Endividamento das famílias: o retrato de um Brasil no limite

Entenda como o cenário atual afeta a economia no dia a dia
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Endividamento das famílias: o retrato de um Brasil no limite
Foto: Reprodução Adobe Stock

O endividamento das famílias é um sinal evidente de que a economia não vai bem. Quando a população se vê pressionada pelo custo de vida e pela dificuldade de fazer a renda acompanhar as despesas, a questão ultrapassa a esfera individual e assume uma dimensão social.

Hoje, 82% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Esse é o maior índice da série histórica da pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). São milhões de trabalhadores fechando o mês no limite, obrigados a parcelar despesas básicas e angustiados com as contas.

Há tempos, o cartão de crédito virou extensão da renda. Usar o limite virou rotina, e o parcelamento transformou-se em uma forma de enfrentar despesas que não cabem no orçamento. É simplista atribuir esse cenário a fatores isolados, como a cultura do consumo ou as apostas digitais.

O endividamento resulta da combinação de renda insuficiente, alta de preços de itens essenciais, juros elevados, baixo nível de educação financeira e um mercado de crédito que oferece facilidade na entrada e sufoca as pessoas na saída. Quando o preço da comida sobe, a energia pesa, o aluguel aperta, mas o salário não acompanha, o trabalhador precisa recorrer ao crédito para financiar até mesmo itens básicos. A situação de famílias que precisam se endividar para arcar com despesas essenciais expõe um país distante do equilíbrio social.

O drama não é apenas econômico. O endividamento pode afetar a saúde e o bem-estar, contribuindo para insônia, ansiedade, perda de produtividade e conflitos familiares. Conviver permanentemente com dívidas compromete a qualidade de vida, desestrutura relações e limita as perspectivas de crescimento e estabilidade.

Crescimento econômico que não melhora a capacidade das famílias de organizar suas finanças é insuficiente. Facilitar o crédito, por si só, não resolve o problema da renda. É preciso elevar a renda do trabalho por meio de emprego de qualidade, formalização e ganhos de produtividade.

É necessário enfrentar o custo do crédito, ampliar a concorrência no setor financeiro, garantir transparência sobre juros e assegurar condições justas de renegociação. Revisar a carga tributária sobre alimentos e bens essenciais também é indispensável.
Sempre defendi o incentivo à educação financeira nas escolas e em campanhas permanentes. Isso também é fundamental. Aprender a usar o crédito, por exemplo, é tão importante quanto saber ganhar dinheiro.

O Brasil precisa parar de normalizar a vida no limite. Mercado aquecido às custas do endividamento das pessoas não é sinal de prosperidade. Um país desenvolvido é aquele em que o trabalho gera dignidade, o consumo cabe no orçamento e o futuro não chega acompanhado de boletos.

Bárbara Botega
Sobre o autor

Bárbara Botega

Advogada, gestora pública e empresária

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