Selic cai, mas famílias e empresas ainda devem esperar por crédito mais barato

Custo do risco de inadimplência também é embutido no financiamento pelos bancos
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Selic cai, mas famílias e empresas ainda devem esperar por crédito mais barato
Foto: Reprodução/ Adobe Stock

O Banco Central iniciou o ciclo de cortes na Selic num momento em que a economia já perde fôlego, e é justamente essa perda de fôlego que deve impedir o alívio de chegar rápido ao crédito. Em julho, o índice de atividade do BC (IBC-Br) recuou 0,2%, o Monitor do PIB da Fundação Getulio Vargas (FGV) caiu 0,4% e o varejo restrito encolheu 0,8%, puxado pelos bens duráveis. Na indústria, a confiança medida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) desceu a 44,9 pontos em setembro, o 21º mês seguido abaixo da linha de 50 pontos que separa otimismo de pessimismo.

O quadro cria um descompasso. A redução de 0,25 ponto percentual, que levou a Selic a 13,75% ao ano, barateia a captação dos bancos, mas esse custo é apenas uma parte da taxa cobrada do tomador. A outra parte embute o risco de inadimplência, que cresce quando a atividade enfraquece e o emprego ameaça piorar. Esse componente já vinha pesando antes do início dos cortes. Segundo o Banco Central, o spread bancário encerrou 2025 em 21,4 pontos percentuais, alta de 3,9 pontos no ano, e a taxa média das concessões chegou a 32,4% ao ano. Com juro real de 8,58% em um ano, bem acima dos 5% que o BC considera neutros, a política monetária continua restritiva, e o efeito dos cortes tende a ser absorvido pelo spread antes de chegar a famílias e empresas.

É essa a leitura da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que reúne instituições de pequeno e médio porte. A entidade revisou sua projeção e passou a esperar mais um corte de 0,25 ponto em novembro, com a Selic encerrando 2026 em 13,50%, em linha com o Boletim Focus e com o mercado de opções, que atribuía 57% de chance ao movimento. Em entrevista ao Diário do Comércio, o diretor de Economia, Regulação e Produtos da ABBC, Everton Gonçalves, afirmou que a mudança foi feita “mesmo com as incertezas tanto no cenário doméstico como no internacional e a elevada volatilidade”. O alívio no custo do crédito, porém, deve ser gradual.

Inadimplência e bancos cautelosos seguram o repasse

Everton Gonçalves lembra que “há outros fatores além do custo de captação que compõem o spread bancário, principalmente a inadimplência que, em um momento de desaceleração da economia, pressiona as taxas”. Por isso, o diretor evita estimar em quanto tempo um novo corte apareceria nos financiamentos. Segundo ele, “as diferentes linhas de empréstimos não respondem de forma homogênea à diminuição do custo de captação”, e o repasse depende da qualidade da carteira de cada banco e do apetite ao risco das instituições.

Everton Gonçalves
Alívio no custo do crédito deverá ser gradual, de acordo com Everton Gonçalves | Foto: Divulgação ABBC

A ABBC projeta expansão do crédito de 8,9% em 2026 e de 7,5% em 2027, abaixo dos 10,3% registrados em 2025, segundo o Banco Central. A desaceleração vem dos dois lados do balcão. “O atual cenário vem produzindo uma deterioração importante na oferta do crédito, com as instituições mantendo uma postura mais cautelosa e menos propícia a tomar risco, ponderando a trajetória da inadimplência e as condições gerais da economia doméstica”, diz o diretor. A cautela tem base nos números. Em 2025, a inadimplência no crédito às famílias subiu 1,5 ponto percentual e chegou a 5%. Na demanda, pesam o alto comprometimento da renda das famílias, que atingiu a máxima histórica de 29,3% no fim do ano passado, a migração das grandes empresas para o mercado de capitais e a piora no fluxo de caixa das menores.

Entre as empresas que recorrem aos bancos, o dinheiro vai para o caixa, não para a expansão. Em julho, as concessões de capital de giro acumuladas em 12 meses cresciam 50% ao ano, com alta de 90,7% nas operações de prazo inferior a um ano, enquanto os financiamentos a investimento com recursos do BNDES avançavam 33%. A taxa de investimento da economia recuou para 18,7%, segundo a FGV. “A combinação de juros elevados, menor confiança e atividade mais fraca reduz o incentivo das empresas a ampliar investimentos”, resume Everton Gonçalves.

A pressão é maior no segmento que a ABBC representa. “O custo de captação permanece elevado, pressionando as margens das instituições de pequeno e médio porte e exigindo maior seletividade na concessão”, afirma. O resultado é menos espaço para baratear o crédito justamente para as pequenas e médias empresas, vistas pelos bancos como tomadoras de maior risco.

Em BH, dívida no cartão comprime compra de duráveis

O efeito dos juros altos aparece primeiro nas compras que podem esperar. Em julho, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas de móveis e eletrodomésticos caíram 4,9% e as de vestuário e calçados recuaram 2,7%. No acumulado em 12 meses, o crescimento de móveis e eletrodomésticos desacelerou de 4,6% em dezembro para 3,9% em julho. “O elevado nível de comprometimento da renda impacta severamente gastos adiáveis, como móveis e eletrodomésticos, em relação à demanda por bens de primeira necessidade, como alimentação e moradia”, explica Everton Gonçalves.

Os números de Belo Horizonte mostram, pelo lado das famílias, o mesmo movimento que os bancos descrevem pelo lado da oferta. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), aplicada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) e analisada pela Fecomércio MG, 86,4% dos consumidores da Capital estavam endividados em agosto, 1,8 ponto percentual a menos que em julho. As contas em atraso recuaram 2 pontos, para 63,3%. Na direção contrária, a parcela que se declara sem condições de pagar as dívidas subiu para 32,1%, acima dos 31,2% de julho, até então o maior percentual da série histórica iniciada em 2014.

O perfil dessas dívidas ajuda a entender a cautela das instituições financeiras. O cartão de crédito aparece em 96,2% dos casos. Os débitos consomem, em média, 34,4% da renda mensal, e 40,7% das famílias endividadas destinam mais da metade do orçamento a eles. Em 75,7% dos casos, os compromissos se estendem por 90 dias ou mais, com tempo médio de comprometimento da renda de 8,1 meses. Entre as famílias com contas pendentes, 54,4% estão em atraso há mais de 90 dias. Na faixa de renda de até dez salários mínimos, 65,2% têm algum compromisso atrasado, contra 51,7% entre as de renda mais alta.

Em análise divulgada pela Fecomércio MG, a economista Gabriela Martins avalia que a queda no número de endividados não encerra o problema. “O consumidor pode estar reduzindo novos compromissos, mas isso não significa necessariamente que as dívidas já contratadas estejam sendo solucionadas.” Para ela, a duração dos atrasos é o dado mais revelador. “Quando mais da metade das famílias inadimplentes está há mais de 90 dias sem conseguir regularizar suas contas, estamos falando de uma dificuldade que ultrapassa um desequilíbrio pontual do orçamento e pode comprometer o consumo por mais tempo.”

É a mesma equação apontada pela ABBC. Com a renda presa a parcelas antigas, as famílias pedem menos crédito, e os bancos, diante de atrasos longos, emprestam com mais seletividade. No curto prazo, o corte na Selic mexe pouco nesse quadro.

Petróleo e contas públicas definem o ritmo em 2027

A continuidade do ciclo de cortes depende de fatores que fogem ao controle do BC. O barril do Brent fechou a semana passada em US$ 103,87, o Federal Reserve elevou os juros americanos pela primeira vez desde julho de 2023, para o intervalo de 3,75% a 4% ao ano, e o título de dez anos do Tesouro dos Estados Unidos voltou a render acima de 5%. No front interno, o El Niño pressiona os preços agropecuários.

Everton Gonçalves considera esses riscos interligados, mas aponta o petróleo como a maior preocupação. A alta da commodity alimenta a inflação global e empurra para cima os juros internacionais, o que estreita o diferencial em relação às taxas brasileiras, afeta as operações de carry trade e o fluxo de dólares para o País. Um real mais fraco pressionaria os preços internos e poderia exigir uma política monetária mais dura.

O quadro fiscal limita o alcance dos cortes no crédito de prazo mais longo. A ABBC projeta a dívida bruta subindo de 83,1% para 87,1% do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2026 e 2027, enquanto a taxa prefixada de dez anos segue perto de 14,2%. “Uma melhor disciplina fiscal é fundamental para sinalizar pelo menos uma estabilização na trajetória da dívida que viabilizaria a redução na taxa de juros básica, o que seria benéfico para o mercado de crédito”, afirma o diretor.

Para 2027, a associação prevê PIB de 1,5%, Selic em 12% e desemprego subindo de 5,4% para 5,9%. “O cenário aponta para crescimento moderado do crédito e pressão sobre a inadimplência diante da atividade mais fraca e do aumento do desemprego”, diz Everton Gonçalves. Um ano melhor, segundo ele, dependeria de inflação mais baixa, juros menores e recuperação da atividade.

Sobre o autor

Luciana Montes

Editora Executiva do Diário do Comércio desde 2019. Atuou como repórter e editora de Economia e Negócios entre 2004 e 2018. Graduada em Comunicação Social pela Fafi-BH, com pós-graduação em Tecnologias da Informação e Marketing em Comunicação. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/luciana-montes

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