladeiras Brastemp, por exemplo, conta que seus produtos passam por avaliações internas e testes de segurança cibernética fundamentados em padrões internacionais e por monitoramento preventivo para identificar vulnerabilidades.

“Embora os casos registrados na Europa tenham atingido sistemas industriais e comerciais, o episódio serve como um alerta preventivo para o mercado doméstico. A crescente conectividade de eletrodomésticos inteligentes exige atenção constante a padrões de segurança digital para evitar acessos não autorizados e garantir a integridade dos equipamentos e a segurança dos alimentos”, afirma Lucas Magalhães, diretor de marketing de produto da Whirlpool América Latina.

No Brasil, equipamentos que utilizam recursos de comunicação, como wi-fi e Bluetooth, também estão sujeitos às exigências aplicáveis da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

A agência estabeleceu normas específicas de segurança cibernética que contemplam medidas de proteção, atualização de software e tratamento de vulnerabilidades, conforme o enquadramento de cada equipamento.

O Inmetro, por sua vez, estabelece requisitos obrigatórios de segurança e certificação para as categorias de eletrodomésticos abrangidas por sua regulamentação.

Não existe, contudo, um prazo único de atualização de segurança para todos os eletrodomésticos conectados. Segundo a Eletros, os períodos de suporte dependem da categoria do equipamento e das normas aplicáveis.

Para os consumidores, a recomendação é utilizar aplicativos oficiais, manter equipamentos e programas atualizados, seguir as orientações dos fabricantes e adotar senhas fortes.

“A conectividade é uma tendência importante da indústria eletroeletrônica, que vem incorporando novas tecnologias para oferecer mais praticidade, eficiência e funcionalidades aos consumidores. Essa evolução também é acompanhada por investimentos em segurança digital, proteção de dados e aprimoramento contínuo dos produtos. O avanço da internet das coisas, por si só, não significa um crescimento proporcional dos incidentes de segurança”, afirma Jorge Nascimento, presidente executivo da Eletros.

O advogado Flávio Filizzola D’Urso, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), afirma que qualquer equipamento conectado à internet pode apresentar vulnerabilidades, incluindo geladeiras, câmeras, televisores e sistemas de refrigeração.

“A inteligência artificial amplia significativamente esses riscos, pois permite identificar e analisar vulnerabilidades com maior velocidade e eficiência, além de facilitar a automatização e a sofisticação dos ataques. Portanto, o comércio brasileiro não está imune a esse tipo de ameaça.”

Segundo ele, os prejuízos de uma invasão podem ultrapassar a perda de alimentos. A interrupção das atividades comerciais, a indisponibilidade de sistemas, o comprometimento de dados e os danos à reputação também podem provocar consequências financeiras.

“Em determinadas situações, a perda de confiança dos consumidores pode representar um prejuízo ainda maior do que aquele diretamente causado pelo ataque”, diz D’Urso.

“Os empresários precisam ter consciência de que os riscos cibernéticos são reais e crescentes e de que a segurança digital deve ser tratada como um investimento permanente, e não como uma despesa eventual”, diz o advogado.

Conteúdo distribuído por Folhapress

Ana Paula Branco
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Agência Folhapress