Crise na produção de alho pressiona produtores mineiros e setor cobra medidas do governo federal
A concorrência com o alho importado tem aprofundado a crise na produção nacional e colocado em risco a continuidade da atividade no Brasil. Com custos de produção superiores aos preços recebidos pelos agricultores, produtores acumulam prejuízos e enfrentam dificuldades para comercializar a safra. O cenário levou representantes do setor a se reunirem com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Fernando Elias Rosa, em busca de medidas para conter os efeitos das importações, principalmente da China e da Argentina.
Na reunião, a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa) e representantes de estados produtores pediram a revisão do compromisso de preço firmado com a China e a aceleração do processo de investigação de dumping contra o alho argentino. A avaliação dos produtores é que os mecanismos atuais não têm sido suficientes para equilibrar a concorrência e preservar a produção brasileira.
Segundo o presidente da Associação Mineira dos Produtores de Alho (Amipa), Flávio Márcio Ferreira da Silva, o encontro foi produtivo e o ministro demonstrou sensibilidade diante da situação enfrentada pela cadeia produtiva. Trabalhando com custos mais elevados do que os preços de venda e enfrentando dificuldades para comercializar a safra devido ao alto volume de importações, a produção de alho, segundo Silva, corre o risco de ser abandonada pelos produtores.
“Se o governo não rever esse compromisso de preço com a China, será responsável por acabar com a cultura do alho no Brasil”, disse.
O presidente da Anapa, Rafael Corsino, saiu confiante da reunião com o ministro e a equipe econômica. “Saímos motivados com a perspectiva de que algo será feito porque não há condições de o setor do alho continuar perdendo área como nos últimos dois anos, com redução de 5 mil hectares plantados e mais de 90 mil pessoas desempregadas. Mostramos a situação e pedimos uma ação rápida e definitiva para que nós consigamos permanecer na atividade e produzindo alho”.
Custos de produção do alho superam preços recebidos pelos agricultores
Atualmente, o custo de produção do alho, em Minas Gerais, varia de R$ 14 a R$ 15 por quilo, enquanto o produtor recebe entre R$ 10 e R$ 11 pelo produto. A diferença representa um prejuízo de até R$ 5 por quilo comercializado, em um setor que exige investimentos elevados em mão de obra, fertilizantes, energia, combustíveis e tecnologia.
O compromisso de preço estabelecido com a China, por parte do governo federal, inicialmente fixado em R$ 16,90 por quilo, também perdeu efetividade diante das mudanças no mercado. O valor de referência está atualmente em R$ 15,30, enquanto os custos internos avançaram. Para Silva, a entrada de mercadorias de diferentes origens e a redução dos preços internacionais comprometem a capacidade de sustentação da atividade.
O problema também envolve as importações de alho da Argentina. O setor protocolou, em março, um pedido de investigação antidumping junto ao Departamento de Defesa Comercial (Decom), apontando indícios de que o alho argentino é comercializado no Brasil por preços inferiores aos praticados no próprio mercado de origem. O setor também questiona o subfaturamento e a qualidade de parte do produto importado.
“Não estamos pedindo uma proteção indevida, mas condições justas de concorrência. O produtor brasileiro cumpre as exigências ambientais e trabalhistas, tem custos elevados e não consegue competir com um produto que chega ao País em condições diferentes”, disse Silva.

Concorrência desleal e redução da área plantada ameaça empregos e renda no campo
A pressão sobre os preços ocorre em um momento decisivo para a comercialização da safra. Com a colheita encerrada, os agricultores estão concentrados na venda da produção, mas o aumento da entrada de alho chinês tem dificultado o escoamento. A situação tende a se agravar com a chegada de novos volumes argentinos nos próximos meses.
Além da concorrência externa, o ciclo produtivo foi afetado por condições climáticas adversas, com chuvas durante o desenvolvimento das lavouras e no período de colheita. “O impacto econômico ultrapassa as propriedades rurais. No Brasil e em Minas Gerais, muitas famílias dependem diretamente da cultura, com participação expressiva da agricultura familiar. Em Minas Gerais, principal polo produtor nacional, a atividade tem forte concentração na região de São Gotardo, que vive um momento de calamidade”.
A área cultivada no Estado também já apresenta retração, passando de aproximadamente 9,5 mil hectares na safra 2025 para atuais 8,5 mil hectares. Para Silva, a manutenção do cenário de preços abaixo dos custos pode acelerar a redução dos plantios e comprometer empregos e investimentos ao longo da cadeia.
“São milhares de famílias que dependem dessa atividade. Se a produção acabar, essas pessoas vão perder a fonte de renda e terão de buscar alternativas nas cidades. É uma perda econômica e social para o País”, afirmou o presidente da Amipa.
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