Preço mais alto da energia desafia atratividade do mercado livre no Brasil

As comercializadoras de energia ainda apostam em crescimento do mercado, que passará da casa dos milhares para milhões de consumidores nos próximos anos
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Preço mais alto da energia desafia atratividade do mercado livre no Brasil
Foto: Reuters/Amit Dave

Preços mais altos de energia elétrica no Brasil diminuíram a economia potencial para consumidores que queiram aderir ao mercado livre, um cenário que tende a permanecer e pode pesar sobre a atratividade do segmento no processo de liberalização a todos os consumidores do país, a partir do fim de 2027 e 2028, de acordo com empresas do ramo.

As comercializadoras de energia ainda apostam em crescimento do mercado, que passará da casa dos milhares para milhões de consumidores nos próximos anos, mas apontam que o fator “preço” pode reduzir a velocidade das adesões, a exemplo do que já acontece com os clientes aptos ao mercado livre.

Os descontos ofertados para entrada no mercado livre de energia, que há três anos podiam chegar a 40% frente aos preços do mercado regulado, atendidos pelas distribuidoras, hoje estão em menos de 10%, apontam executivos do setor.

“Lá em 2023 a gente conseguia fazer contratos de R$100 a R$150 o megawatt-hora. Hoje, para 2027, ele gira em torno da faixa de R$300”, disse Maikon Del Ré Perin, especialista em risco e inteligência de mercado da Ludfor, que também atua com comercialização varejista.

A disparada dos preços de energia veio desde 2025, sobretudo após ajustes nos modelos de precificação que tornaram o sistema brasileiro mais avesso a risco. Em paralelo, o fim de um desconto a energias renováveis no uso das redes também aumentou os custos dessas fontes, impactando os valores cobrados em novos contratos entre comercializadoras e consumidores.

O “varejo” elétrico, composto por pequenas e médias empresas, cresceu aceleradamente depois da eliminação, em 2024, de barreiras para adesão ao mercado livre. Mas boa parte do mercado potencial já se esgotou, fazendo com que as migrações recuassem 34% de janeiro a julho deste ano ante igual período de 2025, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Ainda segundo Perin, os descontos possíveis para 2027 frente ao mercado regulado estão entre 5% e 10%, contra 40% há alguns anos. Ele pondera, no entanto, que esse cenário pode mudar para melhor, principalmente se as chuvas forem favoráveis à geração hidrelétrica — a hidrologia é um fator relevante para os preços de energia no Brasil.

Comercializadoras com presença relevante no segmento, como Matrix e Echoenergia, estão procurando focar na manutenção de sua carteira de clientes neste ano, em vez de expandi-la, enquanto se preparam para as próximas ondas de abertura de mercado.

“O custo de aquisição do cliente é relativamente alto e agora o desconto que você consegue dar para esse cliente é pequeno. Então, diminuiu a atividade e diminuiu também a intensidade com a qual a gente atende a esse mercado”, disse à Reuters Liu Aquino, CEO da geradora renovável e comercializadora Echoenergia, do grupo Equatorial.

A Matrix, que detém a terceira maior carteira entre as comercializadoras varejistas do país, “estabilizou suas operações”, diante do cenário desafiador de preços e de uma inadimplência mais elevada, afirmou Alexandre Gomes, vice-presidente comercial.

Mas a companhia mantém a comercialização varejista como uma prioridade, enquanto se reestrutura e se desfaz de outros negócios, como ativos de geração distribuída solar, disse ele.

“De fato, é a manutenção (da carteira), é levando uma experiência cada vez melhor para esse nosso cliente… que a gente entende que consegue replicar e ganhar escala, obviamente, dependendo das condições econômicas de abertura de mercado.”

Para Gomes, o preço não será o único recurso das comercializadoras para ganhar novos clientes. A Matrix, por exemplo, tem ofertado soluções agregadas, como baterias, a clientes como supermercados, que conseguem melhorar suas operações a partir da instalação desses equipamentos, apontou.

O segmento varejista do setor elétrico abrange hoje cerca de 50 mil unidades consumidoras, respondendo por um volume de energia ainda pequeno diante de todo o mercado livre, que abriga também os grandes consumidores industriais.

Mas esse quadro deve mudar a partir de novembro de 2027, com a autorização dada pelo governo brasileiro para migração de mais um grupo de estabelecimentos ligados em baixa tensão, como hospitais, escolas e outros, somando cerca de 6 milhões de consumidores.

Já a partir de novembro de 2028, todos os 90 milhões de consumidores do país, incluindo residências, poderão escolher livremente seu fornecedor de energia. A mudança para o mercado livre não é obrigatória, de modo que o consumidor poderá continuar comprando energia de sua distribuidora local.

Agentes do setor elétrico têm evitado fazer projeções sobre a velocidade das migrações a partir de 2027, apontando um elevado grau de incerteza.

Conteúdo distribuído por Reuters

Leticia Fucuchima
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Leticia Fucuchima

Agência Reuters

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