Setor em alerta: 59% dos bares e restaurantes de Minas operaram sem lucro em setembro, aponta Abrasel

Pesquisa da associação mostra ainda que 69% dos estabelecimentos não registraram aumento no faturamento; cautela com a concorrência e incertezas econômicas contêm o repasse da inflação aos cardápios
Setor em alerta: 59% dos bares e restaurantes de Minas operaram sem lucro em setembro, aponta Abrasel
Foto: Divulgação/ Restaurante Maria das Tranças

O setor de alimentação fora do lar em Minas Gerais enfrenta um momento de aperto financeiro e incertezas. Levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), feito com 127 empresários do setor entre os dias 13 e 20 de outubro, revela que 59% dos estabelecimentos – quase seis em cada 10 – não lucraram no mês de setembro. Do total de entrevistados, 37% operaram em estabilidade e 22% amargaram prejuízo. Apenas 41% das empresas do Estado fecharam o mês com lucro.

O faturamento também evidenciou o desaquecimento do setor. Em setembro, 69% dos empresários não registraram crescimento nas vendas, uma alta de sete pontos percentuais (p.p.) em relação a agosto. Desse total, 39% relataram queda nas receitas, enquanto 30% mantiveram estabilidade. Apenas 30% dos estabelecimentos conseguiram ampliar as vendas no período. O 1% restante ainda não estava em funcionamento durante o levantamento.

No que tange aos preços praticados nos cardápios, a contenção prevalece: 94% dos estabelecimentos não reajustaram seus valores acima da inflação acumulada em 12 meses. A pesquisa aponta que 59% reajustaram os preços conforme ou abaixo da inflação, 35% mantiveram as tabelas congeladas sem qualquer reajuste e somente 6% conseguiram aplicar aumentos acima do índice inflacionário.

Segundo dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), nos últimos 12 meses, até setembro deste ano, é de 4,58%.

Conjuntura macroeconômica e efeito calendário contribuem para o resultado

De acordo com o líder de Conteúdo e Inteligência da Abrasel, José Eduardo Camargo, a desacelerada de setembro em comparação a agosto pode ser explicada por fatores sazonais e estruturais. “Em agosto houve o Dia dos Pais e o mês teve um dia a mais”, pontua.

Além disso, o executivo destaca que o setor enfrenta o peso combinado do endividamento e da pressão de custos. Sobre a expressiva fatia de empresários que optaram por congelar ou segurar os preços praticados, ele sinaliza que a prática pode estar atrelada a uma estratégia comercial: “Isso está relacionado à cautela em não perder clientes”, pontua.

Escala 5×2 deve elevar preços dos cardápios, diz empresário

Para o empresário Ricardo Rodrigues, proprietário do restaurante Maria das Tranças, no bairro São Francisco, na região da Pampulha, a retração observada em setembro reflete um ambiente de forte incerteza política e regulatória. Ele também lembra o efeito negativo da dinâmica dos feriados no calendário de setembro.

“O feriado de 7 de setembro caiu em uma segunda-feira. Para os estabelecimentos focados no público executivo e self-service, por exemplo, um feriado prolongado destrói o faturamento da semana, pois o cliente de comércio deixa de circular e parte da população de Belo Horizonte sai da cidade. Com isso o movimento de sábado e domingo cai e não compensa a segunda-feira”, analisa.

Em relação à absorção dos custos por 94% do setor, o empresário alerta para os riscos dessa prática a longo prazo e prevê reajustes nos próximos levantamentos. “É uma faca de dois gumes. Muita gente está absorvendo custo com medo da concorrência, mas a margem do segmento não suporta isso por muito tempo. Com os aumentos recentes do combustível – que encarecem do hortifrúti às prateleiras de cereais, não há como o empresário não fazer o repasse”, afirma.

Por fim, Rodrigues acredita que a mudança da escala de trabalho do atual formato 6×1 (seis dias de trabalho para um dia de folga) para o formato 5×2 (cinco dias de trabalho para dois dias de folga), sem redução salarial, confirmada para iniciar em 16 de dezembro, o setor terá uma elevação expressiva de 15% a 20% dos custos, o que aumentará a necessidade de repasses. “Acredito que as próximas pesquisas mostrarão um percentual bem maior de empresários reajustando os preços no cardápio”, conclui.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026


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