Sem maioria na ALMG, Cleitinho aposta em Doorgal para garantir governabilidade
Seis dias depois de um segundo turno que reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e impôs a derrota a Flávio Bolsonaro (PL), os dois partidos que polarizaram o País chegaram a um acordo improvável em Minas Gerais: vão votar no mesmo nome para comandar a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O deputado estadual Doorgal Andrada (PP) reúne agora o apoio de PL, PT, PSD, Republicanos, Psol e de praticamente todas as outras siglas e caminha para ser candidato único na eleição de 1º de fevereiro de 2027. O movimento mostra que, no Legislativo mineiro, ter a maior bancada não garante a cadeira mais alta, e que a verdadeira disputa pelo poder ficou para depois da posse.

“Cleitinho parece ter entendido que a vitória nas urnas precisa abrir espaço para a construção de uma maioria”, resume o marqueteiro político Mateus Zani. Cleitinho Azevedo (Republicanos) venceu o governo de Minas no primeiro turno com 6,3 milhões de votos, 55,4% dos válidos, superando de uma só vez PT, PL e o grupo do governo Zema. “Ele apoiou Flávio, mas também sinalizou disposição para dialogar além do próprio campo. O nome de Doorgal reflete esse caminho: construir condições para governar com uma Assembleia plural e fazer essa convivência produzir resultados para a população”, afirma.

Nos bastidores, o consenso para a presidência do Legislativo foi sendo costurado e, em uma semana, os 21 deputados eleitos pelo PL se decidiram, a federação União Brasil–PP, com oito parlamentares, e o Republicanos, partido de Cleitinho, com quatro, também fecharam com Doorgal. Na sequência, o PSD, com nove parlamentares, decidiu de forma unânime pelo apoio, assim como o PRD, PV, Podemos e Rede, levando o placar de Doorgal para mais de 60 votos. Em seguida, PSDB, Novo, Avante, PSB, Democrata e PDT também anunciaram apoio.
Último grupo a se posicionar, o bloco Democracia e Luta, que reúne PT, PV, Rede, Psol e PCdoB, depois de uma reunião entre os deputados em exercício e os eleitos, anunciou apoio ao parlamentar do PP. Juntos, os cinco partidos fizeram 19 das 77 cadeiras. “O apoio à candidatura está associado à expectativa de uma Presidência aberta ao diálogo com todas as bancadas e comprometida com o respeito às prerrogativas parlamentares e ao papel fiscalizador da Assembleia”, afirmou o bloco em nota. Com a adesão, Doorgal soma 71 dos 77 votos possíveis, segundo levantamentos do Metrópoles e do Valor. Para ser eleito, precisa de 39.
Nem base, nem oposição
Doorgal tem dito que, se eleito, não pretende integrar nem a base do governo nem a oposição, e que vai trabalhar para que o PP fique no bloco independente da Assembleia. Segundo ele, a posição é necessária para garantir a neutralidade esperada de quem comanda o Legislativo. Na avaliação de Zani, para Cleitinho essa posição significa que o governo terá na cadeira mais poderosa do Legislativo um aliado declarado.
Se a eleição da Mesa já parece resolvida, a governabilidade de Cleitinho, não. A coligação do governador eleito fez apenas seis das 77 cadeiras. Para aprovar projetos que exigem maioria absoluta, são necessários 39 votos e 48 no caso de emendas à Constituição estadual.
Mesmo uma composição que chegue a 34 deputados ainda precisa de outros cinco para alcançar a maioria absoluta. “Cleitinho parece compreender essa necessidade de ampliar sua sustentação política. A eleição termina; a necessidade de construir maioria acompanha o mandato inteiro. Ao convidar antigos concorrentes para compor o governo e sinalizar diálogo, o governador eleito indica que compreende a distância entre vencer e governar. O resultado desse movimento será medido pela capacidade de tirar os compromissos de campanha do papel”, assinala Zani.
Para o especialista, porém, os números contam só parte da história. “Uma bancada pode ter tamanho para disputar e não ter relações para vencer. A força de Doorgal, neste momento, parece estar na capacidade de ser aceito por grupos que se enfrentaram nas urnas. Isso revela como o poder está se reorganizando em Minas”, afirma.
Na avaliação de Zani, uma presidência aberta ao diálogo reduz o receio de que um grupo seja excluído das decisões. “É assim que leio a convergência em torno de Doorgal: diferentes forças encontram espaço para conviver e preservar sua atuação. O acordo para a Mesa, porém, ainda terá de ser traduzido em negociação sobre cada pauta do governo”, pondera. O raciocínio vale também para o deputado comum, que faz a mesma conta em escala menor. Emendas, obras e cargos na sua região são o que ele tem a ganhar ou a perder.
Zani aponta os próximos sinais que vão dizer para onde Minas caminha. O secretariado mostrará se Cleitinho vai dividir o governo ou insistir em andar sozinho. A eleição da Mesa, em 1º de fevereiro, revelará quanto espaço cada partido conseguiu conquistar no acordo em torno de Doorgal. E as primeiras votações dirão se o governador conseguirá transformar o consenso de fachada em maioria real.
“O consenso em torno de Doorgal é compatível com esse projeto, embora a Assembleia preserve sua autonomia. A prova virá quando os interesses divergirem. Se o diálogo continuar funcionando nesse momento e produzir entregas, a população ganha. É aí que a pacificação se transforma em capacidade de governo”, avalia Zani.
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