Como a eleição de Lula afeta as ações de empresas mineiras na Bolsa
O mercado brasileiro de ações ainda está se readaptando à realidade política do País após a reeleição do presidente Lula. O “susto” na bolsa foi grande, pois, no primeiro pregão depois do segundo turno, na segunda-feira (26), houve queda de quase 14% do Ibovespa, o que acionou o circuit breaker pela primeira vez desde 2020.
Outro espasmo forte do mercado foi com o dólar, que subiu mais de 8%, chegando a R$ 5,40. Especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio afirmaram que o efeito volátil do mercado deve perdurar por algum tempo ainda, já que a aposta na vitória de Flávio Bolsonaro, que não aconteceu, gerou um redirecionamento de rota por parte dos operadores do mercado nacional.
Dentro desse contexto, a dúvida agora é como os bancos tradicionais e de investimentos vão seguir com suas indicações de negócios para seus clientes (compra e venda) na Bolsa de Valores Brasileira. O movimento inicial visto nos bancos, corretoras e gestoras é de uma “corrida” para refazer suas carteiras recomendadas.
Para o sócio da InvestSmart XP e membro do Instituto Formador de Líderes de Belo Horizonte (IFL BH), Bruno Lage, a pergunta que interessa ao investidor neste momento é: quanto dessa queda do mercado é uma mudança real de perspectiva e quanto é barulho?
“Minha leitura é que o preço de uma ação, num momento como esse, carrega três coisas ao mesmo tempo: um movimento técnico, uma reação emocional e uma revisão de fundamentos. Vale olhar uma de cada vez”, comenta.
“A técnica foi o chamado trade eleitoral: comprar bolsa, vender dólar, apostar em juros menores. Boa parte dessa aposta foi feita com alavancagem, via mercado futuro, operações a termo e posições com margem. Quando o resultado contrariou a expectativa, essas posições passaram a dar prejuízo todas de uma vez. O emocional foi a quebra de expectativa pelo resultado eleitoral, que gerou a revisão de fundamentos, pois se esperava um novo governo para mudança de rota na política econômica”, disse Bruno Lage.
Caixa das empresas
Com o “tremor” que mexeu com a Bolsa e o dólar no pós-eleição, os bancos tiveram de revisar como ficaram suas carteiras, pois as empresas teriam de arcar com seus compromissos financeiros na bolsa após as quedas nos preços das ações. E o caixa em si não foi afetado de imediato, mas a posição de alguns papéis negociados teve alterações.
O analista de investimentos e finanças do Grupo Mide, Gabriel Castro, explica que “nenhuma empresa brasileira teve o seu fluxo de caixa alterado entre sexta e segunda. O que mudou foi a taxa pela qual esse fluxo de caixa é descontado”.
“E quando a taxa de desconto sobe 2,6 pontos de uma vez, o estrago é mecânico e é proporcional ao prazo do fluxo, porque destrói muito mais valor em empresa de crescimento, varejo, saúde, construção e concessão longa do que em empresa de caixa curto e receita em dólar”, completa Castro.
Mudanças nas recomendações
Os bancos e gestores de ativos ainda não mudaram oficialmente seus preços-alvo dos papéis. Isso não quer dizer que nada mudou no cenário, pois, quando há revisão de um preço-alvo, a tendência é refazer o modelo da empresa. Logo, as instituições costumam esperar os primeiros sinais do novo mandato, como a equipe econômica e a proposta de orçamento, antes de mexer nos números.
Todavia, quem fez mudanças nos seus preços-alvo para indicar aos seus clientes mexeu nas recomendações, indicando os preços para baixo.
Instituições como o Bradesco BBI cortaram o preço-alvo da Petrobras para o fim de 2027 de R$ 62 para R$ 55, mantendo a recomendação de compra. É um exemplo didático de que a empresa continua boa, mas passa a valer menos num cenário de custo de capital mais alto e maior risco de interferência. E essa interferência está diretamente ligada ao governo, maior acionista da companhia.
Outro sinal de cautela nas recomendações de compra veio do Morgan Stanley. No dia do tombo na bolsa, o banco rebaixou o Brasil de overweight para equal-weight em sua carteira de ações da América Latina, ou seja, de exposição acima da média para neutra. A justificativa foi a alta probabilidade de continuidade da política econômica, o aumento dos riscos fiscais e a perspectiva de uma combinação difícil de câmbio depreciado, juros elevados e economia desacelerando.
“A cautela impera no mercado de tal forma que a recomendação mais clara da semana é o Itaú. O Citi cortou o preço-alvo de praticamente todo o setor e manteve o do Itaú em R$ 51, intacto, com recomendação de compra e como preferência do setor. Quando uma casa corta todo mundo e não mexe em um, está dizendo que a visão sobre aquela empresa não mudou nem um pouco”, explica o analista de investimentos e finanças do Grupo Mide, Gabriel Castro.
Papéis mineiros
Entre as maiores empresas de Minas Gerais listadas na Bolsa de Valores, casos de Gerdau, Copasa, Usiminas e Cemig, há um consenso entre Bruno Lage, da InvestSmart XP, e Gabriel Castro, do Grupo Mide: Gerdau e Copasa estão menos vulneráveis, enquanto Usiminas e Cemig podem gerar preocupações.
E as explicações para a atenção a ambas estão ligadas a intervenções do governo e a uma dependência do mercado interno.
“Cleitinho Azevedo foi eleito governador de Minas e descartou privatizar a Cemig, com o argumento de que empresa estatal que dá lucro deve continuar pública. Ele chegou a sugerir usar o lucro da companhia para subsidiar a conta de luz dos mineiros, que é exatamente o risco que o analista precifica numa estatal: a empresa deixar de ser gerida pelo retorno ao acionista”, comenta o analista de investimentos e finanças do Grupo Mide, Gabriel Castro.
“Entre as duas siderúrgicas, a Usiminas é a mais exposta ao mercado interno. O dólar alto ajuda na competição com o aço importado, mas encarece insumos, já que parte relevante dos custos da empresa acompanha o dólar, e não resolve a pressão sobre margens e demanda. Juros altos por mais tempo esfriam construção, indústria e automóveis, justamente os clientes da Usiminas. Aqui o risco de deterioração operacional é concreto, e a ação depende de uma recuperação consistente do mercado de aço”, disse o sócio da InvestSmart XP, Bruno Lage.
Copasa e Gerdau geram mais segurança para os investidores pela sua estabilidade ante o cenário instável. No caso da ex-estatal, o seu processo de privatização foi concluído e não fica à mercê de ingerências de governos. Já a Gerdau tem, na operação na América do Norte, uma força que sustenta os resultados e reduz a dependência do Brasil. Segundo o BTG Pactual, cerca de 75% do Ebitda da companhia é dolarizado e, portanto, mais alheio a turbulências.
Publicidade Legal
Impresso
Ver outras datasDigital
- ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA - PRIMEIRA CONVOCAÇÃO BANCO SEMEAR S.A.
- EDITAL DE CONVOCAÇÃO - ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA A SER REALIZADA EM 10 DE NOVEMBRO DE 2026 PARQUE EMPRESARIAL BETIM I S.A
- BALANÇOS PATRIMONIAIS - EM 31 DE DEZEMBRO DE 2025 E 2024 PRODAP PARTICIPACOES S/A
- EDITAL DE CONVOCAÇÃO PETISCO & MARA S/A
Ouça a rádio de Minas