Importação recorde pressiona indústria mineira, mas celulose, ferroligas e automotivo ganham mercado externo

Analista da Fiemg alerta para a substituição da produção nacional por produtos estrangeiros e aponta acordos comerciais e medidas de proteção como caminhos para fortalecer a indústria mineira
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Importação recorde pressiona indústria mineira, mas celulose, ferroligas e automotivo ganham mercado externo
Crédito: José Paulo Lacerda / CNI

O avanço das importações e a maior participação de produtos estrangeiros no mercado brasileiro acendem um sinal de alerta para a indústria de Minas Gerais. Setores tradicionais da economia mineira, como siderurgia, metalurgia, calçados e bens de consumo, enfrentam uma concorrência cada vez mais intensa de fabricantes internacionais, especialmente da China. Ao mesmo tempo, segmentos estratégicos do Estado, como celulose, ferro-ligas e indústria automotiva, ampliaram sua inserção no mercado externo em 2025, movimento que pode abrir novas oportunidades de negócios, mas também apresenta desafios para a competitividade industrial.

O cenário é apontado pelo analista de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Felipe Ramon, a partir dos dados do levantamento de Coeficientes de Abertura Comercial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado em outubro deste ano.

O estudo mostra que o coeficiente de penetração de importações na indústria de transformação brasileira atingiu 28,3% em 2025, ante 26,7% em 2024, um avanço de 1,6 ponto percentual. Segundo a CNI, este é o maior patamar da série histórica iniciada em 2003. A participação dos produtos chineses no consumo aparente nacional também bateu recorde, passando de 9,2% para 10,3% no período.

Concorrência estrangeira pressiona indústria brasileira

Na avaliação de Ramon, o avanço das importações merece atenção porque ocorre em um momento de baixo dinamismo da produção industrial. Para ele, diferentemente de um cenário de expansão da atividade econômica, no qual a compra de equipamentos e insumos estrangeiros poderia representar modernização das fábricas, o movimento atual indica, em muitos casos, substituição da produção nacional por produtos importados.

“Como estamos com a produção estagnada e as importações estão crescendo, é um sinal de que, na verdade, está acontecendo uma substituição daquilo que a gente tem aqui. Boa parte das vezes é concorrência mesmo”, afirma.

O analista ressalta, contudo, que nem toda importação representa uma ameaça à indústria nacional. Máquinas, equipamentos e tecnologias que não são produzidos no País podem contribuir para modernizar as fábricas e elevar a produtividade. O problema, segundo ele, está na entrada de produtos que concorrem diretamente com os fabricantes brasileiros, sobretudo quando chegam ao mercado com preços artificialmente baixos.

Siderurgia e calçados entre os mais pressionados

Em Minas Gerais, um dos segmentos mais expostos é o siderúrgico. Segundo Ramon, a indústria do aço enfrenta há algum tempo uma forte concorrência internacional, principalmente de produtos chineses. A China responde por aproximadamente 55% a 60% das importações brasileiras de aço, mas países como Indonésia e Japão também participam desse fluxo.

O cenário internacional de excesso de capacidade produtiva e oferta de aço a preços reduzidos tem favorecido o redirecionamento de produtos para o mercado brasileiro. Na avaliação do especialista, a situação já provocou reflexos na indústria mineira, com redução da produção em algumas unidades, dificuldades para exportar e paralisação de decisões de investimento.

Imagem mostra homem posando para foto institucional
Felipe Ramon, analista de negócios internacionais da Fiemg. | Foto: arquivo pessoal

“A gente tinha recebido novidades de investimentos para este ano, mas, diante da dificuldade de conter as importações de aço, elas foram interrompidas”, afirma.

Concorrência asiática e restrições europeias afetam fabricantes mineiros

Outro segmento estratégico para a economia mineira que, segundo o analista da Fiemg, enfrenta dificuldades é o de ferroligas. “O Estado possui posição de destaque internacional na produção dessas ligas metálicas, especialmente o ferronióbio, além de produtos como ferrosilício e ferromanganês. Entretanto, o setor também sofre com a concorrência de importados da China e da Índia”, destaca.

A pressão é agravada pelas restrições comerciais impostas pela União Europeia às exportações brasileiras de ferroligas no fim de 2025. Segundo Ramon, a combinação entre a perda de espaço no mercado europeu e o avanço dos importados no mercado doméstico tornou o ambiente mais desafiador para os fabricantes mineiros em 2026.

“As exportações de ferroligas na pauta de Minas Gerais representaram 5,5% do total em 2025 (e 13,2% da pauta industrial). Comparando janeiro a setembro de 2026 com o mesmo período de 2025, o valor exportado cresceu em 14%. No entanto, isso é basicamente por conta do conta do crescimento do ferronióbio que representa cerca de 85% das exportações de ferroligas e que tem crescido (sobretudo para a China). A maioria dos outros ferroligas tem sofrido mais os impactos mencionados, como ferrossilício que caiu 23,5%”, afirma.

Celulose mineira amplia presença no mercado chinês

Apesar da pressão competitiva no mercado doméstico, o levantamento da CNI também aponta uma ampliação da participação das exportações na produção industrial brasileira. O coeficiente de exportação passou de 18,9% em 2024 para 20% em 2025, crescimento de 1,1 ponto percentual. O resultado foi influenciado pelo aumento de 5,9% das exportações industriais, enquanto a produção permaneceu estável.

O indicador permite identificar quanto do que é fabricado pelas empresas é destinado a outros países, em vez de abastecer o mercado interno. Um coeficiente de 20%, por exemplo, significa que, a cada R$ 100 produzidos pelo setor, o equivalente a R$ 20 é destinado às exportações.

Entre os setores com maior avanço estão celulose e papel, veículos automotores e metalurgia, todos relevantes para a economia mineira.

Na indústria de celulose e papel, o coeficiente de exportação subiu de 47,5% para 52,5%, uma alta de cinco pontos percentuais. De acordo com a CNI, o movimento foi influenciado pelo crescimento de 18,3% das exportações para a China.

Ramon afirma que a indústria mineira não só acompanha esse avanço, como a expansão pode ter relação direta com a produção de duas unidades industriais localizadas em Belo Oriente, no Vale do Rio Doce, e Indianópolis, no Triângulo Mineiro, municípios que concentram as exportações estaduais de celulose, segundo o analista da Fiemg.

Ainda conforme o executivo, a China foi o principal destino do produto mineiro em 2025, absorvendo aproximadamente 60% das exportações estaduais da matéria prima. As compras chinesas cresceram 21% no período, movimento que ajudou a compensar a retração dos embarques para os Estados Unidos por conta do tarifaço.

Setor automotivo mineiro acompanha avanço nacional, mas sinaliza desaceleração em 2026

Outro destaque do levantamento da CNI é o setor automotivo. O coeficiente de exportação de veículos automotores aumentou de 14,3% para 17,3% em 2025, avanço de três pontos percentuais. O resultado foi impulsionado principalmente pelas vendas externas de veículos e carrocerias, com destaque para o mercado argentino.

Em Minas Gerais, o setor também conseguiu acompanhar esse movimento. Ramon cita um dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta para um crescimento de aproximadamente 12,1% em 2025, ante 2024, da produção física de veículos automotores. Já no acumulado de janeiro a agosto de 2026, a expansão foi de 0,8% frente ao mesmo período de 2025, indicando perda de ritmo.

O analista destaca que as montadoras instaladas no Estado, especialmente em Betim, têm demonstrado capacidade de adaptação à entrada dos veículos chineses, inclusive por meio de parcerias com fabricantes asiáticos. Essa estratégia, entretanto, não está ao alcance de empresas menores, que possuem menos condições de absorver a pressão competitiva.

Perspectivas dependem de acordos comerciais e medidas de proteção

Para os próximos anos, a avaliação da Fiemg é de que a indústria mineira poderá conviver simultaneamente com oportunidades de ampliação das exportações e maior pressão dos produtos estrangeiros no mercado interno.

De um lado, novas parcerias comerciais podem favorecer a inserção internacional dos produtos industrializados brasileiros. Ramon cita o acordo entre Mercosul e União Europeia como uma oportunidade relevante, especialmente porque a redução gradual de tarifas pode beneficiar produtos manufaturados que anteriormente enfrentavam barreiras mais elevadas para acessar o mercado europeu.

Outra possibilidade, segundo ele, é ampliar a exportação de produtos com maior valor agregado, em vez de concentrar os embarques em matérias-primas. Como exemplo, o analista menciona a oportunidade de expandir as vendas de café solúvel, em vez de comercializar apenas o grão, além de outros bens industrializados.

Por fim, ele defende que o governo federal implemente medidas para conter as importações que estão prejudicando a indústria, especialmente em setores como aço, vestuário e calçados.

“A capacidade de ampliar as exportações, agregar valor à produção e preservar a competitividade das empresas será determinante para o desempenho industrial de Minas Gerais nos próximos anos”, conclui.

Sobre o autor

Daniel de Andrade

Repórter do Diário do Comércio. Graduado em Jornalismo pela PUC Minas, com experiência em comunicação corporativa. 2º lugar no prêmio Adep-MG de jornalismo 2026


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