Monte Verde aposta na gastronomia para ir além do turismo romântico
Monte Verde, distrito de Camanducaia, no Sul de Minas, é conhecido pelas viagens românticas, pelo clima frio e pelos restaurantes de fondue. Agora, o local vem construindo uma nova identidade turística: a gastronomia. Restaurantes e pequenos produtores têm investido em ingredientes regionais, em receitas autorais e na profissionalização da gestão dos estabelecimentos.
O movimento acompanha o crescimento da rede de empreendedores do setor. O programa Prepara Gastronomia, do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (Sebrae Minas), atendia 19 estabelecimentos em 2024. Foram 21 em 2025, e são 23 neste ano. A iniciativa oferece consultorias em gestão, finanças, marketing, operação e desenvolvimento de produtos, além de estimular a cooperação entre os negócios.
Do roteiro romântico ao polo gastronômico
Há anos o distrito é associado aos casais. Agora, Monte Verde busca ampliar o tempo de permanência dos visitantes e atrair quem procura experiências gastronômicas. A ideia é que a viagem vá além da avenida principal e dos atrativos mais conhecidos e chegue aos estabelecimentos afastados do centro e a produtores da região.
Segundo o analista do Sebrae Minas, Anderson Faria, a mudança começou a ser estruturada a partir de um estudo sobre a identidade gastronômica do distrito, feito em 2022. O levantamento mostrou a influência de diferentes culturas na culinária local, sobretudo a alemã e a italiana, combinadas à tradição mineira.
Naquele momento, porém, faltava atuação coletiva entre os estabelecimentos. “Identificamos que não havia um trabalho estruturado entre os restaurantes e produtores da região”, comenta.
A partir do diagnóstico, o Sebrae passou a incentivar a qualificação dos empresários e a criação de iniciativas que dessem visibilidade à gastronomia local. Uma delas é o festival Gastronomia nas Montanhas, realizado em setembro, fora da alta temporada.
O festival chegou ao terceiro ano e faz parte de uma estratégia para distribuir melhor o fluxo de turistas ao longo do ano. A edição de 2026 foi de 25 a 27 de setembro e teve 29 estabelecimentos participantes, música ao vivo, oficinas, jantares especiais e apresentações de chefs.
Gastronomia contra a sazonalidade
Outra frente é a organização dos cardápios. Nas consultorias, os estabelecimentos analisam quais pratos saem mais e quais ficam no cardápio sem procura. Alguns negócios acabam reduzindo o número de opções. A cozinha fica mais ágil, o desperdício cai e o atendimento melhora, principalmente nos períodos de maior movimento.
O festival não é uma ação isolada. Durante cerca de 20 dias, os visitantes puderam percorrer um circuito gastronômico em que os estabelecimentos participantes apresentaram pratos criados para a ocasião. Muitos deles resultaram das consultorias do programa.
O circuito movimenta os restaurantes antes da programação principal e leva os turistas a conhecer diferentes empreendimentos e a ampliar o roteiro pela região.
Faria vê na gastronomia uma forma de mudar o perfil de quem visita o distrito. “Acredito que a elevação do padrão gastronômico de Monte Verde também terá impacto direto no tempo de permanência dos visitantes na cidade e no perfil socioeconômico dos turistas”, avalia.
O analista lembra que Monte Verde não se resume à vila central. O distrito tem outros atrativos, inclusive estabelecimentos na zona rural, e a gastronomia ajuda a apresentar essas áreas ao visitante.
O crescimento do setor acompanha o de outros segmentos da economia local. De acordo com Faria, o número de estabelecimentos tem aumentado, assim como os investimentos em hotelaria e na infraestrutura de acesso aos diferentes pontos do distrito. Em 2026, dois novos negócios entraram no grupo acompanhado pelo Sebrae.
“Vejo esse movimento como parte da evolução do distrito. A gastronomia acompanha o crescimento que Monte Verde vem apresentando, assim como outros setores, a exemplo da hotelaria, que também está em expansão. Com isso, a economia da região está cada vez mais fortalecida”, afirma.
Ingredientes da própria região
Um dos principais resultados do trabalho é a aproximação entre restaurantes e fornecedores locais. A proposta é usar mais ingredientes produzidos em Monte Verde, em Camanducaia e em outras cidades do Sul de Minas. Isso fortalece a cadeia produtiva e mantém na economia local uma parte maior do dinheiro que o turismo movimenta.
O chef e consultor gastronômico Fagner Rodrigues, que desenvolve os pratos com os estabelecimentos do programa, observa que as parcerias entre empresários se tornaram mais frequentes. Entre os fornecedores estão produtores de geleias, embutidos artesanais e vinhos. Alguns restaurantes também fecham acordos comerciais para comprar de fornecedores locais em condições diferenciadas.
“Eu considero essa parceria entre as empresas muito importante, principalmente pela valorização dos produtores locais. Temos, por exemplo, uma produtora de geleias que fornece para os restaurantes”, relata.
Com essa articulação, os ingredientes regionais ganham espaço nos cardápios e chegam ao visitante em preparações diferentes das tradicionais.
No Villa Donna Bistrô, a chef Sônia Cohen criou uma identidade própria a partir do encontro entre a culinária italiana de sua família e os ingredientes mineiros. Moradora de Monte Verde há 24 anos, ela abriu o restaurante em 2009 com receitas que atravessaram gerações.
Sônia Kohen cozinha desde os 11 anos e cresceu numa família em que a comida era o centro dos encontros. Ao chegar a Minas, percebeu semelhanças entre a culinária dos imigrantes italianos e a tradição mineira, ambas feitas com o que havia à mão e marcadas pela necessidade de aproveitar os alimentos.
“A comida italiana de imigrante e a comida mineira são comidas de sobreviver. Não é só de sobreviver, é sobre como viver”, define.
A escolha dos produtos segue uma lógica territorial. A procura começa pelos fornecedores em Monte Verde, depois em Camanducaia e no Sul de Minas, e só recorre a outros mercados quando não encontra o que precisa por perto.
Segundo a chef, cerca de 90% das compras do restaurante são feitas em Minas Gerais. Os queijos são todos mineiros. Azeites e vinhos do Estado também ganham espaço na carta, embora Sônia Cohen ainda perceba resistência de parte dos clientes aos rótulos mineiros.
Gestão profissional na cozinha
Além da criação de pratos, a profissionalização da gestão é um dos eixos do Prepara Gastronomia. A consultoria ajuda os empresários a entender os custos da operação, identificar gargalos, reduzir desperdícios e definir preços que garantam a sustentabilidade do negócio.
O trabalho parte da realidade de cada casa. Às vezes o empreendedor já chega com a ideia de um prato ou de um ingrediente. O consultor então avalia a execução, os equipamentos disponíveis, a capacidade de produção e os custos.
A precificação é um ponto central. Segundo chef e consultor gastronômico Fagner Rodrigues, não basta olhar o preço de compra do ingrediente. É preciso calcular o rendimento depois do preparo, a quantidade usada em cada porção e os demais custos da operação.
Ele dá o exemplo da carne de cordeiro. O quilo pode custar R$ 80, mas, se o rendimento depois de cozida for de 60%, o custo efetivo chega a cerca de R$ 133 por quilo. Se essa diferença não entra no preço final, a margem de lucro fica comprometida.

Por isso, o consultor orienta os empresários a avaliar se determinado ingrediente combina com o perfil da casa e com a demanda dos clientes. “É necessário ter um prato que seja interessante e que fique na memória do consumidor, mas também precisamos olhar para os preços e os processos de produção”, explica.
As receitas também levam em conta a identidade de cada empreendedor. No Villa Donna Bistrô, a sugestão foi incorporar carne suína ao risoto, um dos carros-chefes da casa. O prato ganhou costelinha cozida com cachaça e raspas de limão.
No Boteco Vila Amarela, a consultoria trabalhou uma linguiça caipira artesanal com pimenta-de-cheiro, ingrediente ligado à origem goiana da proprietária, Aparecida Lemos. A ideia é que inovar não signifique copiar tendências, e sim encontrar soluções que façam sentido para cada negócio.
Menos desperdício e mais autonomia
A chef do Villa Donna Bistrô, Sônia Cohen, passou dez anos envolvida diretamente na operação diária do restaurante. Ela diz que o Prepara Gastronomia permitiu que se concentrasse na criação dos pratos e na gestão da equipe, sem deixar de acompanhar a cozinha.
Hoje, ela cria as receitas e as testa com os funcionários, que participam da avaliação. Depois, cada prato ganha uma ficha técnica para manter o padrão na produção.
A gestão do restaurante se apoia em três pilares: qualidade dos ingredientes, treinamento e técnica de preparo. O objetivo é aproveitar melhor cada produto. “Eu busco desperdício zero hoje na minha cozinha e a gente tem conseguido grandes avanços”, afirma.
Na prática, a mudança vai além das finanças e envolve compras, vendas, marketing, recursos humanos, treinamento e controle de qualidade.
Próxima etapa
A diversidade de propostas também cresceu. Além dos restaurantes tradicionais, negócios ligados a café, chocolate e experiências gastronômicas ampliam as opções para o visitante.
Para o Sebrae Minas, o desafio agora é manter o trabalho coletivo e atrair mais empreendedores. Segundo o analista da entidade, Anderson Faria, já existe uma proposta de continuidade das ações em 2027. A meta é consolidar uma cadeia produtiva mais integrada, com estabelecimentos preparados para públicos diferentes e fornecedores locais cada vez mais presentes nos cardápios.
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