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Mateus Simões aposta em infraestrutura, energia e qualificação para elevar renda dos mineiros

Em entrevista ao Diário do Comércio Eleições Minas 2026, pré-candidato à reeleição detalha projetos para um eventual novo mandato
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Mateus Simões aposta em infraestrutura, energia e qualificação para elevar renda dos mineiros
Foto: Nathália Gonçalves / Diário do Comércio

O Diário do Comércio Eleições Minas 2026 recebeu o governador Mateus Simões. Eleito vice-governador em 2022 pelo Partido Novo, assumiu o comando do Estado em março deste ano após a renúncia de Romeu Zema (Novo), que é pré-candidato à Presidência da República. Com passagem pela vereança de Belo Horizonte pela Secretaria-Geral do Estado, o advogado, professor de direito e produtor rural Mateus Simões está filiado ao PSD e disputa a reeleição ao governo de Minas.

Durante entrevista ao Diário do Comércio, o pré-candidato falou sobre suas propostas para desenvolver a economia mineira. Simões defende um novo ciclo de desenvolvimento baseado em três frentes: infraestrutura, energia e formação técnica, com o objetivo de tirar o Estado da 9ª posição em renda média nacional. Entre as propostas estão a expansão da geração fotovoltaica, em que Minas já responde por 40% da produção do País, a ampliação do uso de biometano no Triângulo Mineiro e no Sul do Estado, e o avanço na cadeia de minerais estratégicos como lítio e nióbio, com agregação de valor local em vez da exportação do minério bruto.

No setor de saneamento, ele destaca a privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) como modelo de sucesso, com R$ 8,3 bilhões captados para investimentos em água, esgoto, segurança e habitação, e defende a modernização da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) sem venda da participação estadual, priorizando distribuição e a subsidiária Gasmig. Para destravar investimentos, a principal medida anunciada para os próximos dias é a regulamentação do novo marco legal do licenciamento ambiental em Minas, diante da ausência de normas federais. O pré-candidato também prevê o uso da inteligência artificial (IA) para acelerar análises ambientais.

Mateus Simões disse que tem assumido, junto aos prefeitos e deputados mineiros, compromissos para investir recursos da privatização da Copasa nos próximos cinco anos em melhorias efetivas das rodovias nas regiões e citou o Rodoanel da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) como elemento crucial para que a Capital volte a ser um hub de negócios. Além disso, Simões cobrou as concessões federais para BRs estratégicas no Estado.

Outra proposta é fortalecer o agronegócio, que já representa quase 24% do Produto Interno Bruto (PIB) mineiro, por meio de pesquisa da Epamig, assistência técnica da Emater e certificação do IMA, além de manter a prioridade em segurança pública com investimento em pessoal, tecnologia e formação.

Qual medida com impacto direto no ambiente de negócios de Minas Gerais seria tomada nos seus primeiros 100 dias de governo?

De alguma forma, os primeiros 100 dias do meu governo aconteceram lá em 2019, quando eu e o governador Romeu Zema começamos uma trajetória que começou em 2018, momento em que eu assumi a transição de governo do ex-governador Fernando Pimentel para o governo Romeu Zema. Então, estamos falando de uma evolução. Agora, eu tenho uma visão para Minas Gerais do futuro, que é um próximo passo.

Zema, quando assumiu, disse que o primeiro mandato seria dedicado a colocar as finanças em dia, porque isso era importante para economia. Se a gente lembrar, por exemplo, como o comércio estava deprimido no Estado por conta do pagamento parcelado dos servidores públicos, a gente entende isso. Eram 450 mil servidores ativos e 250 mil inativos, ou seja, 700 mil famílias que recebiam parcelado em Minas Gerais. Então, pusemos isso em dia, isso foi resolvido no primeiro governo.

No segundo, a pauta econômica era a respeito de emprego. Ele assumiu na campanha, o compromisso de garantir que todo mineiro que quisesse trabalhar, pudesse trabalhar. E nós temos hoje o menor índice de desemprego da história de Minas Gerais com menos de 3,8%, segundo menor do país, uma vitória com letra maiúscula.

O meu próximo desafio é melhorar a renda média do mineiro. Nós temos hoje uma população empregada muito considerável, mas nós somos ainda a 9ª renda média do País. E isso a gente consegue resolver com infraestrutura, eletricidade, formação técnica. A atração de investimento a gente já sabe fazer, acho que o governo provou bem isso. Acho que essas são as três etapas para gente chegar na minha proposta, que é uma proposta de aumentar a renda média do mineiro.

Qual o seu posicionamento sobre a privatização da Copasa e da Cemig? Caso seja favorável, quais salvaguardas defenderia para garantir a universalização dos serviços e proteger o consumidor?

No caso da Copasa, considero que tenha sido a operação de privatização mais bem-sucedida dos últimos 20 anos, porque o preço da companhia foi um preço excepcionalmente mais alto do que o que ela tinha quando nós chegamos ao governo. A Copasa inteira valia R$ 7 bilhões quando o governo Zema começou. Nós vendemos 45% da companhia por R$ 8,3 bilhões. Então, acho que isso mostra a o sucesso do processo de privatização.

Esse dinheiro vai ser todo aplicado em infraestrutura, segurança e habitação no Estado de Minas Gerais. Não entra para o caixa para pagar salários, não pode ser usado de outra forma. Mas, além disso, vai gerar um ciclo de investimento muito relevante porque a companhia tem agora metas de cumprimento para universalização de fornecimento de água potável e esgoto em 600 municípios do estado.

Com isso, a Copasa vai colocar um volume de obras em andamento que são importantes para saúde pública, mas vão ser importantes até para economia de Minas Gerais por conta do tamanho dos investimentos que vão acontecer de agora até 2033, quando ela tem que ter feito a universalização nesses municípios. Então, nós estamos falando de cinco anos muito ativos na construção pesada para todo o Estado de Minas Gerais.

A minha proposta para a Cemig sempre foi de modernização da companhia. Eu considero que ela deveria se transformar numa corporation para ser uma companhia mais leve. Eu não tenho nenhuma intenção de vender a participação do Estado na Cemig. Nós só temos 17,5% da companhia, não acho que isso é uma questão relevante. É mais relevante que a gente tenha velocidade dos investimentos, que a gente foque na distribuição de energia e a companhia vem melhorando muito nisso.

O que me preocupa de alguma forma é a questão da Gasmig. Como subsidiária integral da Cemig, ela é pequena dentro do conjunto Cemig, mas precisa de atenção porque o gás, especialmente como uma ferramenta alternativa à gasolina e ao diesel, é importante até para a descarbonização da nossa economia. Nós acabamos de liberar um investimento de R$ 1 bilhão no Triângulo Mineiro para a construção do gasoduto do biometano.

O biometano tem a mesma característica do gás natural, com a diferença de que a fonte dele é uma fonte biológica, que estaria gerando liberação de metano para a atmosfera se a gente não tivesse capturando. Então, ele pode ser feito por aterro sanitário, mas lá no Triângulo nós estamos fazendo com a vinhaça de cana. Então, nós estamos fazendo com que a produção de cana, além de fazer etanol de primeira geração, etanol de segunda geração, agora produza também gás atuação industrial. E eu tenho o desafio do gasoduto no Sul de Minas, saindo de Bragança Paulista e chegando até Pouso Alegre.

Eu acho que essas são as duas grandes preocupações que eu tenho com o tema Cemig nesse momento. Curioso que você fala: “mas isso não é isso é gás, né? Não é eletricidade”. É, mas a Gasmig é uma subsidiária da Cemig. E ali a gente ainda precisa de atenção porque quando eu disse que a próxima etapa da renda de Minas passa por energia, infraestrutura e mão de obra, energia não é só energia elétrica, são também essas fontes alternativas de energia.

Qual a sua proposta concreta para a mineração e a transição energética em Minas Gerais, um Estado que concentra reservas estratégicas para a transição energética global, como lítio, nióbio, grafite, terras raras?

A transição energética, no caso, em Minas Gerais é uma oportunidade de negócio, mais do que um compromisso ambiental. E eu falo isso com tranquilidade. A pauta ambiental andou devagar no mundo inteiro porque a gente estava esquecendo as pessoas. Para falar só dos animais e das árvores, o engajamento social é limitado. Agora, quando você fala para as pessoas que é sobre a vida delas, elas, obviamente, se engajam mais. É uma tendência natural do ser humano. Aqui em Minas, a discussão da transição energética é uma discussão sobre as pessoas.

A produção de energia fotovoltaica em Minas é um bom negócio. Nós somos responsáveis por 40% de toda produção fotovoltaica do País. A Cemig agora, inclusive, sob a coordenação do governo, lançou um plano de tentar levar o maior volume possível de consumidores de baixa tensão para dentro do sistema fotovoltaico. Nós oferecemos hoje, através da subsidiária da Cemig, que é a Cemig SIM, o maior desconto possível, que é 26%. Não tem nada no Brasil parecido com isso para um consumidor de baixa tensão de até R$ 300 de conta por mês. A gente está aumentando a nossa capacidade de colocar energia fotovoltaica para dentro do sistema e vamos continuar trabalhando nisso.

Ao lado disso, nós temos iniciativas como a de circuito fechado do biometano e vamos continuar trabalhando com a produção de biometano dentro do estado porque ela é positiva na transição energética por dois lados: ela tira metano da atmosfera e ela injeta um novo combustível na economia.

E nós temos ainda a possibilidade de insistir na produção de etanol que em Minas Gerais é baixa. O curioso é que nós somos a segunda maior área plantada de cana de açúcar do país. Mas nós somos o terceiro ou quarto, dependendo do ano, produtor de etanol, porque a nossa cana de açúcar quase toda é transformada em açúcar. E a minha proposta é que a gente comece a ter usinas híbridas, que tenham etanol de milho junto com planta de cana para que a gente possa ganhar volume nisso.

Ainda tem um espaço considerável para a gente ocupar. Lembrando que no Brasil, o caminho natural da transição energética para os veículos não é eletrificação de frota. É a gente fazer a conversão para etanol puro. Aí você pode perguntar: “Mateus, mas e os metais estratégicos? Porque desse jeito que você está falando parece que a gente não precisa tanto de bateria”. É, eu estou falando que a gente não precisa tanto de bateria quanto outros países do mundo. Mas nós somos grandes produtores daquilo que é essencial para as baterias funcionarem. Seja o lítio do Jequitinhonha, seja o nióbio de Araxá para as ligas de alta resistência, sejam as terras-raras do Sul e do Norte de Minas para imãs. E nós vamos continuar tratando esse assunto com muita seriedade. Para nós, é estratégico que a gente continue sendo um vendedor de liga metálica de nióbio e não de nióbio mineral.

Eu quero trabalhar no Jequitinhonha para a gente evoluir de exportação de lítio, como a gente está fazendo hoje, para a exportação de hidróxido de lítio, de lítio processado, ou seja, de ligas de lítio. Mas nós vamos ter uma fábrica de bateria? Pode ser. Mais à frente pode ser o caminho, mas o mais importante hoje é não exportar o mineral puro, eu tenho como agregar valor ali. E no caso das terras-raras, já é isso que nós estamos fazendo. O projeto que está em implantação no Sul de Minas é um projeto de produção de ligas de imantação.

Empresários mineiros apontam sistematicamente a burocracia estadual e a insegurança jurídica como freios ao investimento nos negócios. Qual o seu diagnóstico sobre essa questão e quais medidas o senhor pretende adotar nos primeiros 12 meses de governo?

Nós temos um desafio que é o da regulamentação que o governo federal se negou a fazer do novo marco legal do licenciamento ambiental. A posição do governo federal é uma posição de irresponsabilidade, porque tem uma lei aprovada e eles não determinam como é que a gente vai aplicar a lei. Minas Gerais tomou a decisão de regulamentar. Então, nas próximas semanas, antes ainda do período eleitoral, nós vamos estar com a regulamentação do marco legal do licenciamento ambiental publicada. Esse é uma questão de responsabilidade para que, quem vier investir em Minas Gerais entenda qual é a regra sobre a qual ele vai estar submetido. E isso continuando com a mesma seriedade que nós temos no tratamento da questão ambiental no geral.

Somos nós os responsáveis pelo descomissionamento das barragens a montante que acabaram gerando as tragédias na última década e meia, somos nós que conseguimos diminuir o ritmo de desflorestamento que aprovamos o marco legal da irrigação sustentável, então, a pauta ambiental é uma pauta séria para nós, mas ela não pode ser tratada com incerteza, porque isso é ruim para quem defende o meio ambiente, mas também é ruim para quem está promovendo o investimento, a pessoa quer segurança. A regra pode ser dura, ela só não pode mudar o tempo todo à medida em que muda o fiscal que está olhando para norma. Então, acho que esse é um desafio brasileiro. O que Minas vai continuar fazendo são regulamentações que possam ser acompanhadas.

Nós também estamos colocando em prática uma série de instrumentos de uso de inteligência artificial para os processos de licenciamento e de autuação ambiental. Minas Gerais foi, por exemplo, o primeiro Estado a conseguir certificar a sua produção agrícola através de imagem de satélite, comparando o que existia de área de cobertura vegetal antes de 2014, quando foi editado o Código Florestal, e hoje. Para dizer onde houve ou não houve ampliação de remoção vegetal, para dizer que, essa propriedade que está certificada não promoveu nenhuma remoção vegetal ou essa daqui não está certificada porque promoveu remoção florestal.

Seja na análise das imagens de satélite em que a gente tem avançado para regularização ambiental, e a gente até tem um programa, o Programa de Regularização Ambiental (PRA) que é o que gerou o Selo Verde, seja na autuação, em que a gente também está agora com inteligência artificial fazendo leitura de camada de satélite para poder entender quem foi que mexeu e que não podia ter mexido e seja na inteligência artificial para ler os relatórios de impacto e poder apresentar para os nossos fiscais conclusões mais bem ponderadas, nós estamos avançando muito no uso de tecnologia. Acho que a tecnologia será, ao longo dos próximos anos, uma grande aliada dos processos de licenciamento não só ambiental, mas também no Brasil como um todo a gente pretende estar à frente desse processo como nós nos mantivemos à frente de tudo que é tecnologia hoje ao longo dos últimos anos.

Quais são as prioridades concretas do seu projeto de governo para rodovias, ferrovias a fim de ampliar a competitividade logística do Estado?

No que diz respeito a investimentos rodoviários, eu estou rodando o Estado e tenho assumido em cada uma das regiões os compromissos dos investimentos dos próximos cinco anos com o recurso da Copasa. Até outro dia me perguntaram se não estava errado em assumir compromisso para os próximos cinco anos, sendo que não sabemos quem vai ser o governador. É o contrário disso. O dinheiro que já está no caixa hoje e que podia ser gasto pelo governo atual, sem nenhum problema, nós estamos organizando para ser gasto em cinco anos. O que eu espero é que, independentemente de quem seja o próximo governador, cumpra aquilo que foi acertado com cada prefeito, com cada deputado.

Porque eu vou à região e, ao invés de rasgar dinheiro, a gente decide com a comunidade o que que é importante ao longo dos próximos anos em termos de rodovias, seja recuperação, seja asfaltamento, duplicação ou reforço de carga. Isso vai nos permitir um avanço considerável em regiões que estavam bastante prejudicadas com qualidade de asfalto. Mas a gente já vem fazendo muita coisa.

Acho que entre os grandes investimentos estratégicos, sem dúvida, está o Rodoanel de Belo Horizonte, e o investimento de R$ 12 bilhões que está pendente só de uma autorização do Incra federal, que infelizmente está há sete anos para entregar autorização, está judicializado. Vamos ver como é que a Justiça decide nos próximos dias, mas que é uma obra importantíssima, não só para a região metropolitana, mas porque ela volta a transformar Belo Horizonte num hub logístico. Belo Horizonte perdeu essa característica por conta da dificuldade que é atravessar a cidade. Agora, no momento em que a gente passa até o Rodoanel, a gente volta a ser um hub, lembrando que a gente liga Sul, Norte, Nordeste, e Centro-Oeste de Minas Gerais, liga aí Belo Horizonte, que está no meio disso.

Nós temos investimentos importantes como é o caso da ligação Belo Horizonte a Mariana, Mariana a Ponte Nova, com R$ 2,5 milhões de investimento, processo também já iniciado.

Eu tenho a expectativa muito grande de que o governo federal cumpra os investimentos nas nossas principais rodovias. Tem as duas concessões da BR-040, as duas concessões da BR-381, a concessão da BR-251 e BR-116, no corredor que liga o Nordeste ao Rio de Janeiro. E ainda há a necessidade da gente fazer a concessão do trecho que falta da BR-262, porque a BR-262 só está concedida de Belo Horizonte ao Triângulo Mineiro. Não está concedida da BR-381 até o Espírito Santo. A gente precisa dessas rodovias funcionando para que o Estado volte a ter uma irrigação adequada.

E na parte ferroviária, o com o governo federal fazendo as renovações da ferrovia Centro-Atlântica, da concessão da VLI, a gente tem uma oportunidade de novos ramais. Minas tem que continuar brigando pelo ramal Goiás a Pirapora, passando por Unaí. Esse ramal transformaria o Noroeste de Minas do ponto de vista de valor da carga. Hoje, a soja produzida no Noroeste vale R$ 5 a menos do que a soja produzida em Goiás, porque eu não consigo escoar por trem. Se eu puser o trilho de trem lá, eu mudo completamente a característica da região que já é a maior produtora de soja de Minas Gerais.

Então, temos investimentos planejados e estou bem certo de que a gente vai chegar do outro lado na parte federal, se o governo federal conseguir investir, né? Porque eu ando muito preocupado com a má condução das contas públicas federais. Enquanto aqui a gente faz conta para tudo, lá eles não fazem conta para nada e acaba faltando dinheiro. Por isso que eles são tão lentos em fazer investimento e ainda empurraram o anel rodoviário para a cidade de Belo Horizonte e ficamos nessa situação terrível que é a gente continuar tendo acidentes por falta de investimento. Então, espero que a gente tenha um governo federal mais responsável com dinheiro na próxima rodada.

Minas Gerais convive há anos com o peso da dívida com a União, o que limita a capacidade de investimento do Estado. Como o senhor pretende equacionar esse passivo e ampliar a margem fiscal para projetos prioritários?

Primeiro, Minas voltou a pagar suas contas em dia, o que é uma conquista importante. É como um pai de família que ficou anos sem conseguir pagar nada e os boletos foram se acumulando. Minas hoje paga todos os seus boletos. A gente vai desembolsar perto de R$ 6 bilhões, só esse ano, pagando dívida. Não estou comemorando isso não, porque parte grande dessa dívida é exploração da União sobre o Estado de Minas Gerais. Mas paciência, não foi dívida feita por nós, foi dívida feita no passado, ao devedor resta pagar. Negociamos ao que era possível, no limite que era possível. Eu estou feliz porque todos os pré-candidatos ao governo estão dizendo que a situação é grave e que Minas merecia um desconto maior. Não sei onde eles estavam quando a gente estava negociando. Aliás, vários deles estavam do lado contrário, dizendo que o governo federal não devia conceder tanto a Minas Gerais. Então, vamos ver se se a gente consegue na próxima rodada de governo também ter um tratamento mais benéfico.

Mas acho que, independentemente de ficar fazendo conta com o futuro, eu prefiro fazer conta com o presente. A gente hoje é capaz de pagar a dívida e o valor do boleto anual que o agiota nacional manda para gente, que o governo federal manda para Minas. É uma conta cara, pesada, que eu preferia, obviamente, estar colocando em investimentos dentro do Estado, mas é o que temos para hoje. É o que o governo federal nos permitiu fazer até aqui e Minas está pronta para lidar com esse cenário.

O que Minas tem de desafio não tem a ver com a sua dívida pública, tem a ver com a desaceleração da economia por conta do nível dos juros que a gente vem enfrentando, que deriva das contas públicas nacionais. Então, se você me perguntar: “Matheus, você tá preocupado com a dívida ao longo dos próximos anos?”, eu vou responder que não estou, ela está equacionada, está mais alta do que eu gostaria, mas está equacionada. Fizemos adesão ao Propag e o governo federal está nos prejudicando, atrasando a aprovação do que ele vai receber em sinal e isso custa quase R$ 50 milhões por mês para gente. Mas paciência, estão usando o limite que a lei nacional deu para eles para abusar mais uma vez de Minas Gerais.

Mas o que me preocupa é a desaceleração econômica. Os nossos indicadores mostram que esse ano a nossa economia nacional está crescendo basicamente com a inflação e isso significa perda de espaço fiscal, ou seja, o Brasil inteiro vai ter perda de condição de investir no próximo ano. O governo federal não vai fazer nada em relação a isso. Nós estamos caminhando para um déficit fiscal federal na casa de R$ 300 bilhões em um ano. E tudo está sendo tratado em Brasília como se isso fosse normal. E não é normal. Isso vai matando a economia e, eventualmente, vai começar a afetar emprego e poder de compra das pessoas. Isso me preocupa hoje muito mais do que a nossa condição de pagar a parcela da dívida. Me preocupam, inclusive, os impactos no Estado, porque isso tem um impacto direto na minha arrecadação de ICMS, que é a principal arrecadação do governo do Estado. Minas Gerais não vive de repasse federal, ele vive de arrecadação de ICMS, de tributo próprio. Aí vem uma estagnação econômica e isso faz com que a minha arrecadação do Estado também fique travada por conta do cenário econômico nacional.

Quais políticas agrícolas o senhor defende e como pretende integrar tecnologia, crédito e assistência técnica para o produtor rural?

Quando eu cheguei no governo, o agro representava menos de 20% do nosso PIB. O agro hoje já é quase 24% do PIB, a mineração é 25%, ou seja, o agro está quase alcançando a mineração. E a mineração está num momento bom, não é que a mineração caiu, o agro é que subiu. A gente tem um crescimento da indústria agrícola muito grande no Estado, em todas as etapas, desde da produção de bens de consumo agrícola até a produção de alimentos, passando pela produção agrícola propriamente dita. E isso é um orgulho para Minas Gerais, porque diferente da mineração que uma hora acaba, a gente tem que mudar o mineral que a gente está explorando. Minas já passou por isso várias vezes. Começou com ouro, passou por diamante, depois chegou em ferro, aí passou para nióbio, terras raras, lítio. Mas no caso do agro, é todo ano eu produzo de novo, produzo mais, produzo melhor, produzo o mais adequado do ponto de vista ambiental.

O fato, por exemplo, da gente ter hoje café em várias regiões do Estado diminui gravemente a degradação ambiental, porque o café é uma cultura perene, então ele segura a água e evita a enxurrada que assoreia rio, ele promove troca de oxigênio por gás carbônico de forma muito mais efetiva.

E a gente está tendo uma oportunidade ainda de ampliar nossas florestas plantadas. Minas já é o Estado com o maior volume de floresta plantada do Brasil, com 3,5 milhões de hectares de floresta plantada e temos condição de aumentar. A nossa pecuária está ganhando com genética para que ela seja menos poluente e hoje é possível abater a rês num ciclo menor e consigo fazer com que cada cabeça de gado produza mais leite, o que é muito importante para as famílias que vivem do agro. Lembrando que a maior parte dos pequenos produtores de Minas Gerais é produtor de leite. Nós somos um Estado que tem 220 mil famílias que produzem leite. É uma enormidade. Nós somos o maior produtor de laticínios do Brasil. Então, eu estou muito animado porque isso tudo está funcionando numa roda que envolve, de um lado, responsabilidade ambiental dos produtores, do outro lado, assistência técnica do governo.

A Epamig vai lá e pesquisa, a Emater vai lá e aplica a pesquisa no campo do pequeno produtor e o IMA vem e certifica o produto para que ele tenha condição de venda nacional, como é o caso do nosso queijo, que hoje pode ser vendido no País inteiro por conta desse acompanhamento tríplice. O resultado é que hoje existem famílias em propriedades de dez, 12 hectares que conseguem ter uma vida, não é digna não, é boa com a produção que elas têm ali.

Minas tem que ter muito orgulho do que está fazendo no agronegócio e muito orgulho do nosso agro representar quase um quarto da nossa economia. Por isso que eu fico brincando, vai mudar o nome do Estado para Minas e Agro Gerais, que a mineração não vai perder importância, mas a gente vai fazer o agro ficar tão importante quanto ela.

Como o senhor articula a agenda de segurança pública com a agenda econômica e quais são as prioridades do seu governo nessa área?

Segurança tem um tripé que a sustenta: volume de pessoas, formação dessas pessoas e estrutura para trabalho. Na parte de estrutura de trabalho, nós compramos mais de 7 mil viaturas, mais de 10 mil armas, investimos mais de R$ 250 milhões em sistemas para as polícias e o resultado está aí. Já aprendemos mais de 2 mil pessoas só com o nosso software de reconhecimento facial. Digitalizamos todos os processos da Polícia Civil. Somos o Estado que mais emite identificação digital no País, isso é importante porque você faz coleta de bioparâmetro. Implantamos o nosso banco genético, o nosso banco de balística. Então, a polícia hoje está bem equipada.

Quando a gente fala de volume, de treinamento de pessoas, Minas Gerais tem uma academia da Polícia Civil que completou 100 anos esse ano, que é exemplo nacional. Nós temos a Polícia Militar mais antiga do Brasil e a mais bem treinada. A nossa Academia da Polícia Militar é também exemplo nacional, tanto é que treinamos gente de várias partes do País e vamos continuar investindo na formação do nosso policial. Lembrando que a formação do nosso policial passa também por uma estrutura de apoio a esse policial. Daí a importância da gente ter as escolas Tiradentes que estão expandindo no Estado, passando de 30 para 60 escolas militares. Então tem esse investimento que a gente chama de ciclo humano, formação e acompanhamento desses homens.

E, por último, a gente tem a questão dos concursos. Desde o início desse meu mandato, desse segundo mandato, nós já contratamos mais de 20 mil homens e mulheres para as polícias. Foram mais de 10 mil para a Polícia Militar e mais de 5 mil para a Polícia Penal e milhares de bombeiros e policiais civis. Isso tudo para fazer com que Minas Gerais tenha os homens e as mulheres necessários para garantir a segurança e é por isso que nós somos muito mais seguros que os nossos vizinhos.

É claro que o ponto ideal da segurança é aquele em que não haja crime nenhum e nós vamos continuar trabalhando para sufocar o crime organizado. A operação Cerco Fechado já teve mais de 2 mil pessoas conduzidas pela polícia até agora. E mais de 800 prisões confirmadas. Nós precisamos lembrar que tem muito para comemorar nos nossos resultados atuais.

Quando a gente olha para a criminalidade, a gente vê que tem criminalidade acontecendo, mas compara Minas com São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo e você vai ver como é que foi importante a gente ter garantido ter a melhor polícia do Brasil. Fui criticado há uns 45 dias porque Minas é o Estado que mais gasta com segurança pública no País, proporcionalmente. O único Estado que gasta mais do que a gente é São Paulo e ele é 50% maior do que a gente e não gasta 50% a mais do que a gente. Só que eu não acho que você pode ver isso como crítica. Então, eu tenho orgulho disso. É por isso que o Estado é seguro, mas infelizmente está cercado por outros estados menos seguros e a única forma de garantir segurança é ter mesmo a melhor polícia do país.

O desenvolvimento regional passa pela relação entre governo do Estado e, no caso de Minas, os 853 municípios com realidades muito distintas. Como o senhor pretende estruturar a relação do Estado com os municípios para reduzir desigualdades regionais e potencializar vocações econômicas locais?

Eu acho curioso porque primeiro criticaram muito a mim e ao Zema pela nossa presença no interior, falando que a gente roda demais o Estado. Agora, chega na véspera da eleição, vários dos pré-candidatos falam disso. Um deles falou em construir uma cidade administrativa no Jequitinhonha. Se precisar de uma ideia ruim, essa não serve de tão ruim que ela é. Já chega o dinheiro que foi desperdiçado na construção da Cidade Administrativa daqui e aí vem gente querendo construir outra.

Aí vem outro pré-candidato e fala que tem que criar várias administrações regionais, está todo mundo querendo criar cabide de emprego. O que tem que fazer é estar presente. É entender que o Estado acontece nas cidades. Conversar com o prefeito. Entender que não é jogar dinheiro nos lugares. É estruturar política pública que faça sentido para cada realidade. E para saber o que faz sentido para realidade, tem que ir lá para ver. Não é aqui de Belo Horizonte.

Eu estive, por exemplo, conversando com o bispo de Pouso Alegre e com o bispo de Teófilo Otoni. Eu conversei com todos os bispos do Estado enquanto eu rodava. E vou continuar rodando, essa é a proposta do governo. Nas conversas com esses bispos, eles trouxeram problemas que, para quem não roda o Estado, não fazem sentido. É o problema das crianças nas comunidades rurais. Só que a preocupação do bispo de Pouso Alegre é que as crianças estão parando de estudar porque estão ganhando muito dinheiro plantando morango e todo mundo com 14 anos já tem motocicleta. Enquanto a preocupação do bispo de Teófilo Otoni é que as crianças estão passando fome na comunidade rural.

Então, será mesmo que a gente pode governar a partir de Belo Horizonte sem ir a esses lugares? Sem entender que comunidades são essas? Nós vamos apresentar as mesmas soluções políticas para um Estado diverso como Minas Gerais? Então, conversar com as cidades é estar presente, entender as diferenças e ter políticas regionais mais assertivas. É menos conversa sobre criar estrutura e mais responsabilidade na forma de tratar a presença do governo no interior que não pode ser uma visita ocasional quando tem uma festa. Você tem que ir lá para entender como é que as pessoas estão vivendo. Isso, o governo tem feito, inclusive com essa questão Governo Presente que foi uma ideia muito interessante. Depois que eu tomei posse, fiquei quatro dias em Belo Horizonte e aí comecei a rodar o interior chegando às 19 regiões que nós desenhamos e às 19 principais capitais regionais, vou chamar assim, que foram sendo transformadas em capitais ao longo desse percurso.

E o que você percebe nisso é que a população fica grata e os administradores locais ficam estimulados a propor soluções porque o governo está lá. Independentemente do futuro, eu espero que os próximos mandatos possam lembrar sempre disso. Nós temos, dependendo do jeito que você quiser dividir o Estado, 16 e até 20 regiões que devem ser olhadas com as suas especificidades. Belo Horizonte é grande, mas é só 12% do Estado. E diferente de todos os outros estados do nosso entorno, que têm mais da metade da população na região metropolitana, que é o caso de Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, todos eles têm mais da metade da população no entorno das regiões metropolitanas. Em Minas, 24% da população está na região metropolitana e 76% está no interior. Então tem que ir ao interior e entender porque o Estado é grande, mas, mais do que grande, ele é muito diverso e cada região tem necessidades diferentes.

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