Economia

Mercado de energia elétrica aprova leilão de baterias de armazenamento

Proposta é bem vista pelo segmento, mas espera que o certame seja focado em partes técnicas e eficientes para o sistema
Mercado de energia elétrica aprova leilão de baterias de armazenamento
Segundo especialista, Brasil tem grande vocação para desenvolver essa indústria, já que lítio - base atual de baterias - é encontrado em Minas e também no Brasil | Foto: Reprodução Adobe Stock

O anúncio feito pelo Ministério de Minas e Energia (MME), na quarta-feira (3), das diretrizes para os primeiros leilões de baterias para armazenamento de energia do país, marcados para os dias 2 e 4 de dezembro, agradou ao setor elétrico de forma geral.

A proposta vai poder mitigar um problema complexo: redistribuir de forma mais equilibrada o volume de energia produzida no país, principalmente de fontes alternativas, como eólica e fotovoltaica.

As duas matrizes energéticas têm volume grande de produção, mas com picos durante o dia, período em que a demanda energética é menor. Assim, o excedente gerado se perde, acarretando até sobrecarga nas hidrelétricas e termelétricas, que são acionadas para atender os momentos de alto consumo, que se iniciam no fim da tarde e início da noite.

Ter usinas de armazenamento com baterias pode ajudar a solucionar parte do problema, remodelando o setor elétrico, que terá abundância de oferta, podendo diluir e reduzir custos e, por consequência, os preços finais para empresas e consumidores.

Assim pensa o coordenador da gerência de energia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Sérgio Pataca. Entretanto, ele aponta que o setor elétrico deve ficar atento ao formato dos leilões e a como eles serão conduzidos.

“Com a diversificação da matriz energética brasileira nos últimos anos, o investimento em baterias se tornou necessário também para conter a intermitência dessas fontes. A lógica é simples: absorver energia no pico de geração solar, quando o consumo é baixo, e armazená-la para uso posterior. Hoje, esse papel é cumprido pelos reservatórios hidrelétricos, mas ampliar essa capacidade com baterias é um passo importante”, comenta Sérgio.

“A principal dúvida que permanece é o custo. A indústria busca duas coisas na energia: preço baixo e qualidade, entendida como estabilidade no fornecimento. As baterias tendem a melhorar a qualidade, reduzindo a intermitência das fontes renováveis. Mas o custo do armazenamento ainda é uma incógnita que só será respondida nos leilões de dezembro”, completa.

O especialista em energia e CEO da ClickLivre Energia, Felipe Carvalho, afirma que o mercado como um todo anseia por esta medida e espera um ciclo positivo para o segmento.

“A medida é positiva porque aumenta a flexibilidade do sistema elétrico. O armazenamento é uma demanda antiga do setor. No longo prazo, tende a aumentar a eficiência do sistema, reduzir perdas de energia renovável e diminuir a necessidade de fontes mais caras em horários críticos. Isso pode gerar benefícios para a cadeia como um todo, incluindo produtores, consumidores e o sistema elétrico em geral”, disse.

Benefício extra

A expectativa é que os leilões sejam amplamente competitivos, tecnicamente justificados e com o menor custo possível para o consumidor. Para Sérgio Pataca, da Fiemg, o cenário ideal é aquele em que o Brasil desenvolve uma indústria nacional de baterias, agregando valor ao lítio extraído aqui, mineral do qual o país possui uma das maiores reservas do mundo.

Esse contexto positivo pode gerar empregos e posicionar o país como potencial exportador num mercado global em expansão, sem onerar a conta de energia de indústrias e consumidores finais. Mas é necessário que haja um ambiente de segurança para que investidores criem este novo mercado.

“Um ponto destacado como positivo nos leilões previstos para 2 e 4 de dezembro é a preferência pelo conteúdo nacional. O setor de baterias ainda engatinha no Brasil, enquanto no mundo já existe concorrência robusta. Abrir o leilão para competidores internacionais sem proteção à indústria local poderia inviabilizar o desenvolvimento do setor no país, repetindo o erro cometido com a indústria solar fotovoltaica”, explica Sérgio Pataca, da Fiemg.

“Com as baterias, há uma oportunidade de corrigir esse caminho. O lítio, base da tecnologia atual de baterias, é encontrado em Minas Gerais e no Brasil. O país tem, portanto, vocação para desenvolver essa indústria, desde que os primeiros passos sejam dados de forma estruturada”, afirma.

Subsídios

Outro ponto relevante a ser levado em conta para que o ambiente de usinas com baterias possa nascer forte é evitar subsídios. Mesmo que haja boas intenções de incentivo para a instalação de usinas e indústrias, o custo total pode ser um impedimento, já que subsídios criam impactos diretos na cadeia de composição dos custos finais da produção e distribuição de energia.

“O risco é que subsídios mal calibrados encareçam a conta de energia a ponto de inviabilizar a própria indústria que se pretende desenvolver. Uma indústria de baterias, por exemplo, consome muita energia. Se a tarifa subir por conta de subsídios, ela pode não conseguir se instalar no Brasil, criando um ciclo contraproducente”, finaliza o coordenador de energia da Fiemg, Sérgio Pataca.

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