Consórcios imobiliários crescem até 35,2% em Minas Gerais no primeiro semestre

Juros elevados, aumento da renda real e baixo desemprego ajudam a explicar avanço da modalidade, que chegou a 291,3 mil participantes ativos no Estado no primeiro semestre de 2026

O mercado de consórcios imobiliários de Minas Gerais ganhou força no primeiro semestre de 2026, com avanço de até 35,2% nas vendas de cotas em relação ao mesmo período do ano passado. O número de participantes ativos também cresceu 29,2%, enquanto as contemplações avançaram em ritmo mais moderado (14,6%). Os dados foram enviados ao Diário do Comércio pela Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac).

Em números absolutos, o levantamento mostra que o volume de participantes ativos em consórcios de imóveis no Estado passou de 225,54 mil no primeiro semestre de 2025 para 291,34 mil nos seis primeiros meses de 2026. As vendas de cotas subiram de 55,10 mil para 74,52 mil. Já as contemplações aumentaram de 6,86 mil para 7,86 mil.

Para o economista da Abac, Luiz Antonio Barbagallo, o desempenho reflete não apenas o custo elevado do crédito imobiliário, mas também o aumento da renda real, a busca por alternativas de planejamento financeiro e formação de patrimônio, além dos baixos índices de desemprego.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação em Minas Gerais fechou o segundo trimestre de 2026 em 3,8%, apresentando queda de 1,2 ponto percentual (p.p.) em relação ao trimestre anterior, período em que foi estimada em 5%. O resultado se iguala ao menor índice da série histórica, iniciada em 2012, registrado anteriormente no 4º trimestre de 2025.

“Embora os juros elevados tornem o consórcio mais atrativo em comparação com determinadas modalidades de financiamento, essa não é a única explicação para o crescimento. O comportamento do setor depende de um conjunto de fatores econômicos e do perfil de quem busca adquirir um imóvel”, afirma o economista.

Consórcio dispensa entrada, mas exige planejamento financeiro

Uma das diferenças entre o consórcio e o financiamento imobiliário está na necessidade de entrada. De acordo com Barbagallo, financiamentos podem exigir pagamentos iniciais de 20% do valor do imóvel ou mais, dependendo do sistema utilizado e das condições da operação. No consórcio, não há essa exigência, embora o participante precise pagar as parcelas previstas no plano.

O economista ressalta ainda que o consórcio não depende exclusivamente do patamar dos juros para manter a procura. Segundo ele, o histórico de vendas mostra que a modalidade também apresentou um bom desempenho em períodos de taxas mais baixas. “O consórcio não está sujeito a essas flutuações de taxa de juros. Existe uma influência, mas ela não é tão forte como as pessoas imaginam”, diz.

O especialista explica que o custo do consórcio está relacionado, principalmente, à taxa de administração, distribuída ao longo do plano, e não à incidência de juros compostos como ocorre em operações de crédito tradicionais. A comparação, porém, depende das condições contratuais e dos custos de cada modalidade.

Além do custo, o consórcio pode funcionar como instrumento de disciplina financeira. Para o economista, a modalidade atende consumidores que desejam formar uma reserva com objetivo definido, mesmo quando não têm condições de comprar um imóvel imediatamente.

“Muitas vezes você não tem disciplina para poupar. Então, você acaba entrando num consórcio que é uma poupança com um objetivo definido”, afirma.

Crise econômica pode frear adesão aos consórcios

Barbagallo pondera que a relação entre juros e vendas não é automática. Em períodos de crise econômica, taxas elevadas podem reduzir a renda disponível, aumentar o comprometimento do orçamento com dívidas e dificultar o pagamento das parcelas.

O economista cita o período de 2013 a 2015 como exemplo de um cenário em que, segundo ele, os juros elevados foram acompanhados por uma queda nas vendas de consórcios, em meio a uma crise econômica. “Quando o consumidor enfrenta dificuldades financeiras, pode deixar de investir na modalidade para priorizar outras obrigações”, destaca.

O perfil de quem adere ao consórcio também é diverso, segundo Luiz Antonio Barbagallo. Há consumidores que planejam a compra do primeiro imóvel para o futuro, enquanto outros buscam adquirir terrenos ou unidades para locação. Nesse último caso, o consórcio pode fazer parte de uma estratégia de formação de patrimônio, desde que o investidor considere os custos, os riscos e o prazo para a contemplação.

Incertezas econômicas moderam projeção para consórcios de imóveis

Para o mercado nacional de consórcios imobiliários, a Abac trabalha com uma projeção conservadora de crescimento de 16% nas vendas em 2027, na comparação com 2026. Segundo Barbagallo, a estimativa considera as incertezas econômicas previstas para o próximo ano, incluindo ajustes fiscais e a possibilidade de juros mais elevados.

A projeção para o segmento de imóveis é inferior ao crescimento de 37% observado nos primeiros nove meses deste ano.“Essa é a nossa estimativa conservadora, evidentemente que a gente quer que cresça mais, mas estamos com os pés no chão”, afirma o economista.

Barbagallo não apresentou uma projeção específica para Minas Gerais em 2027. Por isso, a estimativa nacional, segundo ele, não deve ser interpretada como uma previsão direta para o mercado mineiro.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026


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