Roupa suja já não se lava em casa: mercado de lavanderias self-service cresce e registra lucro de até 60%
Foi-se o tempo em que roupa suja se lavava apenas em casa. Com a expansão das lavanderias self-service no Brasil, modelo em que o próprio cliente utiliza as máquinas para lavar e secar suas peças em estabelecimentos especializados, um novo hábito de consumo vem ganhando espaço. O movimento impulsiona o mercado de lavanderias, que aposta na praticidade, na economia de tempo e na redução de custos para atrair consumidores.
Segundo o diretor-técnico da Associação Brasileira de Lavanderias (Abralav), Mário Lodi, o boom do setor ganhou força nos últimos cinco anos. “O Brasil fechou 2021 com cerca de 100 lojas. Atualmente, temos em torno de 3 mil unidades espalhadas por todas as regiões do País, um crescimento de 2.900%”, afirma. Desse total, aproximadamente 2 mil estabelecimentos operam no sistema de franquias. “O mercado conta com mais de 30 marcas franqueadoras”, acrescenta.
Lodi explica que uma das principais vantagens de investir no segmento está relacionada aos custos operacionais, considerados enxutos, especialmente com mão de obra. “Na grande maioria dos casos, não é necessário contratar funcionários. O próprio franqueado ou proprietário da lavanderia consegue administrar a operação sem depender da colaboração de terceiros”, afirma.
Ainda segundo o representante da Abralav, a margem de lucro líquido de uma lavanderia com pelo menos três máquinas pode chegar a 30% do faturamento bruto. “Existem unidades, hoje, com até dez máquinas, muitas delas com receita bruta mensal entre R$ 15 mil e R$ 50 mil”, revela.
Rede de lavanderias cresce 350% em Belo Horizonte em três anos
O aquecimento do mercado tem atraído investidores, como o empresário Paulo Godinho, que deixou o funcionalismo público em 2023 para se dedicar à administração de duas unidades da franquia Seld Lavanderia: uma no Barro Preto e outra no bairro Santo Antônio, ambas na região Centro-Sul de Belo Horizonte.
Com preços a partir de R$ 13,90 por ciclo para lavar ou secar um cesto com aproximadamente 25 peças, as unidades funcionam diariamente, a partir das 6h. Ao chegar ao estabelecimento, o cliente realiza todo o processo de forma autônoma, desde a escolha do programa de lavagem e secagem até o pagamento do serviço.
“Em 75 minutos, o cliente lava e seca a roupa, que já sai passada da secadora”, conta Godinho, que, além de franqueado, também atua como consultor da rede.
Segundo ele, a marca possui 120 unidades em funcionamento ou implantação no Brasil, das quais 21 estão em Minas Gerais, distribuídas por cidades como Ipatinga, no Vale do Aço; Janaúba e Montes Claros, no Norte de Minas; e Tiradentes, no Campo das Vertentes. O Estado lidera, ao lado de São Paulo, o número de estabelecimentos da rede no País.
Somente em Belo Horizonte, a expansão da Seld alcançou 350% nos últimos três anos: o número de unidades saltou de duas, em 2023, para nove atualmente. A primeira operação internacional da marca já está em análise. A franquia planeja iniciar, em breve, sua atuação na Argentina.

“Acredito que a demanda pelo serviço esteja relacionada, principalmente, aos fatores tempo e custo. Ao optar pela lavagem fora de casa, o consumidor reduz o consumo de água. Nossas máquinas, por exemplo, utilizam cerca de 40 litros por ciclo, enquanto uma máquina doméstica consome em torno de 135 litros”, afirma o empreendedor.
Godinho acrescenta que, ao colocar na ponta do lápis todas as despesas com água, energia elétrica e produtos de limpeza, muitos consumidores percebem vantagens econômicas nas lavanderias self-service. “Isso sem falar da manutenção da máquina doméstica, que nem entrou nessa conta, mas também representa um custo relevante”, analisa. Segundo ele, o público-alvo do negócio é formado, majoritariamente, por homens solteiros, divorciados e consumidores das classes C e D.
Embora não divulgue os números de faturamento por questões contratuais com a franqueadora, o empresário afirma que uma lavanderia self-service gera, em média, lucro líquido equivalente a 50% da receita bruta. Em meses de maior demanda, esse percentual pode chegar a 60%. “O pico de clientes ocorre, principalmente, aos fins de semana. Nas quartas-feiras, o movimento costuma ser menor, enquanto nos demais dias permanece em nível intermediário”, relata.
Durante os períodos de frio, a procura pelos serviços também aumenta, especialmente pela secagem de roupas. “Com a menor incidência de luz solar e os dias mais nublados, as pessoas naturalmente recorrem à lavanderia”, afirma o investidor.
De franqueada a dona do próprio negócio
Diferentemente de Godinho, que atua no mercado por meio de uma rede de franquias, a empresária Mariana Saraiva comanda a própria lavanderia, a Laviverde, há dois anos, no bairro Padre Eustáquio, na região Noroeste de Belo Horizonte.
Quando ingressou no setor, a advogada atuava como franqueada, mas optou por reposicionar a marca e tomar as rédeas do negócio. Desde então, registrou crescimento superior a 70% no faturamento da empresa. “Nos primeiros meses da marca própria, em 2024, meu faturamento bruto era de cerca de R$ 17 mil. No mês passado, faturamos aproximadamente R$ 29 mil”, conta.
Descontadas as despesas, a empresária afirma que o lucro líquido mensal pode variar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil. “Em um mês bom, costumo realizar cerca de 1.500 ciclos”, diz. Cada ciclo corresponde a uma lavagem ou a uma secagem.
Ela explica que os resultados positivos estão relacionados não apenas à qualidade do serviço — a lavanderia, segundo a empresária, é a única da região com cinco máquinas de lavar e secar, o que reduz o tempo de espera dos clientes —, mas também à localização da unidade.
“Estou no coração comercial do Padre Eustáquio e distante de outras lavanderias. A situação é diferente em bairros como o Prado [região Oeste de Belo Horizonte], que somente nas imediações do Clube dos Oficiais conta com cinco estabelecimentos do segmento”, afirma.
Outra evidência da expansão do negócio está no crescimento da base de clientes. Desde julho de 2025, a Laviverde registra, em média, 94 novos consumidores por mês. O maior movimento dos últimos 12 meses foi observado em janeiro deste ano, quando a unidade recebeu 382 usuários, sendo 154 deles clientes que utilizaram as máquinas pela primeira vez.
Empresária aposta na proximidade com os clientes para fidelizar a clientela
Além de investir na divulgação da loja por meio de plataformas de publicidade on-line e da tradicional indicação boca a boca, Mariana Saraiva afirma que não abre mão de acompanhar de perto a movimentação da lavanderia e avaliar pessoalmente o grau de satisfação dos clientes.
“Há quem invista no setor acreditando que se trata de uma commodity, sem necessidade de gestão direta, mas a presença do proprietário é fundamental. Os clientes precisam conhecer o rosto por trás da loja”, destaca.
Pelo menos uma vez por semana, a empreendedora faz plantão na unidade, além de permanecer disponível para solucionar eventuais problemas enfrentados pelos clientes durante a utilização do serviço.

“É um negócio que transmite uma sensação de flexibilidade, mas exige dedicação integral do proprietário em qualquer dia e horário da semana. Já deixei de almoçar com minha família para resolver problemas emergenciais nas máquinas. Existe flexibilidade, mas quem deseja oferecer um atendimento de qualidade precisa estar disponível”, relata. Ela acrescenta que os clientes têm acesso direto ao WhatsApp corporativo da unidade, por meio do qual podem entrar em contato sempre que necessário.
“Se você não tiver esse contato com o cliente, fica complicado manter o negócio. Afinal, é muito fácil para o consumidor trocar de lavanderia”, destaca.
Especialista dá dicas para investir em lavanderias self-service
O diretor-técnico da Abralav, Mário Lodi, afirma que, apesar de o mercado ser rentável, o investidor deve considerar alguns fatores estratégicos antes de empreender no segmento, principalmente a escolha do ponto comercial.
“Bairros de classe alta não costumam ser os mais atrativos para esse tipo de serviço, pois muitos moradores utilizam as lavanderias dos próprios condomínios. As lojas precisam estar próximas a centros comerciais, permitindo que o cliente resolva outras demandas enquanto a roupa é lavada”, diz.
Outro ponto importante para quem pretende apostar no negócio, segundo Lodi, é encontrar um parceiro confiável que ofereça suporte na implantação do projeto, na adequação da unidade e, principalmente, que tenha know-how para fornecer os equipamentos. “Vale lembrar que o principal ‘funcionário’ da lavanderia de autosserviço é a máquina. Se ela deixar o cliente na mão uma única vez, dificilmente ele voltará”, reforça.
Por fim, o dirigente informa que o investimento inicial em uma lavanderia self-service gira em torno de R$ 180 mil, podendo chegar a R$ 210 mil no caso de uma franquia. Segundo ele, a operação costuma atingir o ponto de equilíbrio e começar a gerar lucro após os primeiros seis meses de atividade.
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