Mesmo com acordo Mercosul-UE, exportações do agro mineiro ao bloco europeu têm queda de 4,8%; entenda

Apesar de a quantidade embarcada ter crescido 18,1% entre maio e setembro, a retração nas vendas de café puxou as receitas do Estado para baixo; produto representa 87% da pauta mineira destinada ao bloco europeu
Mesmo com acordo Mercosul-UE, exportações do agro mineiro ao bloco europeu têm queda de 4,8%; entenda
Café apresentou retração de 9,67%, com receita US$ 1,73 bilhão entre maio e setembro deste ano ante US$ 1,92 bilhão no mesmo período de 2025. Foto: Divulgação/ Carmo Coffees

As exportações do agronegócio de Minas Gerais para a União Europeia (UE) movimentaram US$ 1,99 bilhão entre maio e setembro de 2026, nos primeiros cinco meses de aplicação provisória do acordo de parceria entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e o bloco europeu. Apesar do avanço no volume embarcado, o valor obtido pelos produtores e empresas mineiras recuou 4,8% em relação ao mesmo intervalo de 2025, quando as vendas alcançaram US$ 2,09 bilhões. Os dados foram divulgados pelo sistema Agrostat do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Os dados mostram um comportamento diferente entre receita e quantidade exportada. Nos cinco meses analisados, Minas Gerais enviou 619,15 mil toneladas de produtos agropecuários ao mercado europeu, crescimento de 18,1% na comparação anual. Entre maio e setembro do ano passado, foram 523,86 mil toneladas.

O resultado indica que o aumento da quantidade embarcada não foi suficiente para compensar a redução no valor das vendas.

Produto de maior peso na pauta exportadora mineira para o bloco europeu – responsável por 87% dos envios do agronegócio do Estado para a Europa – o café apresentou retração de 9,67%, com receita US$ 1,73 bilhão entre maio e setembro deste ano ante US$ 1,92 bilhão no mesmo período de 2025.

O volume embarcado, por sua vez, teve um leve crescimento de menos de 1%, passando de 274,26 para 276,02 mil toneladas no período analisado.

Preços internacionais pressionam receita das exportações de café

Para o economista e professor dos cursos de Gestão e Negócios do Centro Universitário UniBH, Fernando Sette, a retração da receita das exportações mineiras de café para a União Europeia pode ser explicada, principalmente, pelo comportamento dos preços do produto no mercado internacional.

“Esse comportamento pode estar associado à acomodação das cotações internacionais do café, às expectativas de aumento da oferta mundial e às condições de negociação com os compradores europeus. Assim, embora o Estado tenha conseguido manter e ampliar ligeiramente o volume comercializado, as condições menos favoráveis de comercialização acabaram comprometendo o resultado financeiro das exportações”, analisa.

Do ponto de vista econômico, esse cenário, segundo Sette, demonstra que o desempenho das exportações não depende exclusivamente da quantidade comercializada, mas também dos preços praticados no mercado internacional.

“Como o café é uma commodity, suas cotações são influenciadas por fatores como condições climáticas, produção mundial, estoques e expectativas dos agentes econômicos. Além disso, a concentração das exportações mineiras nesse produto aumenta a exposição do agronegócio estadual às oscilações de preços”, completa.

Fernando Sette reforça, porém, que a queda da receita não pode ser atribuída diretamente ao acordo Mercosul–União Europeia, pois seria necessário avaliar outros fatores comerciais e conjunturais. O resultado, conforme o especialista, reforça a importância de Minas Gerais investir na agregação de valor, na diferenciação dos cafés e na diversificação de mercados, buscando ampliar não apenas o volume exportado, mas também a receita e a rentabilidade da atividade.

Soja e carnes avançam

Na contramão do café, outros segmentos apresentaram crescimento. O complexo soja registrou US$ 70,67 milhões em exportações, ante US$ 24,86 milhões no ano anterior, avanço de aproximadamente 184%. O setor de carnes também ampliou a participação, com US$ 62,24 milhões, crescimento de 66,9% sobre os US$ 37,29 milhões registrados entre maio e setembro de 2025.

Os produtos florestais, que incluem a celulose, somaram US$ 96,91 milhões, alta de 8,3% na comparação anual. Já as exportações de frutas avançaram de US$ 1,48 milhão para US$ 4,5 milhões, aumento de mais de três vezes.

Minas responde por 16,3% da receita nacional

Na comparação com o desempenho nacional, Minas Gerais respondeu por aproximadamente 16,3% do valor exportado pelo agronegócio brasileiro à União Europeia entre maio e setembro de 2026. No País, as vendas externas do setor para o bloco europeu totalizaram US$ 12,21 bilhões.

Em volume, a participação mineira foi menor: 3,5% do total brasileiro. Foram 619,2 mil toneladas embarcados pelo Estado, diante dos 17,74 milhões de toneladas exportadas pelo Brasil.

Acordo prevê redução de tarifas para produtos agrícolas

Assinado em 17 de janeiro de 2026, o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia reúne compromissos de diálogo político, cooperação e comércio e conecta mercados que, juntos, representam aproximadamente 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto superior a US$ 22 trilhões, segundo o governo federal.

A aplicação provisória do Acordo Provisório de Comércio (ITA, na sigla em inglês) começou em 1º de maio de 2026. O instrumento reproduz as disposições comerciais da parceria e estabelece condições para ampliar o intercâmbio entre os dois blocos, incluindo cronogramas de redução tarifária e regras de acesso aos mercados.

A entrada em vigor definitiva do acordo de parceria depende da conclusão dos procedimentos de aprovação e ratificação previstos para os dois blocos. Enquanto isso, a aplicação provisória permite que os compromissos comerciais sejam implementados conforme as condições negociadas.

Pelos termos do acordo, a União Europeia prevê a liberalização total ou parcial de aproximadamente 99% das exportações agrícolas brasileiras ao mercado europeu, por meio da eliminação de tarifas ou de condições preferenciais de acesso, incluindo cotas para determinados produtos.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026


Publicidade Legal

Impresso

Ver outras datas

Digital

Ver outras datas
Rádio Itatiaia

Ouça a rádio de Minas

Acessos importantes

Especial
Aos 94 anos, Diário do Comércio revisita as campanhas que ajudaram a moldar Minas