Minas Gerais registra avanços e desafios no desenvolvimento sustentável
Minas Gerais chega à reta final de 2026 com um retrato dividido. De um lado, um conjunto de iniciativas concretas de sustentabilidade, inclusão e governança corporativa que já produz resultado mensurável. De outro, um Estado que, na prática de suas 853 prefeituras, ainda avança devagar demais para cumprir a Agenda 2030 da ONU dentro do prazo. Entre esses dois extremos está a aposta do empresariado mineiro, e de um movimento que reúne empresas, universidades, poder público e sociedade civil, de que o desenvolvimento só se sustenta quando construído em rede.
O caso mais avançado de filantropia estruturada em Minas hoje é a Fundação Salvar, organização da sociedade civil criada em 2019 por um grupo de bombeiros militares. Em sete anos, ela executou 279 projetos e mobilizou mais de R$ 75 milhões, a maior parte via a Plataforma Semente, mecanismo que direciona recursos de acordos judiciais do Ministério Público de Minas Gerais a causas de interesse social. O dinheiro já financiou desde viaturas de resgate até a compra de um helicóptero avaliado em R$ 43,5 milhões, e a atuação da fundação hoje cobre 75% da malha operacional do Corpo de Bombeiros, atendendo 667 municípios. O maior desafio agora, segundo a própria fundação, é chegar aos 463 municípios pequenos, com até 10 mil habitantes, que ainda não foram alcançados.
Um modelo semelhante nasceu em setembro com a coalizão Redes Minas, que une o Movimento Bem Maior, o Instituto Localiza e o Instituto MRV&CO para oferecer 300 vagas de qualificação profissional a mulheres de periferias de Belo Horizonte, Itabirito e Ribeirão das Neves, em parceria com organizações que já atuam nesses territórios, como a Cufa Minas. A lógica por trás dela é a mesma que já orienta o Instituto Localiza, hoje presente em cerca de 80 organizações sociais e 30 mil jovens por ano, e o Grupo Cedro Participações, que financia mais de 60 iniciativas em Nova Lima e Mariana: filantropia como investimento de longo prazo, não como doação pontual em resposta a uma emergência. O contraste com o padrão nacional é relevante. Uma pesquisa do Instituto Pensi para a Fundação José Luiz Setúbal mostrou que, dos mais de R$ 23 bilhões doados no Brasil em 2024, quase R$ 17 bilhões ficaram concentrados no Sul e no Sudeste, reforçando desigualdades regionais que o próprio setor reconhece como problema.
Governança deixou de ser discurso, mas ainda tem limite de mercado
No mundo corporativo, o ESG (ambiental, social e governança) deixou de ser apenas comunicação institucional. A TSEA, multinacional mineira de infraestrutura energética, mantém um programa de aprendizagem industrial com o Senai que já formou 40 jovens neste ano e prevê contratar até 900 novos profissionais até 2030. A MIP Engenharia recebeu pela quarta vez o selo Empresa Pró-Ética, da Controladoria-Geral da União, e integra o projeto Juntos Contra a Pobreza, capitaneado pela Vale, que já tirou cerca de 60 mil pessoas da pobreza extrema no Pará e no Maranhão. O Instituto Euvaldo Lodi, ligado à Fiemg, já certificou 11 empresas mineiras com o selo de sustentabilidade do programa Aliança Ambiental Estratégica.
Mas há um limite estrutural nesse avanço, apontado pelo próprio setor produtivo: o mercado ainda não paga o prêmio necessário para tornar a sustentabilidade competitiva por si só. É o caso do aço de baixo carbono. O Brasil, e Minas Gerais em especial, está em posição privilegiada nesse segmento, com empresas como a Gerdau (maior recicladora de sucata da América Latina, com cerca de 70% da produção baseada nesse insumo) e a Aperam South America (100% de carvão vegetal renovável nos altos-fornos) na dianteira. O novo Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia, em vigor desde janeiro, tende a favorecer esse tipo de produto. Ainda assim, executivos do setor reconhecem que, quando o preço é o mesmo, o consumidor escolhe o produto mais sustentável, mas quando há diferença de custo, o mais barato ainda vence na maioria dos casos, mesmo gerando mais emissões de carbono.
O caso oposto, de oportunidade perdida, é o do lítio. Minas concentra as maiores reservas do mineral no Brasil e já atraiu R$ 6,9 bilhões em investimentos privados na região batizada de Vale do Lítio, no Jequitinhonha, no Mucuri e no Norte do Estado. Mas a cadeia produtiva mineira ainda para na etapa mais primária: a extração e exportação do concentrado bruto, de menor valor agregado. Enquanto isso, países como a China compram esse concentrado, industrializam e revendem como células de bateria a preços muito mais altos. Segundo especialistas do setor, a tecnologia para dar o próximo passo, a produção de carbonato e hidróxido de lítio, já existe em escala reduzida no Estado desde a década de 1990, mas falta política pública e capital para escalá-la.
Água, clima e uma tragédia que expôs a vulnerabilidade das cidades
O ano de 2026 deixou claro que Minas Gerais já vive os efeitos das mudanças climáticas, não apenas se prepara para eles. Em fevereiro, chuvas históricas provocaram a pior tragédia climática recente do Estado, com 72 mortos em Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata, num único episódio de 24 horas com o maior índice pluviométrico das últimas três décadas. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia mostram que Belo Horizonte teve o segundo maior número de alertas de desastre do país em 2024, atrás apenas de Manaus.
Diante desse cenário, o caso de recuperação mais bem documentado do Estado é o da Lagoa da Pampulha. Depois de uma década de trabalho técnico de despoluição, iniciado em 2016, o Índice de Qualidade da Água da lagoa saltou de níveis críticos para a faixa entre bom e ótimo, com picos de 82 pontos numa escala de até 100, resultado do controle do fósforo e das cianobactérias que antes formavam manchas visíveis na orla. O avanço acontece justamente no ano em que o conjunto arquitetônico da Pampulha completa dez anos como Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco, e coincide com o debate, ainda não resolvido, sobre conceder a gestão da orla à iniciativa privada. Especialistas ouvidos ao longo do ano insistem num ponto: os ganhos na lagoa continuam sob pressão porque o problema de fundo, o lançamento diário de esgoto irregular na bacia, ainda não foi resolvido, e nenhuma tecnologia de tratamento consegue substituir investimento em saneamento básico.
Diversidade e periferias: o argumento econômico ganha força
Um argumento que se consolidou ao longo do ano é o de que a exclusão social tem custo econômico direto, não apenas moral. Levantamentos do Ipea mostram que mulheres negras ocupam a base da pirâmide de renda no Brasil, com as maiores taxas de desemprego e informalidade entre todos os grupos populacionais. Ao mesmo tempo, dados do Sebrae indicam que pessoas negras já são 52% dos empreendedores brasileiros, e as favelas do país movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano em consumo e renda própria, mais do que o PIB de países como Bolívia e Paraguai.
A Expo Favela Minas 2026 traduziu esse potencial em números concretos: mais de 8 mil visitantes e R$ 6 milhões movimentados em negócios em dois dias, com 80% dos 60 empreendimentos selecionados liderados por mulheres. Um estudo de 2023 da consultoria McKinsey, citado como referência pelo setor, reforça o argumento de negócio por trás da diversidade: empresas com mais de 30% de mulheres em cargos de liderança e mais de 39% de diversidade étnica na alta gestão têm maior probabilidade de rentabilidade acima da média do mercado. Apesar disso, uma deputada estadual da Frente Parlamentar de ESG na Assembleia Legislativa reconheceu publicamente que ainda existe um descompasso entre esse discurso e sua implementação efetiva dentro das empresas mineiras. E o Relatório Luz 2025, que monitora a Agenda 2030 no Brasil, mostrou que nenhuma das metas do ODS 5, sobre igualdade de gênero, avançou o suficiente até agora.
Saúde mental virou pauta de gestão, e o dado sobre os jovens preocupa
O corte da saúde mental no trabalho deixou de ser tratado como benefício acessório. Dados oficiais mostram que os afastamentos do trabalho por transtorno mental no Brasil saltaram de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024, aumento de mais de 130%, e a Organização Mundial da Saúde estima uma perda global de produtividade de cerca de US$ 1 trilhão por ano associada a ansiedade e depressão. Empresas mineiras já respondem a isso: a Localiza&Co eliminou a coparticipação em psicoterapia dentro de seu programa de bem-estar, e 34% dos participantes iniciaram terapia pela primeira vez na vida por causa disso.
O dado mais alarmante do ano, porém, é sobre os adolescentes. A pesquisa PeNSe, do IBGE, mostrou que três em cada dez jovens brasileiros entre 13 e 17 anos relatam tristeza frequente, e 18,5% afirmam que a vida não vale a pena ser vivida. É um número que expõe uma fragilidade estrutural na rede de apoio psicológico das escolas mineiras, ainda incapaz de acompanhar essa realidade.
Inteligência artificial já é prioridade, mas sem retorno visível ainda
A inteligência artificial se consolidou, em 2026, como prioridade estratégica declarada pelas empresas brasileiras, segundo a pesquisa Panorama 2026 da Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil). O problema é que mais de 60% delas ainda não percebem ganhos concretos de produtividade com a tecnologia, um sinal de que o discurso corre à frente da adoção real. Especialistas em governança de algoritmos alertam que decisões automatizadas de recrutamento, crédito e precificação já produzem efeitos sociais reais em Minas, da mineração ao varejo, e que a responsabilidade por esses efeitos recai também sobre quem usa esses sistemas, não apenas sobre quem os desenvolve.
O elo mais fraco: os municípios
Se há um ponto em que o discurso institucional e a realidade mais se distanciam, é na adesão dos municípios mineiros à Agenda 2030. Passados dez dos quinze anos previstos para o cumprimento das metas da ONU, pouco mais de 50 dos 853 municípios de Minas Gerais haviam formalizado adesão até meados deste ano, uma “adesão tímida”, nas palavras de uma deputada estadual que cobrou o tema em audiência pública na Assembleia Legislativa. O quadro se repete na digitalização da máquina pública: até março, apenas dez das 853 prefeituras mineiras haviam adotado o sistema estadual que substitui o trâmite físico de documentos por processos digitais, apesar de o governo do Estado já ter digitalizado 85% de seus próprios serviços.
Esse descompasso entre a mobilização de lideranças empresariais, universidades e grandes ONGs, muito visível em fóruns e conferências realizados ao longo do ano, e a realidade de administração de cidades pequenas, com pouco orçamento e pouca capacidade técnica, é talvez o maior desafio real por trás da meta de fazer de Minas Gerais uma referência nacional em desenvolvimento sustentável até 2032. As eleições de outubro deste ano, com pré-candidatos ao governo do Estado divergindo publicamente sobre o peso que a agenda ambiental e social deve ter no próximo mandato, devem definir se esse ritmo muda nos próximos quatro anos.
No fim, Minas Gerais não carece de bons projetos. Eles existem, são numerosos e, em vários casos, já produzem resultado que pode ser medido em reais, em vagas de emprego ou em pontos no índice de qualidade da água. O que falta é o mesmo fôlego institucional que hoje sustenta fóruns e coalizões em Belo Horizonte chegar também à prefeitura do município de dez mil habitantes, sem corpo técnico e sem orçamento, que ainda não assinou a adesão aos ODS. É nesse município, e não nos grandes eventos do calendário empresarial mineiro, que o Movimento Minas 2032 vai encontrar seu teste mais difícil nos próximos anos.

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