Importação recorde pressiona indústria mineira, mas celulose, ferroligas e automotivo ganham mercado externo
O avanço das importações e a maior participação de produtos estrangeiros no mercado brasileiro acendem um sinal de alerta para a indústria de Minas Gerais. Setores tradicionais da economia mineira, como siderurgia, metalurgia, calçados e bens de consumo, enfrentam uma concorrência cada vez mais intensa de fabricantes internacionais, especialmente da China. Ao mesmo tempo, segmentos estratégicos do Estado, como celulose, ferro-ligas e indústria automotiva, ampliaram sua inserção no mercado externo em 2025, movimento que pode abrir novas oportunidades de negócios, mas também apresenta desafios para a competitividade industrial.
O cenário é apontado pelo analista de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Felipe Ramon, a partir dos dados do levantamento de Coeficientes de Abertura Comercial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado em outubro deste ano.
O estudo mostra que o coeficiente de penetração de importações na indústria de transformação brasileira atingiu 28,3% em 2025, ante 26,7% em 2024, um avanço de 1,6 ponto percentual. Segundo a CNI, este é o maior patamar da série histórica iniciada em 2003. A participação dos produtos chineses no consumo aparente nacional também bateu recorde, passando de 9,2% para 10,3% no período.
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Concorrência estrangeira pressiona indústria brasileira
Na avaliação de Ramon, o avanço das importações merece atenção porque ocorre em um momento de baixo dinamismo da produção industrial. Para ele, diferentemente de um cenário de expansão da atividade econômica, no qual a compra de equipamentos e insumos estrangeiros poderia representar modernização das fábricas, o movimento atual indica, em muitos casos, substituição da produção nacional por produtos importados.
“Como estamos com a produção estagnada e as importações estão crescendo, é um sinal de que, na verdade, está acontecendo uma substituição daquilo que a gente tem aqui. Boa parte das vezes é concorrência mesmo”, afirma.
O analista ressalta, contudo, que nem toda importação representa uma ameaça à indústria nacional. Máquinas, equipamentos e tecnologias que não são produzidos no País podem contribuir para modernizar as fábricas e elevar a produtividade. O problema, segundo ele, está na entrada de produtos que concorrem diretamente com os fabricantes brasileiros, sobretudo quando chegam ao mercado com preços artificialmente baixos.
Siderurgia e calçados entre os mais pressionados
Em Minas Gerais, um dos segmentos mais expostos é o siderúrgico. Segundo Ramon, a indústria do aço enfrenta há algum tempo uma forte concorrência internacional, principalmente de produtos chineses. A China responde por aproximadamente 55% a 60% das importações brasileiras de aço, mas países como Indonésia e Japão também participam desse fluxo.
O cenário internacional de excesso de capacidade produtiva e oferta de aço a preços reduzidos tem favorecido o redirecionamento de produtos para o mercado brasileiro. Na avaliação do especialista, a situação já provocou reflexos na indústria mineira, com redução da produção em algumas unidades, dificuldades para exportar e paralisação de decisões de investimento.

“A gente tinha recebido novidades de investimentos para este ano, mas, diante da dificuldade de conter as importações de aço, elas foram interrompidas”, afirma.
Concorrência asiática e restrições europeias afetam fabricantes mineiros
Outro segmento estratégico para a economia mineira que, segundo o analista da Fiemg, enfrenta dificuldades é o de ferroligas. “O Estado possui posição de destaque internacional na produção dessas ligas metálicas, especialmente o ferronióbio, além de produtos como ferrosilício e ferromanganês. Entretanto, o setor também sofre com a concorrência de importados da China e da Índia”, destaca.
A pressão é agravada pelas restrições comerciais impostas pela União Europeia às exportações brasileiras de ferroligas no fim de 2025. Segundo Ramon, a combinação entre a perda de espaço no mercado europeu e o avanço dos importados no mercado doméstico tornou o ambiente mais desafiador para os fabricantes mineiros em 2026.
“As exportações de ferroligas na pauta de Minas Gerais representaram 5,5% do total em 2025 (e 13,2% da pauta industrial). Comparando janeiro a setembro de 2026 com o mesmo período de 2025, o valor exportado cresceu em 14%. No entanto, isso é basicamente por conta do conta do crescimento do ferronióbio que representa cerca de 85% das exportações de ferroligas e que tem crescido (sobretudo para a China). A maioria dos outros ferroligas tem sofrido mais os impactos mencionados, como ferrossilício que caiu 23,5%”, afirma.
Celulose mineira amplia presença no mercado chinês
Apesar da pressão competitiva no mercado doméstico, o levantamento da CNI também aponta uma ampliação da participação das exportações na produção industrial brasileira. O coeficiente de exportação passou de 18,9% em 2024 para 20% em 2025, crescimento de 1,1 ponto percentual. O resultado foi influenciado pelo aumento de 5,9% das exportações industriais, enquanto a produção permaneceu estável.
O indicador permite identificar quanto do que é fabricado pelas empresas é destinado a outros países, em vez de abastecer o mercado interno. Um coeficiente de 20%, por exemplo, significa que, a cada R$ 100 produzidos pelo setor, o equivalente a R$ 20 é destinado às exportações.
Entre os setores com maior avanço estão celulose e papel, veículos automotores e metalurgia, todos relevantes para a economia mineira.
Na indústria de celulose e papel, o coeficiente de exportação subiu de 47,5% para 52,5%, uma alta de cinco pontos percentuais. De acordo com a CNI, o movimento foi influenciado pelo crescimento de 18,3% das exportações para a China.
Ramon afirma que a indústria mineira não só acompanha esse avanço, como a expansão pode ter relação direta com a produção de duas unidades industriais localizadas em Belo Oriente, no Vale do Rio Doce, e Indianópolis, no Triângulo Mineiro, municípios que concentram as exportações estaduais de celulose, segundo o analista da Fiemg.
Ainda conforme o executivo, a China foi o principal destino do produto mineiro em 2025, absorvendo aproximadamente 60% das exportações estaduais da matéria prima. As compras chinesas cresceram 21% no período, movimento que ajudou a compensar a retração dos embarques para os Estados Unidos por conta do tarifaço.
Setor automotivo mineiro acompanha avanço nacional, mas sinaliza desaceleração em 2026
Outro destaque do levantamento da CNI é o setor automotivo. O coeficiente de exportação de veículos automotores aumentou de 14,3% para 17,3% em 2025, avanço de três pontos percentuais. O resultado foi impulsionado principalmente pelas vendas externas de veículos e carrocerias, com destaque para o mercado argentino.
Em Minas Gerais, o setor também conseguiu acompanhar esse movimento. Ramon cita um dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta para um crescimento de aproximadamente 12,1% em 2025, ante 2024, da produção física de veículos automotores. Já no acumulado de janeiro a agosto de 2026, a expansão foi de 0,8% frente ao mesmo período de 2025, indicando perda de ritmo.
O analista destaca que as montadoras instaladas no Estado, especialmente em Betim, têm demonstrado capacidade de adaptação à entrada dos veículos chineses, inclusive por meio de parcerias com fabricantes asiáticos. Essa estratégia, entretanto, não está ao alcance de empresas menores, que possuem menos condições de absorver a pressão competitiva.
Perspectivas dependem de acordos comerciais e medidas de proteção
Para os próximos anos, a avaliação da Fiemg é de que a indústria mineira poderá conviver simultaneamente com oportunidades de ampliação das exportações e maior pressão dos produtos estrangeiros no mercado interno.
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De um lado, novas parcerias comerciais podem favorecer a inserção internacional dos produtos industrializados brasileiros. Ramon cita o acordo entre Mercosul e União Europeia como uma oportunidade relevante, especialmente porque a redução gradual de tarifas pode beneficiar produtos manufaturados que anteriormente enfrentavam barreiras mais elevadas para acessar o mercado europeu.
Outra possibilidade, segundo ele, é ampliar a exportação de produtos com maior valor agregado, em vez de concentrar os embarques em matérias-primas. Como exemplo, o analista menciona a oportunidade de expandir as vendas de café solúvel, em vez de comercializar apenas o grão, além de outros bens industrializados.
Por fim, ele defende que o governo federal implemente medidas para conter as importações que estão prejudicando a indústria, especialmente em setores como aço, vestuário e calçados.
“A capacidade de ampliar as exportações, agregar valor à produção e preservar a competitividade das empresas será determinante para o desempenho industrial de Minas Gerais nos próximos anos”, conclui.
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